Como a pandemia mudou nossa percepção do tempo

Incertezas em crises como a imposta pelo novo coronavírus afetam a nossa capacidade de se planejar

A pandemia de covid-19 mudou completamente nossas vidas. Considere algo tão fundamental quanto nossas experiências de espaços: nossa mobilidade tornou-se ultrarrestrita – limitada a corridas e caminhadas de poucos quilômetros em torno de nossas casas. Talvez, menos obviamente, o lockdown também tenha afetado nossas experiências de tempo.

Como antropólogo do tempo, investigo como os seres humanos se relacionam com o tempo, particularmente durante crises. A crise atual, como muitas outras, pode ser vista como uma privação de nossa “agência temporal” – a capacidade de estruturar, gerenciar e manipular nossa experiência do tempo. Por exemplo, muitos de nós já devem ter perdido a noção do tempo, e se perguntado em que dia da semana estamos. Parece um pouco como se o tempo tivesse parado.

A característica mais importante de nossas experiências de tempo durante a crise é o que a antropóloga Jane Guyer chamou de “presentismo forçado”: um sentimento de estar preso no presente, combinado com a incapacidade de planejar o futuro. No momento, não sabemos quando poderemos ver nossos entes queridos novamente ou quando poderemos sair de férias. Mais do que isso, muitos de nós não sabemos quando voltaremos ao trabalho – ou mesmo se teremos um emprego para o qual voltar. No meio dessa crise, é difícil imaginar um futuro que pareça diferente do presente.

Enganando o tempo

Então, como fazemos? Eu acredito que essa crise nos levou a sermos mais criativos com nossas relações com o tempo. Muitos estão inclusive “enganando o tempo” até certo ponto, como Roxana Moroşanu e eu descrevemos em um artigo recente. Aceleramos e desaceleramos, dobramos e reestruturamos o tempo de várias maneiras diferentes.

Os “tempos do coronavírus”, na realidade, consistem em diversos tempos, como “o tempo de lockdown”, “a quarentena” ou “o tempo em home office”. Aprendemos a viver esses novos tempos presentes. Essas lições são profundamente pessoais e diferem para cada família. Ainda assim, fala-se de uma experiência compartilhada em todo o mundo.

Nos últimos meses, você deve ter implementado muitas estratégias temporais por conta própria. Entre elas, pode existir a construção de novos ritmos e estruturas temporais. Exercícios diários, reuniões semanais com a família por Zoom, uma taça de vinho às 6 h da tarde ou assar um bolo no fim de semana marcam a passagem do tempo. E a educação a distância também exigiu novos horários – sem mencionar a persuasão sem fim.

O relógio do capitalismo

Para muitos, esse sentimento de estagnação não é novo. Aqueles que não conseguem acompanhar os fluxos globais de dinheiro, ideias, mercadorias e pessoas que estão em constante aceleração costumam ficar para trás. Os críticos do capitalismo argumentam, portanto, que precisamos de uma desaceleração do tempo.

No meu trabalho sobre cidades pós-industriais, estudei nossa relação com o futuro em tempos de crises econômicas. Essas crises são parte integrante do capitalismo, como Marx nos disse há mais de 150 anos atrás. Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, os estados de bem-estar social mantiveram, em grande parte, as crises econômicas sob controle.

Mas as reformas neoliberais do capitalismo dos anos 1980 resultaram no desmantelamento do estado de bem-estar social. Governos nacionais deixaram de conceber planos de cinco anos. O sistema de administração de produção just-in-time e novos desenvolvimentos tecnológicos como a internet levaram a uma aceleração sem precedentes do tempo.

Temporalmente, o neoliberalismo colocou a humanidade em modo de crise já há várias décadas. Sem segurança no emprego e em mercados em constante mudança, muitos de nós penamos para planejar nossas vidas com antecedência – ficando presos no presente. A maneira de superar essa situação é “tentar gerenciar”, ou, como dizem os britânicos heroicamente, keep calm and carry on(“manter a calma e seguir em frente”).

Muitas cidades pós-industriais, como as do País de Gales e do nordeste da Inglaterra, perderam a visão de seus ganhos coletivos. Após anos de boom industrial e altas taxas de emprego, muitos habitantes percebem suas cidades “sem futuro”. O desmantelamento de indústrias locais, como a mineração, levou ao alto desemprego e a imprevistos níveis de migração para fora dessas áreas. Os jovens e mais instruídos saem de sua cidade natal em busca de emprego, enquanto aqueles que ficam para trás testemunham o declínio dela.

Para superar a falta de previsão e de presentismo forçado, seus governos tiveram que recuperar o planejamento futuro, em vez de apenas responder a questões atuais. Apesar do declínio contínuo, os governos têm se perguntado: o que queremos da nossa cidade, digamos, daqui a cinco anos?

Recuperando o futuro

Isso se aplica também à nossa situação atual. Agora é a hora de pensar no futuro sobre como deveria ser a vida pós-covid-19 – precisamos enganar o tempo mais do que somente para o nosso bem-estar e conforto pessoal. Embora uma vacina ou tratamento adequado para a covid-19 ainda não estejam à vista, precisamos tentar quebrar essa sensação de estar preso no presente. Agora precisamos nos envolver com a política emergente dessa época, que determinará nosso futuro.

Por exemplo, em breve, veremos diferentes tentativas de declarar o fim da pandemia, com base, por exemplo, em baixos números de novas infecções, e devemos analisá-las cautelosamente. Também teremos que fazer perguntas fundamentais: como podemos resolver a crise climática em andamento? Como podemos evitar as desigualdades sociais em uma recessão econômica nunca antes vista? Como podemos evitar outra pandemia? A política do tempo também será crucial retrospectivamente: os governos agiram com suficiente rapidez?

Como a crise do coronavírus está nos permitindo vivenciar tempos diferentes, será interessante ver se partes desta nova normalidade, como o trabalho a distância e mobilidade reduzida, permanecerão. Mas mesmo que seja apenas uma pausa involuntária dos tempos capitalistas, devemos reconsiderar os regimes neoliberais temporais de crescimento, declínio e vida acelerada que moldaram a vida na Terra.

Nossas experiências nos tempos de covid-19 nos deixaram treinados em pensamento e flexibilidade temporal. A humanidade enfrentará esta crise, mas há outras pela frente. Talvez seja confortante saber que podemos, e devemos, enganar o tempo e planejar o futuro – mesmo quando nos sentimos presos no presente.

Felix Ringel é professor assistente de Antropologia na Durham University

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