Os efeitos de ouvir música enquanto trabalhamos 

Pesquisas mostram que o tipo de tarefa e o estilo musical tendem a determinar se a atividade vai melhorar ou prejudicar o seu desempenho

Você gosta de ouvir música enquanto trabalha?

Faça essa pergunta em uma festa e você provavelmente terá algumas respostas opostas. Alguns dirão que amam, afirmando que melhora o desempenho; outros dirão que ficam distraídos e não conseguem trabalhar direito com a música tocando ao fundo.

Como fãs de música e psicólogos, queremos entender quando ouvir música ajuda enquanto se faz uma tarefa – e quando isso atrapalha.

O interessante é que nossa pesquisa concluiu que essas duas perspectivas podem ser verdadeiras. Só depende do tipo de trabalho que você está fazendo.

Desenvolvendo uma tese mais ampla

Pesquisadores examinaram como a música influencia o desempenho em uma gama de tarefas, de atividades esportivas à matemática e à leitura. Eles também examinaram se a música afeta o desempenho por fatores como o humor do ouvinte ou a sua capacidade de memória de trabalho.

No entanto, muitas dessas pesquisas focam em contextos específicos ou tipos específicos de tarefas. Nós queríamos desenvolver um molde mais abrangente, aplicável em mais situações.

Então, em um estudo recente, trouxemos participantes para o laboratório para realizar uma série de tarefas. Entre essas estavam uma tarefa fácil - examinar listas de palavras e marcar as palavras contendo a letra “a” - e uma tarefa mais difícil - memorizar pares e lembrar dos pares com um parceiro. Alguns participantes completaram todas as tarefas em silêncio, enquanto outros as fizeram ouvindo música instrumental, que era alta ou suave, simples ou complexa (com mais camadas instrumentais)

Uma faixa musical simples pode conter um ou dois instrumentos, sua melodia não muda muito frequentemente, e pode ser menos acelerada. Músicas complexas, no entanto, podem conter uma grande variedade de instrumentos, frequentemente mudando as melodias, e tipicamente têm um ritmo mais acelerado.

O tipo de tarefa importa

Diversas descobertas importantes emergiram do estudo.

Descobrimos que os participantes que ouviam músicas mais simples ou não ouviam música tinham aproximadamente o mesmo desempenho na tarefa fácil. No entanto, participantes que ouviam músicas complexas tiveram um desempenho melhor na tarefa simples.

Inversamente, os participantes tiveram um desempenho pior na tarefa mais difícil quando ouviam qualquer música, independentemente da complexidade ou volume, quando comparados àqueles que não ouviram nenhum música.

O que faremos com essas descobertas?

Sugerimos que tanto a música como as tarefas podem se utilizar de um mesmo conjunto de recursos mentais.

Podemos ficar entediados e nossas mentes podem divagar quando esses recursos não são utilizados. Mas também podemos ser hiperestimulados e distraídos quando esses recursos são sobrecarregados.

Não surpreende que tipicamente usamos menos dos nossos recursos mentais quando desempenhamos tarefas simples, enquanto tarefas mais complexas demandam mais capacidade cerebral. No entanto, como podemos nos concentrar menos em tarefas mais fáceis, há um risco maior de nos desviarmos. A música pode nos dar o empurrão extra que precisamos para superar a monotonia. No entanto, tarefas difíceis já demandam muitos dos recursos. Ouvir música pode ser exagero.

Então, a performance ótima deve ocorrer quando atingimos um ponto de equilíbrio, o que pode depender do tipo de música e do tipo de tarefa.

O fator personalidade

Nossas descobertas sugerem que os efeitos da música também podem depender das nossas personalidades. No mesmo estudo, examinamos as preferências dos participantes sobre estímulos externos.

Algumas pessoas têm o que é chamado de “preferência por estímulos externos”. Isso significa que elas tendem a buscar - e prestar mais atenção a - coisas que acontecem nos seus arredores, como visões ou sons.

A música, então, pode consumir mais recursos mentais de pessoas com fortes preferências por estímulos externos, significando que um equilíbrio um pouco mais delicado deve ser estabelecido para essas pessoas quando ouvem música durante tarefas.

Apoiando essa lógica, concluímos que músicas complexas tendem a prejudicar o desempenho mesmo em tarefas mais fáceis em pessoas com fortes preferências por estímulos externos. Da mesma forma, descobrimos que qualquer música, independente de complexidade ou volume, dificultavam a execução de tarefas difíceis para essas pessoas.

Em resumo: pode ser útil colocar música quando você trabalha em algo que considera relativamente simples e repetitivo. Um de nós, por exemplo, ouve heavy metal enquanto trabalha com análise simples de dados. O outro gosta de ouvir blues enquanto lê seus e-mails.

No entanto, a música pode prejudicar quando surge uma tarefa que requer toda a sua atenção. Nesses casos, é melhor desligar o Iron Maiden ou o B. B. King.

E provavelmente nem é preciso dizer que o que funciona melhor para você pode não funcionar para a pessoa trabalhando ao seu lado - então não se esqueça de usar fones de ouvido.

John R. Aiello é professor de psicologia da Universidade de Rutgers

Manuel F. Gonzalez é candidato a doutorando em psicologia organizacional-industrial no Baruch College, CUNY

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