Por que as telas ainda prejudicam as relações humanas

Dispositivos digitais nos mantêm conectados em meio à pandemia. Mas o contato pessoal, olho no olho, continua sendo essencial

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A tecnologia digital tem sido fundamental para nossa forma de viver em meio à crise da covid-19. No entanto, o seu impacto nas relações humanas continua a ser complexo. Ela permite o trabalho e a conexão em muitos aspectos, mas faz isso de formas frequentemente intrusivas, desgastantes e potencialmente corrosivas para as relações presenciais.

O debate sobre os efeitos tecnológicos na saúde mental global continua em alta. Alguns pesquisadores afirmam que os smartphones destruíram esta geração, enquanto outros argumentam que o tempo de contato com as telas não forma um prognóstico sobre a saúde mental de ninguém.

Depois de anos pesquisando o tema, eu cheguei à conclusão de que o tempo gasto com as telas pode ser prejudicial em um aspecto fundamental da convivência humana – prestar atenção ao olhar da outra pessoa.

Smartphones, mais do que as tecnologias mais velhas como a televisão, foram desenhados para controlar agressivamente e capitalizar a atenção humana ao longo do dia, atraindo as pessoas de forma que direcionem seus dedos e olhos para uma tela abaixo, longe umas das outras. Cada vez mais, as pessoas não conseguem desviar o olhar dela.

Tudo está no olhar

Seres humanos são os únicos entre os animais – incluindo os familiares primatas – com a habilidade de compartilhar significados e colaborar em objetivos através da articulação do olhar.

Desde o início da vida, os bebês se sintonizam aos olhos de seus cuidadores para procurar por conforto e decifrar emoções. Conforme crescem, se desenvolvem a partir destas habilidades e aprendem a trocar olhares com seus pares sociais, a fim de se comunicarem e colaborarem.

A parte branca ao redor do olho humano é larga, se fazendo evidente para os outros. O resultado é que os seres humanos conseguem localizar a direção do olhar de cada um com precisão. Algumas pessoas argumentam que essa adaptação evolutiva foi fundamental para a progresso dos Homo sapiens enquanto espécie.

Rosto inerte

Hoje, com a ubiquidade da tecnologia móvel, a sincronia visual entre as pessoas é frequentemente prejudicada. O ser humano está se tornando estranho aos olhos do outro? Isso importa?

Eu e meus colegas estudamos essas questões a partir da repetição de um experimento desenvolvido 40 anos atrás, chamado de Rosto Inerte.

No experimento, os pais brincam com suas crianças livremente, mas são orientados a se tornarem indiferentes, mantendo seus rostos imóveis e inexpressivos por alguns minutos. Este momento do rosto inerte é seguido por um período de reparo chamado de “reunião”, quando os pais passam a responder normalmente de novo.

O experimento de três partes – brincar, rosto inerte, reunião – cria um microcosmo no qual os pesquisadores estudam os amplos efeitos da abstenção parental e documentam a importância de atenuar a desconexão social.

Este experimento clássico nos inspirou a conceitualizar o impacto das telas na relação entre pais e crianças como uma ocorrência comum do Rosto Inerte. Em nosso estudo, modificamos a experiência do Rosto Inerte para que os pais ficassem indiferentes enquanto usam um smartphone – olhando para baixo, com os olhos fixados na tela, na frente de suas crianças por dois minutos. Nós também pedimos para que nos relatassem quanto tempo eles geralmente gastam com seus dispositivos enquanto estão em casa.

As crianças ficaram angustiadas e desanimadas quando não puderam se conectar com suas mães e pais. Na ocasião em que os pais relataram gastar muitas horas focados nos seus smartphones em casa, as crianças mostraram menor resiliência emocional e maior dificuldade em se reconectar com os pais no final do período dos dois minutos.

Cancelamento do real

Em um segundo estudo, ainda a ser publicado, nós olhamos para o poder do olhar compartilhado no contexto adulto de resolução de problemas. Nós designamos pares de adultos para trabalharem juntos em quebra-cabeças de difícil resolução. Um dos componentes da dupla – um assistente de pesquisa se passando como participante – interrompia continuamente o trabalho conjunto a partir da quebra do contato visual, mandando mensagem ou falando em seu celular. No grupo de controle, os pares trabalharam juntos sem interrupções.

Como o estudo com pais e crianças, os efeitos da quebra da reciprocidade e da conexão através do contato visual foi distante do trivial. Adultos não apenas julgaram a atitude de desatenção como rude, mas também demonstraram menos felicidade, mais ansiedade e ampliaram a atenção para informações negativas ao invés das positivas em uma análise aplicada em seguida ao experimento.

Colocando a tecnologia em seu lugar

Telas não são venenosas, mas deveriam ser reconhecidas como as intrusas e desreguladoras que são. Coloque os celulares longe quando está com outras pessoas. Considere a extrema grosseria que é acessar um dispositivo durante as conversas, refeições ou no meio de uma noite de jogos com a família.

Seres humanos evoluíram para confiar em sinais como o olhar para aprender sobre si mesmo e os outros na infância, e para se comunicar e colaborar efetivamente durante a vida. O uso onipresente do celular é uma ameaça a este componente essencial da nossa humanidade, mesmo em tempos extraordinários.

Tracy Dennis-Tiwary é professora de psicologia na Hunter College.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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