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Por que asiáticos não são bons em matemática

Racismo declarado é fácil de notar. Mas formas mais sutis baseadas em narrativas falsas podem ser igualmente desumanizadoras — e não têm graça

A narrativa de que “asiáticos são bons em matemática” é disseminada nos Estados Unidos. Crianças têm ciência disso. O desempenho acadêmico de universitários pode ser afetado por ela. E o candidato à presidência Andrew Yang fez da sua aptidão matemática uma ferramenta de campanha.

Superficialmente, a narrativa soa como um elogio. Afinal, o que há de errado em dizer que alguém é bom em alguma coisa? Como explico em um artigo recente, existem dois problemas. Primeiro, a narrativa é falsa. Segundo, ela é racista.

Sou professor e pesquisador especializado em educação STEM [currículo baseado no ensino de ciência, tecnologia, engenharia e matemática]. Pesquisas nos dizem que o racismo é parte das experiências em sala de aula dos estudantes dessas matérias.

Se não entendermos como o racismo funciona — mesmo em áreas supostamente neutras como o STEM — corremos o risco de acidentalmente reciclar ideias racistas.

Desmascarando o mito

Como muitos estereótipos raciais, as pessoas ficam genuinamente curiosas se a narrativa de que “asiáticos são bons em matemática” poderia ser verdadeira. Existem vídeos no Youtube com milhões de visualizações fazendo essa pergunta.

Notas não provam a narrativa? Na verdade, não. Em exames internacionais, é verdade que países asiáticos estão entre os melhores desempenhos em matemática. Mas também é verdade que outras nações asiáticas estão em 38º, 46º e 63º. Também é interessante que esses países que ocupam as colocações mais altas também lideram os rankings de interpretação de texto — mas não existe uma narrativa de que “asiáticos são bons em literatura”.

Domesticamente, é a mesma história. Pesquisas mostram uma variação considerável no desempenho em matemática entre diferentes grupos étnicos asiáticos nos Estados Unidos. Se todas as pessoas de origem asiática tivessem um dom para a matemática, não deveríamos ver esse tipo de variação.

Uma explicação melhor tem a ver com as políticas educacionais e as leis federais de imigração. Países que investem na educação de professores e currículos de alta qualidade se saem melhor em testes internacionais. Nos Estados Unidos, a Lei de Imigração e Nacionalidade, de 1965, priorizou professores de STEM vindos da Ásia. Essa política afetou meus próprios pais, que foram capazes de migrar para os Estados Unidos sob essa lei, não porque pessoas do sul da Ásia são naturalmente bons médicos.

De “Mongolóide” a “minoria modelo”

Se não é verdade, por que falamos?

Hoje, asiáticos são frequentemente vistos como a “minoria modelo” — trabalhadores, acadêmicos talentosos e profissionais de sucesso — mas não foi sempre assim.

No século 18, pessoas asiáticas eram classificadas como “mongolóides”, um termo racista baseado na pseudociência da craniometria. Enquanto “caucasóides” (pessoas brancas) eram consideradas seres humanos plenos com capacidade intelectual superior, todas as pessoas de cor eram consideradas subdesenvolvidas.

Desde o fim do século 19, nasceu uma nova imagem de pessoas asiáticas: ameaça nacional. Imigrantes chineses eram vistos como uma ameaça econômica para trabalhadores americanos, e o Japão tornou-se uma ameaça militar durante a segunda guerra mundial.

Pessoas asiáticas nos Estados Unidos continuam a sofrer com o racismo mesmo hoje. Na verdade, a ideia da minoria modelo sempre foi uma forma de opor pessoas asiáticas a grupos que supostamente não são modelos — em outras palavras, não asiáticos de cor.

A implicação é: se asiáticos conseguem fazer isso, por que você não consegue?

Pessoas, não robôs

Ainda que a narrativa de que “asiáticos são bons em matemática” seja falsa, ela ainda tem um impacto real nas vidas das pessoas. Como o mito da minoria modelo, ela posiciona falsamente pessoas de cor não asiáticas como inferiores. Ela também pode ser fonte de pressão para estudantes asiáticos. Mas o verdadeiro impacto da narrativa vai além.

Veja, por exemplo, uma cena de um episódio da animação para adultos “Family Guy”.

O personagem principal, Peter, está lembrando de uma prova de matemática. Enquanto a imagem mostra os outros alunos, cada um deles tira uma calculadora do bolso. Peter tira um menino de feições asiáticas, o espeta com um lápis e diz: “Faça as contas!”

Isso pode parecer engraçado inicialmente, mas a mensagem por trás é clara: pessoas asiáticas não são vistas como seres humanos; elas são máquinas de calcular. Asiáticos são literalmente objetificados, vistos como capazes de fazer coisas com uma velocidade e escala que pessoas “normais” não conseguem. Em outras palavras, eles são desumanizados.

Calculadoras são capazes de realizar apenas tarefas processuais, não criativas. Para pessoas asiáticas, isso implica que, embora eles possam ter sucesso nos assuntos técnicos de STEM, as humanidades e artes criativas não são para eles.

Parte do que está acontecendo tem a ver com como a sociedade entende “bom em matemática”. A matemática é amplamente considerada uma das matérias mais difíceis de se aprender. Aqueles que conseguem aprender são, muitas vezes, vistos como nerds. Filmes sobre matemáticos, como “Uma mente brilhante” e “Jogo da imitação” normalmente os retratam como antissociais. Matemáticos podem ser considerados brilhantes, mas não são vistos como “normais”.

Normalmente pensamos sobre a desumanização em termos de deficit intelectual. Por exemplo, americanos no século 21 ainda associam afro-americanos com primatas, um tropo racista. O que está acontecendo com pessoas asiáticas é diferente, mas ainda é prejudicial. Eles se tornam robôs super-inteligentes.

Resistindo à narrativa

Todos nós podemos desempenhar um papel em resistir a essa narrativa falsa.

Professores podem ajudar monitorando os tipos de oportunidade de aprendizado que dão a estudantes asiáticos. Eles os tratam como calculadoras — dando a eles apenas tarefas processuais — ou os estudantes asiáticos têm a chance de mostrar a sua criatividade e de apresentar ideias para a classe? Para ajudar os professores a detectar vieses, meu grupo de pesquisa desenvolveu um aplicativo gratuito chamado EQUIP.

A maioria das pessoas reconhece com facilidade comportamentos e linguagem abertamente racistas. Mas acredito que também precisamos aprender a detectar o racismo nas suas formas mais sutis. Da próxima vez que você ouvir alguém dizer que “asiáticos são bons em matemática”, não ouça como uma piada — ouça como racismo.

Niral Shah é professor assistente de ciências da educação e desenvolvimento humano da Universidade de Washington.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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