O que há por trás do desejo de comer como crianças na pandemia

Em tempos de incerteza e estresse, muitos adultos estão se voltando para alimentos e comidas que traziam conforto na infância

Você já se reparou pegando um saco extra de batata chips no supermercado? Ou comendo mais jantares congelados do que costumava? Ou mesmo comendo lanches que você não come desde muito pequeno?

A pandemia do novo coronavírus alterou quase todos os aspectos da nossa rotina – como nos vestimos, trabalhamos e nos exercitamos.

Está mudando também a maneira como comemos. Como uma dietista licenciada e pesquisadora em nutrição, sou fascinada pelos tipos de alimentos que as pessoas estão comprando durante este período estranho.

Uma pesquisa recente constatou que 42% dos entrevistados estão comprando mais alimentos embalados do que normalmente comprariam e menos alimentos frescos.

As vendas de pizzas congeladas quase dobraram. Vendas de aperitivos e lanches congelados mais do que triplicaram, enquanto as vendas de sorvetes aumentaram 36%. De acordo com o Uber Eats, o pedido de entrega de comida mais comum nos Estados Unidos tem sido a batata frita, enquanto a bebida mais popular é o refrigerante.

Para mim, esses alimentos têm uma coisa em comum: são o que comíamos quando pequenos.

Por que os adultos estão voltando para a dispensa de seu passado? O que há com a pandemia que nos faz sentir como adolescentes numa festa? As razões estão profundamente enraizadas em nós.

Em sua essência, o objetivo dos alimentos é nutrir. Obviamente, os alimentos nos fornecem a energia e o equilíbrio necessários de vitaminas e minerais para abastecer e nutrir nosso corpo. Mas qualquer um que já tomou um pote de sorvete Ben & Jerry's após um dia particularmente estressante entenderá que a sua satisfação é mais do que nutrição.

Durante períodos de estresse, as pessoas tendem a comer mais e mostram uma preferência maior por alimentos com mais calorias. Quanto mais doce e salgado, melhor. Independentemente da fome, um lanche saboroso pode ser reconfortante. Há evidências que sugerem que alimentos altamente palatáveis, especialmente aqueles com alto teor de gordura e açúcar, podem provocar uma reação no cérebro semelhante à que é causada por opióides.

Sim, uma deliciosa fatia de bolo de chocolate pode causar uma sensação tão boa quanto drogas.

Nós tendemos a chamar muitos desses alimentos de “comida de conforto”, mas essa definição pode ser um pouco nebulosa. A escolha da comida é profundamente pessoal. Alimentos que confortam vão depender da bagagem cultural, preferências de gosto/paladar e experiências pessoais de cada um. Sabemos, também, que comidas podem induzir sentimentos de nostalgia que nos transportam de volta a tempos mais simples e melhores.

Portanto, não é de surpreender que, durante um período de incertezas quando muitos de nós estamos desesperados por algum alívio e conforto, os alimentos de nossa infância possam atuar como uma salvação. Para alguns de nós, uma mera tigela de Sucrilhos não é apenas uma doce recompensa; mas um lembrete de dias passados, um tempo de segurança e estabilidade.

Não há nada inerentemente errado em encontrar alívio temporário contra o caos e incerteza por meio de certos alimentos. Mas é provavelmente melhor enxergarmos essas mudanças no comportamento alimentar apenas como um hábito temporário durante um período inusitado. Afinal, uma dieta rica em macarrão com queijo e nuggets de frango não vai manter nossos corpos plenamente saudáveis e bem dispostos a longo prazo.

À medida que a vida das pessoas volte a um senso de normalidade, a dieta pode se tornar uma parte significativa na equação. Retornar a uma dieta mais consciente e saudável pode fazer parte do restabelecimento de rotinas anteriores. E se você nunca conseguiu encontrar tempo para priorizar uma alimentação saudável, agora pode ser a oportunidade adequada para começar a estabelecer as bases para hábitos que se tornarão o novo normal.

Carli Liguori é instrutora de nutrição e mudança de comportamento da Universidade de Pittsburgh

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