Por que tem gente tossindo de propósito em cima de alimentos

Vídeos de pessoas cuspindo ou lambendo em mercadorias têm circulado em meio à pandemia. A adulteração não é cometida somente por adolescentes e tampouco começou agora

Estão surgindo numerosos relatos de pessoas que deliberadamente lambem produtos e superfícies em supermercados enquanto filmam. Os vídeos são geralmente postados em redes sociais como TikTok, Snapchat ou YouTube para todos verem.

Lamber e tossir intencionalmente em coisas dessa forma, durante uma pandemia, espalha nojo e medo, juntamente com mais riscos à saúde. Isso é conhecido como "terrorismo ao consumidor", quando substâncias perigosas são introduzidas em alimentos ou outros produtos para consumo, colocando a saúde coletiva em risco. Às vezes feito apenas por diversão, outras com intenção criminal ou de extorsão, enquanto casos extremos usam até ameaças de agentes químicos e neurotoxinas. Os custos da substituição de produtos e da limpeza profunda das instalações é substancial – especialmente para pequenos negócios. A prática pode ser chamada de trote virtual, mas ainda é adulteração de produtos e pode carregar sérias penas. Nos Estados Unidos, por exemplo, um homem foi acusado de terrorismo doméstico por, conforme alegado, ter lambido produtos em supermercados e ter colocado a saúde coletiva em risco.

Na maior parte das instâncias, espalhar germes e medo dessa forma é uma bravata niilista acoplada à uma forma alternativa de entretenimento. É um ato rebelde contra os aplausos virtuosos dos “amantes da NHS” (sistema de saúde público do Reino Unido). Suas “sacolas de germes” não-conformistas desafiam a “autoridade da geração baby boomer”. Mas tais comportamentos não são apenas limitados a adolescentes, e não foi nessa pandemia que a adulteração de produtos começou a acontecer. De fato, há muito tempo pessoas adulteram produtos e alimentos. A questão é por quê?

Adulteração de produtos

Os custos da adulteração para os supermercados, corporações e consumidores é imenso. O caso do “Tylenol envenenador” contaminou, em 1982, lotes de analgésicos com cianeto de potássio na área de Chicago. Sete pessoas morreram, e o fabricante Johnson & Johnson foi extorquido.Os produtos removidos das prateleiras e a perda em receita de vendas chegaram a milhões de dólares. Consumidores perderam a confiança nos produtos e nas lojas, e passaram a comprar fora da cidade para acessarem produtos alternativos. Ninguém foi acusado de envenenamento, apesar de um residente de Nova York ter sido condenado por extorsão por mandar uma carta para a Johnson & Jonhson onde assumia a responsabilidade pelas mortes e exigia uma quantia de dinheiro para fazê-las parar. Mas não havia nenhuma evidência que o ligasse ao verdadeiro envenenamento. Em outro caso, Rodney Whitchelo (um ex-detetive da Scotland Yard) adulterou frascos de papinhas para bebês da Heinz com vidro, alfinetes, soda cáustica e lâminas de barbear antes de botá-los de volta nas prateleiras do supermercado, em uma tentativa de extorquir milhões do fabricante. A Heinz teve que remover mais de 30 milhões de libras em papinhas das prateleiras e o pânico entre os consumidores foi enorme. Muitas ofensivas similares foram cometidas por pessoas inspiradas por esse terrorismo ao consumidor.

Defensiva comercial

Tampas à prova de adulteração e embalagens seladas foram introduzidas amplamente depois desses ataques. Mas essa defesa é pequena perante a contaminação invisível da covid-19. A menos que os produtos sejam armazenados em sacolas plásticas, ou fiquem fora do alcance de todos os consumidores, como produtos mais caros ou facilmente consumidos costumam ficar, eles serão considerados um fator de risco para a contaminação. Com a ameaça de bio-transmissão em lojas, postos de gasolina e lojas de conveniência, alguns funcionários do varejo adicionaram telas de acrílico para sua proteção durante as últimas semanas, que atuam como um grande protetor contra espirros. As equipes do varejo noturno também podem desejar que essa proteção permaneça além da pandemia, para funcionar como uma defesa adicional aos clientes antissociais e agressivos. A proteção de trabalhadores do varejo contra ameaças físicas e biológicas já devia ter sido implementada há muito tempo, e supermercados como os conhecemos também podem passar por algumas mudanças permanentes. Já aconteceu com bancos e correios, e pode acontecer no varejo.

Armamento antissocial

Para alguns, a ameaça de cuspir e tossir nos rostos de membros de serviços de segurança tornou-se uma nova arma. É uma arma biológica que pode ser usada durante uma prisão ou quando se está em posição desfavorável, com raiva ou vergonha. Quando as pessoas têm pouco poder, autonomia ou status na sociedade, pode ser que achem que possam utilizar seu próprio corpo como arma. Aliás, a ameaça de infecção foi usada por algumas pessoas para tentar impedir a polícia de entrar em suas casas. Os serviços uniformizados são há muito tempo conscientes da ameaça de mordidas ou fluídos devido à hepatites, HIV e tuberculose. Mas a polícia também está atenta às conotações negativas sempre que capacetes anti-cuspe são empregados. Organizações de liberdades civis são rápidas ao apontar a natureza “desumana” e o potencial perigo de usar os capacetes anti-cuspe, então é uma dupla dificuldade para policiais – o risco pessoal versus as relações públicas. A preocupação que isso causa às vítimas à espera de resultados de testes e a inconveniência adicional de se auto-isolar durante o período é um aspecto sórdido desse tipo de ataque. Pesquisas futuras sobre ameaças biológicas irão, sem dúvida, mostrar o danoso trauma psicológico que pode ser criado. Mas se a polícia estava tentando convencer o público de que os capacetes anti-cuspe são aceitáveis, agora talvez seja a hora de fazer isso.

Craig Jackson é professor de Psicologia da saúde ocupacional da Universidade da Cidade de Birmingham

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