Por que o tema do filme ‘Tubarão’ ainda inspira terror 45 anos depois

O longa de Steven Spielberg abre com uma peça musical verdadeiramente icônica, com duas notas que nos mantêm no limite da ansiedade. Como as músicas manipulam nossas emoções?

Desde que o filme foi lançado há 45 anos, a icônica composição de John William, tema de “Tubarão”, se tornou culturalmente um fonograma para sinal de perigo ou ameaça. Duas notas e já é possível se sentir inquieto. Como duas notas fazem isso?

Desde “Cavalgada das Valquírias” de Wagner, na cena do helicóptero de Apocalypse Now (1979) até a performance de Dooley Wilson em “Com o passar do tempo” em Casablanca (1945), diretores sonoros nos filmes têm mostrado maestria em manipular as emoções da audiência a partir das potencialidades da música.

O público apresenta mais sagacidade também. Uma das cenas mais engraçadas em “Isto é Spinal Tap” só funciona por causa do entendimento da audiência. Escutamos uma extraordinária melodia tocada em D menor, que o pianista chama de “o mais triste de todos os tons.” Em seguida, morremos de rir com o título impróprio, e absurdamente sexual, da peça.

O trailer reeditado de “O iluminado” atinge nossa compreensão musical de uma forma similar para reimaginar o clássico de terror como um bom filme para assistir com a família. Sem compreensão musical, não há humor.

Tubarões, dinossauros e incertezas

Músicos e compositores aceitam que comumente associemos o tom menor com tristeza e sentimentos sombrios. Mas o tema de duas notas em “Tubarão” rompe com a distinção de tom maior ou menor e chega a um território sonoro muito menos familiar.

Em “Tubarão”, Williams usa uma forma específica (na verdade, uma coletânea diferente de notas, nem maiores nem menores, como usualmente escutamos) que deixa muitos ouvintes inseguros sobre o que vem em seguida. Os dois tons formam um intervalo de segunda menor, que soa completamente sombrio, dando aos ouvintes um senso de antecipação — e isso é grande parte do que faz o tema tão assustador.

O diretor do filme, Steven Spielberg, disse não ter entendido o conceito musical original na primeira vez que William o apresentou para ele. A ideia dos dois tons nos torna ansiosos: precisamos de mais informações, sabemos que algo a mais está vindo e aquele algo se torna um grande e faminto tubarão. O suporte instrumental e de arranjo de William fornece mais contexto para nossas observações. A mudança dos tempos e a competição entre ritmos também ajudam a criar um efeito similar à peça do compositor russo Igor Stravinski, “A sagração da primavera”.

Música como manipulação

Compositores têm há muito tempo entendido a capacidade da música de afetar o estado da mente dos ouvintes. O compositor medieval Hildegard von Bingen compôs uma vasta gama de músicas para inspirar a contemplação e espiritualidade. No século 18, George Frederic Handel compôs peças encorajadoras e devocionais. Em ambos os exemplos o ouvinte implicitamente compreende e reage emocionalmente à mensagem. Os usos dos elementos musicais como tons (maior, menor ou o que você tiver), tempo e dinâmicas pelo compositor tornam a mensagem nítida, assim como fazem com o tema de William em “Tubarão.” Quando escolhemos música, comumente optamos por aquelas que refletem nosso humor do momento. O “Why factor”da BBC explora as ideias contraintuitivas de que escutamos música triste para nos sentirmos melhores. As conclusões desses pesquisadores foram semelhantes às de Daniel Levitin, professor emérito da Universidade McGill, que escreveu que escutar música triste pode propiciar um senso de solidariedade: “Agora existem dois de vocês à beira do abismo.”

Música e saúde

Conforme a ciência começou a entender a conexão entre os estados emocionais e físicos em humanos, nós procuramos formas de colocar a música para trabalhar na cura de nossas mentes e corpos. Já no século 20, pesquisadores examinaram o relacionamento entre música e estados de emoção e psicologia. Alguns terapeutas utilizam música como apoio para comunicação e apoio aos sentidos das pessoas que vivem com demência. Muitos orientadores utilizam a terapia musical para combater doenças mentais. Infelizmente, outras instituições a utilizam para provocá-las. A capacidade da música de atingir e afetar nossas emoções é inegável. Independentemente do objetivo ser o entretenimento, a terapia, o fomento ao nacionalismo ou simplesmente se sentir melhor ou diferente, ela é um material poderoso. No entanto, no fim, não importa quantos acordos musicais estão na cena e nem a intenção do compositor, a música pode atingir ouvintes de formas fundamentalmente distintas. O que desperta os fãs de Missy Elliot talvez irrite os de Yo- Yo Ma. A chave para aproveitar o poder é encontrar o que funciona para você.O tema de John William para “Tubarão” ainda permanece conosco 45 anos depois. Fico ansioso pelo momento em que no sentiremos muito menos próximos de “Tubarão”e mais próximos de “Star Wars.”

Robbie MacKay é professor de Musicologia na Dan School of Drama & Music, Queen's University, Ontário

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