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Como a filantropia pode incentivar o mau comportamento

Doar grandes quantias de dinheiro deveria fazer do mundo um lugar melhor. Então por que tantos doadores para causas importantes também se envolvem em problemas?

Eu ministro um curso de ética e filantropia e escrevi sobre como doar para instituições de caridade de forma ética. Notícias recentes sobre pessoas que fizeram grandes doações de caridade agindo de forma ruim me fazem pensar se a filantropia realmente faz o mundo melhor.

Pense nisso: membros da família Sackler, que doaram milhões de dólares para instituições de arte, também são donos da Purdue Pharma. Essa é a empresa que patenteou e comercializou a Oxicodona, substância que ajudou a suscitar a crise dos opioides nos Estados Unidos. Entre 1999 e 2017, cerca de 218 mil pessoas morreram de overdose ligadas a remédios com opioides.

E há Warren Kanders, um grande doador para o Museu Whitney de Nova York. Ele renunciou ao cargo de vice presidente do conselho em julho de 2019 por causa da sua posição como como executivo-chefe da Safariland — uma produtora de coletes a prova de balas, robôs que lançam bombas e outros produtos de segurança. Artistas e ativistas exigiram sua saída após descobrir que a Safariland produziu o gás lacrimogêneo usado contra imigrantes na fronteira entre o México e a Califórnia.

Talvez o exemplo mais claro de fazer o bem e o mal seja Jeffrey Epstein. O magnata acusado de tráfico sexual de menores, que morreu na prisão em agosto de 2019, deu muito dinheiro para uma série de instituições, incluindo a Universidade de Harvard e o Media Lab do MIT. Ele fez essas doações antes e, em alguns casos, após a sua condenação por crimes sexuais envolvendo adolescentes — embora algumas das instituições que ele alegou apoiar dizerem nunca ter recebido o dinheiro.

Licença moral

É possível que dar dinheiro ou ser generoso deixa algumas pessoas mais propensas ao mau comportamento? Em uma palavra: sim.

Estudos mostram que as pessoas inconscientemente tentam atingir um equilíbrio moral. Psicólogos sociais chamam essa tendência de “lacuna de licença moral”. Em outras palavras, fazer o bem de acordo com o próprio julgamento faz com que pessoas se sintam livres para serem más.

Embora não seja uma experiência universal, é uma falha mental comum. Um bom exemplo é como pessoas zelosas pela dieta podem se recompensar com um sorvete. E ambientalistas que mudam o comportamento para consumir menos água também podem consumir mais energia.

Quando as pessoas doam dinheiro para caridade, outras as veem como generosas e atenciosas. Mas doar também influencia como os doadores veem a si mesmos e reassegura-os de suas virtude. Aqui está o gatilho para a licença moral: com créditos morais em mãos, filantropos podem se sentir no direito de serem maus.

Um estudo demonstrou que mesmo prever fazer algo bom pode ser o suficiente para engatilhar uma ação ruim. Outra pesquisa mostra que as boas energias de doar a alguma causa podem permitir que o benfeitor aja mal de outras maneiras não relacionadas.

Identificar implicações do mundo real

Isso é um problema para organizações sem fins lucrativos porque, mesmo sem perceber, elas podem acabar “autorizando” os doadores a fazerem coisas ruins.

A licença moral se diferencia do que é conhecido como lavagem de reputação, na qual instituições de caridade ajudam pessoas ruins a parecerem boas pessoas ao aceitar o seu dinheiro. A lavagem de reputação pode minar a credibilidade de instituições quando seus doadores se envolvem em problemas.

A licença moral, no entanto, levanta questões sobre organizações sem fins lucrativos facilitando o mal a outros pela cumplicidade. Na minha visão, toda instituição que aceita doações deve ajudar a prevenir o mal que a licença moral causa.

Todas as organizações sem fins lucrativos, sejam universidades, refeitórios sociais ou qualquer outra coisa, têm o poder de rejeitar doações de doadores se assim escolherem.

Certamente, vetar doadores pelo seu risco de licença moral seria um bom primeiro passo para organizações mantidas por filantropia. Entre outras coisas, normalmente faz sentido excluir doadores que têm um histórico claro de declarações sexistas ou racistas.

Doadores têm as próprias responsabilidades e devem monitorar a sua propensão a se envolver em casos de licença moral. Ao invés de ver a filantropia como evidência da própria virtude moral e uma forma de adquirir o direito de fazer algo ruim, eles poderiam vê-la como ela é: um dever cívico e moral.

Finalmente, doadores, amantes de arte, artistas, estudantes, membros de conselhos e empregados podem usar o seu poder para se opor a doadores inescrupulosos. A fotógrafa e ativista Nan Goldin, uma artista cujo trabalho foi exibido no Museu Whitney, e muitos funcionários do Media Lab do MIT fizeram isso, com algum nível de sucesso.

Acredito que organizações sem fins lucrativos devem exercer a devida diligência pela licença moral antes de aceitar grandes doações. Assim protegerão a própria reputação. Mais importante, protegerão os outros de danos.

Patricia Illingworth é e professora de ética de Universidade Northeastern e parceira sênior do Centro Carr de Políticas de Direitos Humanos da Escola Kennedy de Governo de Harvard.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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