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Como saber se o seu celular está arruinando a sua vida

Questionar a qualidade do tempo que se passa olhando para telas e tentar achar os pontos cegos dos seus hábitos digitais ajudam a entender o impacto da tecnologia no dia a dia 

O medo de distrações digitais estarem arruinando as nossas vidas e amizades é muito disseminado.

É certo que o vício digital é real. Considere as 2.600 vezes que tocamos nossos celulares todo dia, nosso pânico quando guardamos um dispositivo no lugar errado, a experiência da “síndrome da vibração fantasma” e como meramente ver um alerta de mensagem pode nos distrair tanto quanto a mensagem em si.

Isso pode ter consequências reais. Por exemplo, outras pessoas levam para o lado pessoal se você para de falar com elas para responder uma mensagem. E fazer uma pausa de uma tarefa para olhar o celular impede pensamentos mais profundos sobre o que quer que você esteja fazendo.

Mas esses fatos contam apenas parte da história. Precisamos reconhecer também que as tecnologias atuais nos deixam mais conectados do que nunca. Como evitamos armadilhas sem deixar de aproveitar os benefícios disso?

Como as telas afetam nossas interações

Como pesquisadora da área de tecnologia e comunicações, eu passei cerca de duas décadas olhando para as formas em que as interações por telas são diferentes das interações em outros formatos, como cara a cara, ao telefone, e por escrito.

Meu grupo de pesquisa produziu estudo após estudo mostrando que pessoas são mais egoístas (isto é, elas mentem mais), mais negativas (por exemplo, dando aos outros notas de feedback mais baixas) e menos cooperativas (se comportam mais “tentando ser o melhor”) quando usam meios digitais de comunicação. E para crianças abaixo dos cinco anos, existem sérias preocupações sobre o desenvolvimento cerebral.

Nossos medos sobre os impactos que períodos cada vez maiores de conexão às telas têm em nós mesmos e nas nossas crianças envolvem três áreas principais: saúde mental, vício e o nível de interação com o que está acontecendo ao nosso redor. Em todos os três, os riscos são, em geral, exagerados.

Muito se diz sobre as potenciais ligações entre depressão e o uso de celulares — especialmente entre adolescentes — mas evidências recentes parecem indicar que essa ligação é, no pior caso, tênue.

Quanto ao vício, o campo da psicologia agora reconheceu o vício em videogames como um problema genuíno e diagnosticável. Histórias sobre centros de reabilitação para pessoas cujas vidas têm sido consumidas por esse vício sugerem que o fenômeno é real e o sofrimento pode ser bastante genuíno.

Mas isso é raro, comparado aos números de pessoas que jogam games online sem consequências sérias.

E em termos de interações, a despeito do crescente tempo de tela, a maior parte das crianças ainda é educada, faz amigos, e seguem com vidas produtivas.

Um mundo mais conectado

Conforme mais das nossas interações se distanciam do tradicional cara a cara e adentram os domínios virtuais, acredito que temos que reconhecer que, em algumas áreas, a riqueza de interações também está aumentando.

Colegas podem trabalhar juntos à distância, amigos podem manter contato sem restrições e avós podem conversar com os netos sem precisar marcar uma visita ou falar com os pais.

A linguagem muda conforme interagimos em descargas curtas, nos permitindo conectar de formas menos formais. O humor muda conforme somos capazes de adicionar elementos visuais — imagens, emojis, GIFs, memes — às nossas palavras. Mesmo os jogos online podem ser um portal para maiores interações sociais para algumas pessoas.

Você está com um problema?

Talvez a melhor forma de avaliar o tempo que passamos com o celular seja fazer duas perguntas relacionadas.

Primeiro, o que você está fazendo com a tempo dedicado ao seu celular, e isso é consistente com os seus valores e prioridades?

Se você sente que você e seus filhos estão aproveitando o tempo de tela sem arriscar o sono, trabalho ou interações presenciais, você pode não ter muita razão para se preocupar. Para ajudar com essa tarefa, ferramentas e aplicativos que mapeiam o tempo de tela e te informam para onde a sua atenção está voltada — ou mesmo limitam para onde ela pode ir — estão se tornando mais populares.

Segundo, quais são os seus pontos cegos sobre onde e como o uso do celular pode estar limitando o resto da sua vida?

A maioria de nós sabe que não devemos usar o celular antes de ir dormir — ou pior, enquanto dirigimos ou atravessamos a rua — e sabemos que devemos observar as nossas crianças e adolescentes para ter certeza de que eles estão construindo bons hábitos dentro e fora do ambiente digital. Mas temos menos clareza sobre como nossos telefones podem estar afetando nossas vidas de outras formas.

As últimas pesquisas fornecem algumas lições. Para começo de conversa, não somos tão bons em fazer várias coisas ao mesmo tempo como pensamos: de forma geral, damos menos atenção às duas tarefas quando tentamos fazer duas coisas ao mesmo tempo. Com o passar do tempo, pessoas que fazem isso constantemente acabam com uma maior taxa de erros nas tarefas, talvez ligadas a uma pior memória de trabalho.

Mesmo a presença de um celular pode limitar o seu engajamento no trabalho e sua habilidade de construir relações com os outros.

Encontrando o equilíbrio inatingível

Tudo isso significa que, embora você não precise se preocupar com o seu uso do telefone de forma geral, ainda existem momentos em que é sábio deixar o seu aparelho fora do alcance da visão e audição. Isso te dará uma melhor chance de pensar sobre tarefas complexas sem interrupção ou de interagir mais plenamente com aqueles ao seu redor.

Deixar os celulares de lado não parece realista nem desejável: a sociedade foi para frente, com os telefones à mão.

Mas escolher os momentos onde estar livre do telefone é mais valioso pode ajudar a te manter na linha.

Terri R. Kurtzberg é professora associada de administração e negócios globais na Universidade Rutgers.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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