Saudades dos amigos na quarentena? Releia ‘Harry Potter’

Revisitar livros, filmes e séries que marcaram outros momentos da vida pode ajudar as pessoas a se sentirem menos solitárias em tempos de isolamento social

Seres humanos são essencialmente criaturas sociais. Mas enquanto ficamos em casa para limitar a propagação da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, as conversas por vídeo só são capazes de satisfazer nosso anseio por conexões até certo ponto.

A boa notícia é que os relacionamentos que temos com personagens fictícios de livros, programas de TV, filmes e videogames – chamados de relacionamentos parassociais – cumprem muitas das mesmas funções das amizades com pessoas reais. E evitam o risco de contágio.

O tempo passado em mundos fictícios

Alguns de nós já gastamos extensas horas com a cabeça em mundos fictícios.

A psicóloga e romancista Jennifer Lynn Barnes estimou que, ao redor do globo, foram investidos coletivamente 235 mil anos de envolvimento somente com os livros e filmes da série “Harry Potter”. E essa foi uma estimativa conservadora, baseada em uma velocidade de leitura de três horas por livro, sem considerar quem relê os livros ou revê os filmes.

Essa predileção humana por se conectar a personagens fictícios é vitalícia, ou existe pelo menos desde o momento que a criança começa a se envolver com o faz de conta. Cerca de metade das crianças cria um amigo imaginário (como por exemplo a tira do amigo tigre do Calvin, Haroldo).

Crianças da pré-escola geralmente se envolvem com personagens da mídia e acreditam que essa amizade parassocial é recíproca — afirmando que os personagens (até os de animação) podem escutar o que dizem e saber o que elas sentem.

Os mais velhos, naturalmente, sabem que personagens de livros e da TV não existem de fato. Mas o conhecimento da realidade não nos impede de sentir que esses relacionamentos são reais, ou que eles podem ser recíprocos.

Quando terminamos um livro querido ou uma série de televisão e continuamos a pensar no que os personagens farão a seguir, ou o que eles poderiam ter feito de diferente, estamos tendo uma interação parassocial. Frequentemente, direcionamos esses pensamentos e sentimentos para nos ajudar a lidar com a tristeza — e até mesmo com o luto — que sentimos no final de um livro ou série.

A ainda acalorada discussão de “Game of Thrones” ou a reação das redes sociais à morte de Patrick em “Offspring” há alguns anos mostra que muitos vivenciaram isso.

Alguns sustentam esses relacionamentos escrevendo novas aventuras em formas de fan-fiction de suas personagens favoritas após o fim de uma série popular. Sem novidades, “Harry Potter” é um dos tópicos mais populares das fanfics. E o acalorado blockbuster “Cinquenta tons de cinza” começou como uma fan fiction para a série “Crepúsculo”.

Tão bom quanto o real?

Então amizades imaginárias são comuns até mesmo entre adultos. Mas elas são boas para nós? Ou são um sinal de que estamos perdendo contato com a realidade?

Até agora as evidências mostram que amizades imaginárias são um sinal de bem-estar, não de disfunção, e que podem ser boas para nós em muitos dos aspectos que fazem com que as amizades reais sejam boas. Crianças pequenas que têm amigos imaginários mostram maior criatividade em suas narrativas e maiores níveis de empatia quando comparadas a crianças sem amigos imaginários. Crianças mais velhas que criam mundos imaginários (chamados de paracosmos) são mais criativas quando lidam com situações sociais e podem ser melhores solucionadoras de problemas quando confrontadas com uma situação estressante.

Como adultos podemos nos voltar aos relacionamentos parassociais com personagens fictícios a fim de nos sentirmos menos solitários e melhorar a disposição quando ficamos desanimados.

E mais, ler ficção, assistir programas de televisão de qualidade e jogar videogames pró-sociais funcionam como estímulos para a empatia e podem diminuir o preconceito.

Seguindo em frente com um pouco de ajuda dos amigos

Precisamos de nossos amigos fictícios mais que nunca enquanto enfrentamos o isolamento. Quando nos arriscamos em uma caminhada ou em uma ida ao supermercado e alguém nos evita, o sentimento é parecido com uma rejeição social, mesmo sabendo que o distanciamento físico é recomendado. Envolver-se com um personagem familiar da TV ou de um livro é uma forma de rejuvenescer o senso de conexão.

Além disso, relacionamentos parassociais são agradáveis e, como a professora de literatura americana Patricia Meyer Spacks observou em “Sobre a releitura”, revisitar amigos fictícios pode contar mais sobre nós mesmos do que sobre o livro.

Então aninhe-se no sofá em suas roupas mais confortáveis e dedique um tempo às amizades fictícias. Releia um livro velho e preferido – até mesmo um de sua infância. Revisitar um mundo ficcional cria um senso de nostalgia, que é uma outra forma de se sentir menos solitário e entediado.

Reveze leituras de “Harry Potter” em voz alta com a família ou companheiros de casa assista a programas de TV juntos e conecte-se ao personagem de que você mais gosta. (Eu recomendo Gilmore Girls para todas as mães ilhadas com suas filhas adolescentes).

Apoiar-se em amizades fictícias pode fortalecer os relacionamentos da vida real. Então enquanto ficamos em casa e salvamos vidas, podemos consolidar os relacionamentos familiares e parassociais que nos formam – e que formam nossas crianças – para a vida.

Elaine Reese é professora de psicologia da Universidade de Otago

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