Como aproveitar os benefícios de passar tempo sozinho

A solitude é uma oportunidade de autorreflexão. Em um mundo de distrações, é preciso estar aberto a essas experiências para ter acesso às vantagens que elas oferecem

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A solitude se tornou um tema de fascínio nas sociedades modernas ocidentais porque acreditamos que é uma arte perdida – frequentemente buscada, embora raramente encontrada. Pode parecer que precisamos nos distanciar completamente da sociedade para encontrar momentos de paz para nós mesmos. Mas há uma passagem que eu gosto muito do livro “Solitude: In Pursuit of a Singular Life in a Crowded World” [Solitude: Em busca de uma vida singular em um mundo lotado, em tradução livre], do jornalista canadense Michael Harris: “Eu não quero fugir do mundo – eu quero me redescobrir dentro dele. Quero saber o que acontece se voltarmos a tomar doses de solitude nos nossos dias cheios, por entre nossas ruas lotadas.”

Devagar e firmemente, o interesse de pesquisadores pela solitude vem aumentando. Note que, solitude – tempo sozinho – não é sinônimo de solidão, que é um senso subjetivo de isolamento social indesejado, algo que sabemos ser prejudicial à saúde física e mental. Por outro lado, muitos estudos observacionais têm documentado uma correlação entre maior nível de bem-estar e motivações saudáveis para a solitude – isto é, ver a solitude como algo agradável e valioso. Mas, por si só, isso não prova que buscar a solitude é benéfico. Na ciência, para fazer tal afirmação, teríamos que isolar a solitude como a única variável, enquanto mantemos outras explicações alternativas constantes. Isso é um grande desafio. Na vida cotidiana, passamos tempo sozinho enquanto também fazemos outras coisas, como trabalhar, fazer compras, nos deslocar, caminhar, aprender um hobby ou ler um livro. Assim, com tantas variações nas formas em que as pessoas passam tempo sozinhas, é difícil fazer uma declaração definitiva de que a solitude por si só melhora nosso bem-estar.

Ao conduzir estudos experimentais, em que voluntários passaram tempo em condições controladas sozinhos ou na companhia de outros, uma equipe de pesquisadores, liderados pela psicóloga Netta Weinstein, da Universidade de Reading, e por mim, superou os empecilhos da pesquisa correlacional, esclarecendo quando a solitude realmente é benéfica.

Em uma série de estudos, olhamos como as emoções das pessoas mudavam após passarem um tempo sozinhas. Medimos emoções positivas associadas a altos níveis de excitação, como entusiasmo e energização, e emoções associadas a baixos níveis de excitação, como tranquilidade e relaxamento. Também medimos emoções negativas associadas a altos níveis de excitação, como raiva e ansiedade, e emoções negativas associadas a baixos níveis de excitação, como solidão e tristeza.

Ao cobrir os dois polos do que os psicólogos chamam de “valência afetiva” (positiva ou negativa), e “excitação afetiva” (alta ou baixa), demonstramos que o tempo passado sozinho é uma oportunidade única de “regulação de excitação” – isto é, ambas as formas positiva e negativa de alta excitação diminuem quando passamos tempo sozinhos. Chamamos isso de o “efeito desativação”.

Embora o efeito desativação tenha sido constante por todas as condições que estabelecemos, mudanças em emoções positivas e negativas de baixa excitação dependiam de quão motivada uma pessoa estava para passar tempo sozinha. Se os voluntários abraçavam e desfrutavam da solitude, tendiam a vivenciar um aumento das emoções positivas de baixa excitação – por exemplo, sentindo-se mais relaxados – mas se as pessoas não valorizavam o tempo sozinhas, estavam mais propensas a vivenciar um aumento das emoções negativas de baixa excitação, sentindo-se tristes e solitárias.

Isso significa que, para aproveitar mais o tempo que passamos sozinhos, é importante estarmos abertos aos benefícios que a solitude pode oferecer. Para muitas pessoas agora vivendo restrições de deslocamento e da vida social, será um tempo solitário; para alguns de nós, pode ser uma chance de experimentar os benefícios da solitude inesperada. Embora isso não necessariamente melhore a nossa vida de forma geral, pode tornar surtos momentâneos de emoções negativas mais suportáveis.

Se podemos nos beneficiar do efeito desativação (isto é, diminuir nossos níveis de excitação) simplesmente passando tempo sozinhos, importa se usamos redes sociais durante esses momentos ou fazemos qualquer outra coisa? Recebo essa pergunta com frequência. As evidências que reunimos sugerem que mexer no celular não cancela o efeito desativação. No entanto, elimina um outro benefício de passar tempo sozinho sem uma atividade: a oportunidade de autorreflexão.

Nos nossos estudos, definimos autorreflexão como o ato de atentar aos pensamentos e sentimentos. Em dois experimentos, concluímos que os participantes que estavam em completa solitude, sem uma atividade secundária, refletiram mais do que aqueles que liam enquanto estavam sozinhos. Aqueles que estavam sozinhos enquanto navegavam pelas redes sociais eram os menos reflexivos. Na verdade, se você é alguém que tende a ser reflexivo, nossa pesquisa demonstrou que tempo sozinho é mais agradável se você se permite simplesmente estar sozinho, ao invés de ler ou usar o celular.

É claro que isso não é uma nova ideia. Tem sido amplamente sugerido em livros populares e textos filosóficos que passar tempo sozinho é bom para a autorreflexão. No entanto, nem toda autorreflexão durante momentos de solitude é qualitativamente a mesma coisa: pode ser perspicaz ou ruminativa. Nos nossos experimentos atuais, quando Weinstein e eu pedimos aos participantes que descrevessem um momento em que estavam sozinhos e se sentiram pouco autênticos ou “não verdadeiros” com eles mesmos, isso caracteriza a variedade ruminativa de autorreflexão, repleta de pensamentos negativos e arrependimentos dos quais eles não conseguiam fugir.

Quando a autorreflexão fica amarga e a ruminação nos domina, práticas de meditação podem ser uma estratégia efetiva para algumas pessoas acalmarem seus pensamentos negativos repetitivos. No entanto, essa sugestão deve ser tomada com cautela, já que a meditação não funciona para todo mundo e pode ser melhor praticada com moderação. Então, alternativamente, não é uma ideia de todo ruim quebrar a solitude e se voltar a um amigo confiável, mesmo por telefone ou mensagem. Se você tem escolha, não é recomendável permanecer em solitude quando isso não é mais frutífero, especialmente se você sente que ruminações e preocupações estão causando angústia.

Tempo sozinho é uma oportunidade de apertarmos o botão de recomeçar, para acalmar as nossas emoções de alta excitação. Durante o tempo que passamos sozinhos, também temos a opção de buscar a solitude completa, abandonando nossas atividades diárias e encontrando espaço para atentar aos nossos pensamentos e sentimentos. Porém, se a solitude diária é uma arte perdida, como sugere Michael Harris, como encontramos a motivação para cultivá-la?

A resposta depende da pessoa mas, surpreendentemente, não tem tanto a ver com o fato de você ser introvertido ou extrovertido. Na verdade, nossa pesquisa mostra que uma motivação saudável para passar tempo sozinho está ligada a uma característica da personalidade chamada “autonomia disposicional”, que descreve a capacidade de as pessoas regularem suas experiências diárias à sua vontade. Essencialmente, isso significa que abraçar a solitude é mais sobre ter a habilidade de regular suas emoções do que sobre quão introvertido você possa ser.

Pessoas com personalidades autônomas sentem que escolheram fazer o que estão fazendo, ao invés de se verem como peões à mercê do ambiente externo. Ter essa abordagem na vida também envolve se interessar por cada parte das suas experiências, tentando novas vivências e explorando como você se sente sobre elas. De fato, quando criamos uma manipulação no laboratório em que algumas pessoas foram forçadas a passar tempo sozinhas (assim reduzindo seu senso de autonomia) e outras foram convidadas a experimentar (alimentando sua autonomia), aqueles que foram forçados à solitude viram menos valor na experiência e, portanto, tiveram menor aproveitamento dela.

É importante notar que todos os voluntários testados nessas pesquisas foram estudantes universitários nos Estados Unidos. Assim, essas descobertas feitas entre 2017 e 2019 nos contam sobre as experiências diárias com a solitude de jovens adultos em sociedades que oferecem acesso fácil a muitas formas de entretenimento e horários de trabalho flexíveis. Em uma cultura alimentada por estilos de vida acelerados e tecnologias convenientes, somos facilmente puxados por nossos dispositivos e nossa obsessão com a produtividade. Quando estamos sozinhos, nos encontramos trabalhando, e quando temos tempo livre, queremos acompanhar o que outras pessoas estão fazendo pelos nossos celulares. Isso pode ser verdade mesmo quando as pessoas estão em confinamento e incapazes de socializar cara a cara.

Essa mentalidade, em que ativamente buscamos evitar a solitude, apenas aumenta a chance de acharmos a experiência desagradável quando a encontramos. Inversamente, se aproveitarmos a oportunidade de relaxamento e reflexão proporcionadas por momentos de solitude nas nossas vidas ocupadas, podemos colher os benefícios. Tempos em que ficamos inesperadamente sozinhos podem ser difíceis mas, pelo menos para alguns de nós, também podem ser uma benção disfarçada.

Thuy-vy Nguyen é professora assistente de psicologia da Universidade de Durham, no Reino Unido.

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