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Por que um senso de propósito pode ajudar a encarar a morte

Ter a consciência de que o fim uma hora vai chegar é um caminho para uma vida mais completa

Apesar de todos os nossos avanços médicos, meu amigo Jason costumava brincar que “a taxa de mortalidade continua constante – uma por pessoa”.

Jason e eu fizemos juntos o curso de medicina na década de 1980. Juntos com o resto da classe, passamos seis longos anos memorizando tudo que poderia acontecer de errado com o corpo humano.

Diligentemente trabalhamos em cima do livro “Bases patológicas das doenças”, que descrevia em detalhes cada uma das enfermidades que poderiam assolar o ser humano. Não é uma surpresa que estudantes de medicina se tornam hipocondríacos e atribuem causas sinistras à qualquer caroço, galo ou irritação que encontram em si mesmos.

A observação de Jason, frequentemente repetida, me lembrava que a morte (e doenças) são aspectos inevitáveis da vida. No entanto, algumas vezes no Ocidente parece que desenvolvemos uma recusa ilusória a essa ideia. Investimos bilhões no prolongamento da vida com medicamentos e cirurgias cada vez mais caras — a maioria delas utilizadas em nossos decrépitos anos finais. Em uma perspectiva maior parece um desperdício fútil de nossos preciosos gastos em saúde.

Não me entenda errado. Se eu for assolado pelo câncer, doenças cardíacas ou qualquer outra enfermidade que ameaça a vida e que aprendi no curso de medicina, quero acessar todos os tratamentos caros e fúteis possíveis. Valorizo minha vida. Na verdade, como a maioria dos seres humanos, valorizo estar vivo acima de praticamente tudo. Mas, assim como a maioria, tendo a não valorizar a vida a não ser que esteja enfrentando uma possibilidade iminente de tê-la tirada de mim.

Outro amigo, Ross, estudava filosofia ao mesmo tempo em que eu estudava medicina. Na época ele escreveu um ensaio intitulado Morte, uma professora, que teve um profundo efeito em mim. O texto argumentava que a melhor coisa que poderíamos fazer para apreciar a vida seria manter a inevitabilidade da morte sempre na dianteira de nossas mentes.

Quando a australiana Bronnie Ware, enfermeira de tratamentos paliativos, entrevistou algumas pessoas sobre suas últimas 12 semanas de vida, ela perguntou sobre seus maiores arrependimentos. Os mais frequentes, publicados em seu livro “Os cinco maiores arrependimentos dos desfalecidos” (2011), eram:

  1. gostaria de ter encontrado a coragem para viver a vida verdadeiramente para mim mesmo, não a que os outros esperavam de mim;
  2. desejaria não ter trabalhado tanto;
  3. queria ter tido coragem para expressar meus sentimentos;
  4. queria ter mantido o contato com meus amigos;
  5. queria ter me permitido ser mais feliz.

A relação entre a consciência da morte e a experiência de uma vida de realizações era a preocupação central do filósofo alemão Martin Heidegger, inspiração de Jean-Paul Sartre e outros pensadores do existencialismo. Heidegger lamentou que tantas pessoas jogam fora suas vidas ao correrem com o “rebanho” ao invés de serem verdadeiros consigo mesmos. Mas, na realidade, Heidegger lutou para viver seus ideais; em 1993 ele se uniu ao partido nazista esperando alavancar sua carreira.

Apesar de suas falhas como humano, as ideias de Heidegger influenciaram uma vasta gama de filósofos, artistas, teólogos e outros pensadores. Ele acreditava que a noção aristotélica do ser – que baseou o pensamento ocidental por mais de dois mil anos e foi instrumental no desenvolvimento do pensamento científico – foi falha em seu nível mais fundamental. Enquanto Aristóteles percebeu a existência, incluindo os seres humanos, na qualidade de coisas passíveis de classificação e análise para ampliar o conhecimento sobre o mundo, em “O ser e o tempo” (1927), Heidegger argumentou que antes de classificarmos o Ser, devemos nos perguntar: “Quem ou o quê está fazendo todo esse questionamento?”

Salientou que nós, que estamos questionando sobre o Ser, somos qualitativamente diferentes do resto da existência: as pedras, oceanos, pássaros e insetos que perguntamos sobre. Ele inventou uma palavra especial para esse Ser que questiona, observa e se preocupa. Ele o chamou de "Dasein", que, em tradução livre, significa 'Ser-aí'. Ele cunhou o termo Dasein porque acreditava que havíamos nos tornado imunes a palavras como 'pessoa', 'humano' e 'ser humano', perdendo nosso senso de questionamento sobre nossa própria consciência.

A filosofia de Heidegger permanece atrativa para muitos dos que veem que a ciência tem dificuldade para explicar a experiência de ser uma pessoa moral, cuidadosa e ciente de que a sua preciosa, misteriosa e linda vida um dia chegará ao fim. De acordo com Heidegger, essa consciência de que nossa própria morte é inevitável nos torna, ao contrário das pedras e das árvores, ávidos em tornar nossa vida compensadora e criar sentido, propósito e valor.

Enquanto a medicina ocidental, baseada no pensamento aristotélico, enxerga o ser humano como algo material que pode ser entendido a partir do exame e da abertura de suas partes conforme qualquer outro pedaço de matéria, a ontologia de Heidegger coloca a experiência humana no centro de nosso entendimento sobre o mundo.

Dez anos atrás fui diagnosticado com melanoma. Como médico, eu sabia o quão agressivo e rapidamente fatal o câncer poderia ser. Felizmente, para mim, a cirurgia parecia ser a solução (bata na madeira). Mas também fui privilegiado em outro sentido. Me tornei consciente, de um jeito que nunca havia sido, de que iria morrer – se não de melanoma, por outra causa, em algum momento. Tenho sido muito mais feliz desde então. Para mim, essa percepção, essa aceitação, essa consciência de que irei morrer é ao menos tão importante para meu bem-estar quanto todos os avanços da medicina, porque me lembra de viver minha vida ao máximo todos os dias. Não quero experimentar os arrependimentos que Bronnie Ware ouviu sobre não ter vivido uma vida 'verdadeira para mim'.

A maioria das tradições filosóficas orientais aprecia a importância da consciência da morte para uma vida bem vivida. O “Livro tibetano dos mortos”, por exemplo, é um texto central na cultura tibetana. Os tibetanos passam muito tempo convivendo com a morte, se isso não for um oxímoro.

O grandioso filósofo oriental Siddhartha Gautama também conhecido por Buda, percebeu a importância de manter o fim à vista. Ele viu o desejo como causa de todo o sofrimento e nos aconselhou a não nos prendermos muitos aos prazeres terrenos, mas, ao invés disso, focarmos em coisas mais importantes: amar os outros, desenvolver a serenidade mental e se manter no presente.

A última coisa que Buda disse para seus seguidores foi: “A deterioração é inerente a todos elementos compostos. Dediquem-se à salvação assiduamente!”. Como médico sou lembrado diariamente da fragilidade do corpo humano e de que o esconderijo da mortalidade é na próxima esquina. Como psiquiatra e psicoterapeuta, todavia, também sou lembrado do quão vazia a vida pode ser se não tivermos nenhuma noção de propósito ou de sentido. O reconhecimento sobre a mortalidade, nossa preciosa finitude, pode, paradoxalmente, nos mover adiante – e, se necessário, criar – o significado que tão desesperadamente almejamos.

Warren Ward é professor associado de psiquiatria na Universidade de Queensland. É o autor do futuro livro “Amantes da filosofia” (2021).

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