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Por que negamos fatos que contrariam as nossas crenças

Seja em situações relacionadas a consensos científicos, história econômica ou eventos políticos, o negacionismo tem suas raízes no que os psicólogos chamam de raciocínio motivado

Há algo podre no estado da vida política americana. Os Estados Unidos (entre outras nações) são crescentemente caracterizados pela sua intensa polarização, com comunidades ideológicas informacionalmente ilhadas ocupando seus próprios universos.

Na blogosfera política conservadora, o aquecimento global é ou uma farsa ou tão incerto que não é digno de uma resposta. Em outras comunidades – geográficas ou virtuais – vacinas, água fluoretada e alimentos geneticamente modificados são conhecidos por serem perigosos. Veículos de comunicação de direita pintam uma imagem detalhada de como Donald Trump é vítima de uma conspiração fabricada.

No entanto, nada disso está certo. A realidade do aquecimento global causado por ação humana está estabelecida na ciência. A suposta ligação entre vacinas e autismo foi desbancada tão decididamente quanto qualquer outra coisa na história da epidemiologia. É fácil encontrar refutações confiáveis das declarações auto exculpatórias de Donald Trump sobre a Ucrânia e muitas outras questões.

Ainda assim, muitas pessoas com alto nível de instrução sinceramente negam conclusões baseadas em evidências sobre esses assuntos.

Em teoria, resolver disputas factuais deveria ser relativamente simples: É só apresentar evidências de um forte consenso entre especialistas. Essa abordagem é bem sucedida na maioria dos casos, quando a questão é, por exemplo, a massa atômica do hidrogênio.

Mas as coisas não funcionam assim quando o consenso científico apresenta um panorama que ameaça a visão de mundo ideológica de alguém. Na prática, a identidade étnica, política ou religiosa de uma pessoa pode prever com bastante eficácia a sua predisposição a aceitar a opinião de especialistas em qualquer debate politizado.

Raciocínio motivado” é o nome dado por cientistas sociais ao processo de decidir em quais evidências acreditar baseado na conclusão que se prefere. Conforme explico em meu livro, “The truth about denial” [A verdade sobre a negação, em tradução livre], essa tendência muito humana se aplica a todos os tipos de fatos sobre o mundo físico, história econômica e eventos recentes.

A negação não tem origem na ignorância

O estudo interdisciplinar desse fenômeno explodiu durante os últimos seis ou sete anos. Uma coisa se tornou clara: o fracasso de vários grupos em reconhecer a verdade sobre, digamos, mudanças climáticas, não é explicada pela falta de informação acerca do consenso científico sobre o assunto.

Ao invés disso, o que prevê a negação do conhecimento de especialistas sobre muitos assuntos controversos é, simplesmente, a persuasão política.

Um estudo de 2015 demonstrou que a polarização ideológica sobre a realidade da mudança climática, na verdade, aumenta com o conhecimento dos entrevistados sobre política, ciência e/ou políticas de energia. As chances de um conservador ser um negacionista climático é significativamente mais alta se ele tiver educação superior completa. Conservadores com pontuação mais alta em testes de sofisticação cognitiva são mais suscetíveis ao raciocínio motivado sobre ciências climáticas.

Isso não é um problema apenas para os conservadores. Como o pesquisador Dan Kahan demonstrou, liberais são menos suscetíveis a aceitar o consenso científico sobre a possibilidade de armazenamento seguro de resíduos nucleares, ou sobre os efeitos de leis de porte de armas.

A negação é natural

Nossos ancestrais evoluíram em pequenos grupos, onde a cooperação e a persuasão tinham tanta influência no sucesso reprodutivo quanto ter crenças factuais precisas sobre o mundo. A integração a uma tribo requeria a assimilação do sistema de crenças ideológicas do grupo. Um viés instintivo a favor do grupo e suas visões de mundo está profundamente enraizado na psicologia humana.

O senso de identidade de um humano está intimamente ligado aos status e crenças do seu grupo identitário. Não surpreende, então, que as pessoas respondam automaticamente e defensivamente a informações que ameaçam suas visões ideológicas. Nós respondemos com racionalização e assimilação seletiva de informação - isto é, nos engajamos em um padrão de viés de confirmação, dando crédito a testemunhos de especialistas que gostamos e encontrando razões para rejeitar o resto.

Os cientistas políticos Charles Taber e Milton Lodge confirmaram empiricamente a existência dessa resposta automática. Eles encontraram que assuntos tendenciosos, quando apresentados com fotos de líderes políticos, produzem uma resposta afetiva de gostar/desgostar que precede qualquer forma de avaliação consciente e factual.

Em situações ideologicamente carregadas, os preconceitos acabam afetando as crenças factuais. Conforme você se define em termos de afiliações culturais, informações que ameaçam o seu sistema de crenças – digamos, informações sobre o efeito negativo da produção industrial sobre o meio ambiente – podem ameaçar o seu senso de identidade em si. Se é parte da sua visão comunitária e ideológica que coisas que não são naturais não são saudáveis, informações sobre o consenso científico sobre vacinas ou a segurança de alimentos geneticamente modificados parecem um ataque pessoal.

Informações indesejadas também podem ameaçar de outras formas. Nomes importantes da teoria da justificação do sistema, como o psicólogo John Jost, demonstraram como situações que representam uma ameaça a sistemas estabelecidos causam pensamentos inflexíveis e desejo de conclusão. Por exemplo, como Jost e seus colegas avaliam, populações passando por crises econômicas ou ameaças externas frequentemente se tornam autoritárias, com líderes hierárquicos prometendo segurança e estabilidade.

A negação está em todo lugar

Esse tipo de raciocínio explica uma gama de exemplos de uma rejeição extrema, e resistente a evidências, de fatos históricos e consensos científicos.

Os cortes de taxas mostraram que se pagam em termos de crescimento econômico? Comunidades com maior número de imigrantes têm taxas mais altas de crimes violentos? A Rússia interferiu nas eleições presidenciais americanas de 2016? Provavelmente, a opinião de especialistas sobre esses temas é ameaçada por mídias parciais como se as evidências fossem, em si, parciais.

Os fenômenos negacionistas são muitos e variados, mas a história por trás deles é, afinal, bastante simples. A cognição humana é inseparável das respostas humanas inconscientes que a acompanham. Sob as condições certas, características humanas universais como favoritismo voltado ao grupo, ansiedade existencial, e um desejo por estabilidade e controle se combinam em uma política de identidades tóxica e justificadora de sistemas.

Quando interesses, crenças, ou dogmas de grupos são ameaçados por uma informação factual indesejada, o pensamento enviesado se transforma em negação. E infelizmente esses fatos sobre a natureza humana podem ser manipulados para fins políticos.

Essa realidade é um pouco sombria, porque sugere que os fatos, por si só, têm um poder limitado para resolver questões como mudança climática ou políticas de imigração. Mas entender propriamente o fenômeno da negação é, com certeza, um primeiro passo crucial para resolvê-la.

Adrian Bardon é professor de filosofia da Wake Forest University

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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