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Como cuidar da sua saúde mental em uma viagem para Marte

A missão de exploração de Marte e de outros mundos mais distantes é mais do que um desafio de engenharia: é um desafio à mente humana

Imagine ficar confinado em uma cela de metal com algumas outras pessoas e poucas comodidades por meses ou mesmo anos. Talvez depois disso você seja movido para um novo recinto, mas você ainda não tem privacidade e a comunicação com a sua família ou qualquer outra pessoa no mundo lá fora é extremamente limitada. Você se sente cercado de pessoas e solitário ao mesmo tempo, e ninguém vem tratar dos problemas de saúde mental que podem surgir.

Embora isso possa soar como a vida em uma prisão, poderia facilmente ser a vida de um explorador do espaço, em uma lata de sardinhas de um foguete acelerando em direção a Marte ou outro mundo mais distante. Apesar de anos de pesquisa da Nasa e outras entidades, cientistas sabem pouco sobre os problemas psicológicos, neurológicos e sociológicos que inevitavelmente afligirão os viajantes do espaço que lutam contra a depressão, solidão, ansiedade, estresse e crises de personalidade a milhões de quilômetros de distância de casa. Um crescente conjunto de pesquisas tem documentado o impacto da microgravidade no cérebro e corpo, assim como os exercícios e o cuidado médico necessário para mitigar esses efeitos. Mas o isolamento social, as limitações à privacidade, os conflitos interpessoais, além da separação de entes queridos, permanecem relativamentes inexplorados.

Mesmo as enormes naves espaciais de Star Trek – com muito espaço por pessoa – têm um terapeuta a bordo. Mas e se ele se machucar ou ficar doente em um momento crítico? Se o moral da tripulação despencar, uma situação de emergência pode sentenciar o fim de uma missão.

O espaço nos confronta com muitos mundos e fenômenos fascinantes. Mas temos que atravessar o vácuo para alcançá-los, e quase toda viagem vai ser longa e entediante antes da chegada. Espreitar à pequena janela oferece a mesma visão de ontem, e do dia anterior. Enquanto um passeio até a lua leva apenas alguns dias, chegar em Marte é uma jornada de oito meses ou mais. Uma viagem para asteroides ou luas mais intrigantes de Júpiter e Saturno como Europa e Titã levaria anos. (E, só para referência, uma tentativa de enviar uma tripulação para Proxima Centauri, nossa estrela mais próxima, levaria milênios). Aí, quando você chega, novos desafios e mais isolamento te aguardam.

Pesquisas sobre pessoas encarceradas e confinamento solitário oferecem lições que os astronautas podem aprender. Pessoas encarceradas desenvolvem sintomas parecidos aos reportados por aqueles que passaram muito tempo numa estação espacial: alucinações, estresse, depressão, irritabilidade e insônia, todos exacerbados quando é difícil praticar atividades físicas. Você não tem a liberdade de sair para uma caminhada para limpar a mente ou visitar amigos e se animar com a sua companhia. No confinamento solitário, o isolamento social, a solidão e a monotonia afetam o seu estado mental e a sua atividade cerebral após apenas algumas semanas, e algumas pessoas nunca se recuperam completamente.

Para piorar, a comunicação com a Terra sofre mais atrasos à medida que se distancia de casa. Astronautas se beneficiariam de mensagens e chamadas de vídeo com entes queridos - ou melhor, interações de realidade virtual com eles - mas, quanto mais longe, menos tangíveis se tornam essas conversas. Mesmo uma equipe treinada com membros profissionais e resilientes teria dificuldades quando se tem uma conexão tão fraca com todos os conhecidos na Terra.

Experimento em vulcão

É difícil imaginar como serão essas situações, mas a Nasa está tentando. Os experimentos psicológicos da agência envolvem isolar uma tripulação de seis membros em uma redoma apertada por quatro meses a um ano em um local remoto em Mauna Loa, um vulcão no Havaí. Nesse período, os participantes fingem estar vivendo em outro planeta, como Marte. Há um atraso de vinte minutos em comunicações escritas com o controle de missões (o que significa quarenta minutos entre uma mensagem e a sua resposta). A redoma é equipada com instalações extremamente limitadas, como banheiros de compostagem e comida seca congelada. E os residentes podem deixar o habitat apenas por curtos períodos, em trajes espaciais de simulação.

Como parte desses experimentos, os participantes usam dispositivos e respondem questionários semanais que mapeiam suas taxas cardíacas, qualidade de sono, fadiga e mudanças de humor. Os pesquisadores buscam aprender quais qualidades individuais e coletivas ajudam a solucionar os problemas e a resolver os conflitos interpessoais que inevitavelmente surgem quando as pessoas são amontoadas em um espaço pequeno.

Pesquisadores acumularam muitos dados. A simulação mais recente, no entanto, não foi tão produtiva quanto se esperava – ela teve de ser abortada depois de quatro dias. Após consertar um problema com a alimentação energética do habitat, um membro da tripulação parecia ter tomado um choque e precisou de uma ambulância. Depois de ele ser retirado do local, uma divergência sobre os termos de segurança do experimento levou outra pessoa a desistir da simulação, que teve que ser cancelada.

Em uma simulação anterior, que envolveu seis homens espremidos em um módulo semelhante a uma nave espacial em Moscou, os resultados foram surpreendentes. Aqueles tripulantes desenvolveram crescentes problemas para dormir, e às vezes dormiam mais do que o normal, ficando mais letárgicos e menos ativos. O ritmo de sono de um membro mudou acidentalmente para um ciclo de 25 horas (o que corresponde à duração de um dia marciano), tirando-o de sintonia com o resto da tripulação. Pesquisas de acompanhamento mostraram que os dois membros da tripulação com maiores níveis de estresse e exaustão estavam envolvidos em 85% dos conflitos observados.

Em uma missão real para Marte, pessoas vão se machucar, e alguém pode até morrer. Quando brigas calorosas acontecerem, cabeças frias terão de prevalecer. Viagens espaciais reais provavelmente terão mais momentos tediosos e lutas internas do que qualquer cena de Star Trek ou Star Wars. (Existe uma razão pela qual a ficção científica insiste em velocidades ridiculamente altas: elas tornam essas viagens curtas o suficiente para uma história).

Algumas sugestões

Para minimizar os conflitos entre os astronautas ou a dor de alguém sofrendo um colapso mental, especialistas precisarão detectar os sinais de alerta psicológico com antecedência. Esses futuros exploradores espaciais provavelmente passarão por uma bateria de testes físicos e psicológicos todo dia, semana e mês, e seus dados poderão ser enviados para serem analisados por cientistas na Terra. Qualquer sinal de preocupação então poderá ser tratado.

Se existe uma coisa que as pesquisas mostram, mesmo que de forma limitada, é que é difícil prever quem vai lidar melhor com a situação e trabalhar bem em equipe com o passar das semanas, meses, e até anos. No entanto, muitos fatores podem aumentar as chances de sucesso, especialmente considerando que os tripulantes podem dar uns aos outros o tipo de apoio e encorajamento que as pessoas encarceradas não têm.

Uma equipe de bom rendimento precisa de líderes talentosos e proximidade entre os membros. Eles precisam construir confiança enquanto treinam, muito antes de o foguete ser lançado. Tripulações internacionais diversificadas podem ajudar a superar alguns desafios que podem vir a aparecer, mas essa diversidade também pode resultar em problemas culturais e interpessoais. Uma tripulação maior pode ter um desempenho melhor do que uma menor, mas o tamanho da equipe sempre será limitado pelo peso e quantidade de combustível que podem ser lançados em órbita.

Uma vez no espaço, as pessoas precisam se manter ocupadas, e precisam pensar que têm algo relevante a fazer. Elas também precisam de um pouco de privacidade e entretenimento às vezes, o que pode incluir algo que trouxeram de casa ou algum tipo de interação virtual com a família e os amigos que foram deixados para trás. Enquanto trabalha, a tripulação precisa de objetivos e procedimentos claros para uma vasta gama de situações. Devem ser parte do time apenas pessoas que provaram ser resilientes sob pressão por longos períodos de tempo, e que têm grandes habilidade de trabalho em equipe mesmo em condições de estresse e privação de sono.

Mas isso é só o começo. Dois em 135 programas de ônibus espaciais terminaram em desastres, ambos por problemas de engenharia imprevistos, mas nenhum deles realmente enfrentou os testes psicológicos que missões mais distantes e arriscadas oferecerão.

Humanos adoram explorar. Está no nosso sangue. Mas pisar no planeta vermelho em vinte ou trinta anos é uma tarefa mais assustadora do que qualquer coisa já tentada. Para ter certeza de que a nossa jornada de exploração para Marte e mundos mais distantes continua, temos que continuar examinando não só os desafios de engenharia, mas também os desafios às nossas próprias mentes.

Ramin Skibba é astrofísico, escritor de ciência e jornalista freelancer.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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