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Por que avisos de gatilho não protegem de conteúdos sensíveis

Universidades e produtos culturais têm incluído alertas sobre temas que podem remeter a traumas de estudantes e espectadores. Mas estudos apontam que esse mecanismo tem pouco impacto psicológico

Imagine que você é um professor ensinando sobre um romance aclamado que contém cenas violentas — por exemplo, “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, escrito em 1925. Você fica sabendo que um dos seus alunos foi vítima de violência e agora, graças às suas palavras, ele está revivendo os seus traumas. Você poderia, ou deveria, ter feito mais para proteger essa pessoa?

Desde 2013, muitos estudantes universitários dos Estados Unidos começaram a exigir que seus professores fizessem exatamente isso e fornecessem avisos de gatilho sobre qualquer conteúdo potencialmente sensível. Por exemplo, um estudante da Universidade Rutgers, de Nova Jersey, enfatizou o potencial dano que “O Grande Gatsby” pode causar, com a sua “variedade de cenas que fazem alusão à violência sangrenta, abusiva e misógina”.

Como você pode ter notado, desde então, o uso de avisos de gatilho tem se espalhado para além das universidades norte americanas, chegando a instituições educacionais ao redor do mundo, e mais: para teatros, festivais, e mesmo textos jornalísticos. Os avisos têm se tornado outro campo de batalha nas guerras culturais, com muitos que os enxergam como ameaça à liberdade de expressão e o mais recente sinal de que o “politicamente correto” foi à loucura.

Deixando a ideologia de lado, poderíamos alegar um caso ético sobre os avisos de gatilho como um sinal de consideração. Se eu convido um amigo para assistir a um filme que eu sei que contém cenas perturbadoras, é cortês e atencioso que eu alerte o meu amigo com antecedência, caso ele prefira assistir algo mais leve — e poderíamos dizer que é o mesmo caso para professores discutindo tópicos sensíveis.

Mas conforme o debate sobre avisos de gatilho tem crescido, seus defensores têm feito declarações fortes sobre psicologia. Primeiro, disseram que avisos de gatilho dão às pessoas com histórico de trauma uma maior chance de evitar conteúdos sensíveis. O professor de literatura Mason Stokes, do Skidmore College, de Nova York, disse que suas aulas sobre o romance de Jim Grimsley, “Dream Boy” [Garoto dos sonhos, em tradução livre], de 1995, que explora os temas de abuso sexual infantil, fez com que um dos seus alunos — um sobrevivente de relações incestuosas — precisasse de cuidado psiquiátrico. “Eu avisei os estudantes sobre as emoções que esse romance poderia causar toda vez que eu dei aulas sobre ele desde então”, ele escreveu em “The Chronicle of Higher Education” [A crônica da educação superior, em tradução livre], em 2014, esperando que, no futuro, qualquer um dos seus alunos com histórico de trauma será capaz de evitar as suas aulas com temas sensíveis e, assim, evitar que precisem de cuidado psiquiátrico urgente.

Segundo, os defensores de avisos de gatilho dizem que esses avisos dão aos estudantes a chance de se prepararem emocionalmente. No seu artigo para o New York Times chamado “Why I Use Trigger Warnings” [Por que eu uso avisos de gatilho, em tradução livre], de 2015, a professora de filosofia Kate Manne, da Universidade de Cornell, de Nova York, argumentou que eles “permitem àqueles que são sensíveis a temas potencialmente perturbadores se prepararem para ler sobre eles e gerenciarem melhor as suas reações”.

Enquanto os argumentos ideológicos a favor e contra os avisos de gatilho são difíceis de resolver, as declarações de teor psicológico específicas podem ser testadas com base em evidências. Sobre a primeira colocação, de que avisos de gatilho permitem que sobreviventes de trauma evitem reviver as emoções negativas a ele associadas, os críticos argumentam que a fuga de materiais potencialmente perturbadores são, na verdade, uma abordagem contraproducente porque não oferece a chance de aprender a gerenciar as reações emocionais. Assim, os medos se aprofundam e os pensamentos catastróficos se mantêm intocados.

Considere uma meta-análise de 39 estudos em 2007 feita pela Universidade Estadual Sam Houston, no Texas, que descobriu uma “associação clara e consistente” entre o uso de estratégias baseadas na evasão (isto é, ficar longe de estressores ou evitar pensar sobre eles) e sofrimento psicológico aumentado. Para um exemplo mais concreto, veja as conclusões de um estudo publicado em 2011, sobre mulheres que testemunharam o Massacre de Virginia Tech em 2007 — aquelas que tentaram evitar pensar sobre o ocorrido tendiam a apresentar mais sintomas de depressão e ansiedade nos meses seguintes.

Sobre a afirmação de que avisos de gatilho dão às pessoas a chance de se preparar emocionalmente, uma série de estudos recentes sugerem que não é assim que a mente funciona. Em 2018, uma investigação feita pela Universidade de Harvard pediu a centenas de voluntários de uma plataforma da Amazon que lessem passagens literárias perturbadoras — como a cena do assassinato de “Crime e castigo”, de Fiodor Dostoiévski, de 1866 — que eram ou não precedidas por um aviso de gatilho de conteúdo perturbador, e então avaliar seus sentimentos. Os avisos tiveram pouco efeito positivo nas reações emocionais dos voluntários.

Na primavera de 2019, um estudo da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, teve aproximadamente 1.400 participantes em seis estudos assistindo vídeos de cenas fortes, precedidas ou não por avisos de gatilho. Dessa vez, os avisos reduziram o impacto negativo dos vídeos, mas o tamanho desse efeito foi “tão pequeno que não tem significado prático” — e isso se aplicava independentemente de os participantes terem ou não um histórico de trauma.

Aproximadamente na mesma época, um grupo da Universidade Flinders, na Austrália, pesquisou os efeitos de avisos de gatilho na experiência pessoal com fotos ambíguas acompanhadas por diferentes manchetes — como uma imagem de passageiros embarcando em um avião com uma manchete forte relacionada à queda do avião ou uma manchete inócua sobre negócios. Avisos de gatilho aumentaram os sentimentos ruins dos participantes antes da apresentação da imagem, provavelmente porque eles antecipavam o que estava por vir. Mas, mais uma vez, os avisos não fizeram muita diferença em como os voluntários respondiam emocionalmente às imagens.

Foi uma história parecida no verão de 2019, quando pesquisadores da Universidade McKendree, em Illinois, deram ou não aos voluntários avisos de gatilho antes de eles assistirem a vídeos educativos sobre suicídio e abuso sexual. Mais uma vez, os avisos não tiveram efeito significativo no impacto emocional dos vídeos, incluindo para voluntários cujas experiências pessoais eram refletidas. Questionários após a exibição dos vídeos também demonstraram que os avisos não traziam benefícios ao aprendizado dos participantes.

Nesse outono, outro estudo relevante foi publicado online. Não era sobre avisos de gatilho especificamente, mas investigava um princípio cognitivo central nos debates de avisos de gatilho. Um grupo da Universidade de Würzburg, na Alemanha, queria ver se avisos prévios poderiam permitir que as pessoas ignorassem imagens ruins e distrativas enquanto estavam concentradas em outra tarefa. As descoberta consistente de três experimentos foi que as pessoas não podem se utilizar de avisos para se preparar ou se proteger de serem distraídas por uma imagem forte.

Todas essas novas descobertas em pesquisas não minam o aspecto ético ou ideológico dos avisos de gatilho, mas eles questionam seriamente os argumentos de teor psicológico utilizados pelos defensores dos avisos de gatilho. Ao mesmo tempo, os resultados fornecem uma base para outras declarações feitas pelos críticos dos avisos — como o jurista Greg Lukianoff e o psicólogo social Jonathan Haidt, autores do livro “The Coddling of the American Mind” [O mimo à mente americana, em tradução livre], de 2018 — principalmente, que esses avisos encorajam uma crença da vulnerabilidade das pessoas com histórico de trauma e, na verdade, da vulnerabilidade das pessoas, em geral.

Por exemplo, a pesquisa de Harvard descobriu que o uso de avisos de gatilho aumentaram a crença dos participantes na vulnerabilidade de pessoas com estresse pós-traumático — um efeito indesejado que os pesquisadores descreveram como uma forma de “estigma suave” (para o subgrupo de participantes que começaram o estudo acreditando no poder das palavras em machucar, os avisos de gatilho, na verdade, aumentaram o impacto negativo das passagens). Similarmente, a pesquisa de McKendree descobriu que o único efeito significativo dos avisos de gatilho foi o aumento da crença na sensibilidade de outros em relação a materiais sensíveis e na necessidade de avisos.

É importante não exagerar a oposição científica aos avisos de gatilho. Pesquisas sobre os seus efeitos ainda estão no começo e, mais importante, nenhum dos estudos recentes focou no seu uso entre pessoas com diagnósticos de transtornos mentais. Mesmo assim, os resultados são surpreendentemente consistentes em minar a declaração específica de que os avisos de gatilho permitem às pessoas engajar algum tipo de mecanismo de defesa mental. Também existe uma base de evidências sólida de que a fuga é uma estratégia danosa para pessoas em recuperação de traumas ou com ansiedade. A mensagem clara da psicologia, então, é de que avisos de gatilho devem vir com o próprio aviso — eles não vão fazer muito, além de encorajar estratégias de sobrevivência insustentáveis e a crença de que as pessoas são sensíveis e precisam de proteção.

Christian Jarrett é neurocientista cognitivo e escritor de ciência, com textos publicados no jornal The Guardian e na revista Psychology Today. É editor do blog Research Digest, publicado pela Sociedade Britânica de Psicologia, e apresenta o podcast PsychCrunch.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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