Ir direto ao conteúdo

Como micróbios podem influenciar as suas amizades

Pesquisas confirmam que é possível prever os micróbios que você carrega pelas pessoas com quem você passa o tempo. Agora, eles estudam se esses microrganismos podem ter efeito na sua vida social 

É manhã numa planície vasta no Parque Nacional Amboseli, no sul do Quênia. Com um pequeno copo descartável e um palito abaixador de língua, Susan Alberts coleta uma amostra fecal deixada por uma babuína chamada Yoruba.

Alberts é uma primatologista renomada. Ela é líder do departamento de antropologia evolucionária e membro do departamento de biologia da Universidade de Duke, e codiretora do Amboseli Baboon Research Project [Projeto de Pesquisa sobre Babuínos de Amboseli, em tradução livre]. Mas, esta manhã, ela tem o trabalho pouco glamouroso de preparar o cocô da Yoruba.

Alberts carrega o copo para o seu laboratório de campo improvisado — o capô de uma 4x4 salpicada de lama — e divide a amostra em diversos copos, marcando cada um deles com detalhes de identificação. “Isso é para Beth”, diz Albert, conforme adiciona formalina a um dos copos. Beth Archie é bióloga da Universidade de Notre Dame, diretora associada do Amboseli e dirige a pesquisa sobre o microbioma do projeto.

Quando o Amboseli Baboon Research Project foi fundado, em 1971, pesquisas sobre microbiomas não estavam em alta. O objetivo era descobrir as profundas raízes evolucionárias do comportamento social em primatas. Desde então, cientistas do Amboseli acompanharam milhares de babuínos, fizeram muitas descobertas relevantes sobre a importância de laços sociais, e foram publicados em periódicos científicos de prestígio, como o Science and Nature. Eles também coletaram muito cocô de babuíno. Há 20 anos, as amostras fecais têm sido usadas para testar DNA e níveis de hormônios esteróides.

Porém, cerca de cinco anos atrás, essas amostras fecais combinadas com os arquivos detalhados do projeto sobre as interações sociais entre babuínos revelaram uma conexão surpreendente. Os corpos hospedam um patrimônio de microrganismos, chamado pelos cientistas de microbioma; as amostras fecais oferecem conhecimento especificamente sobre o microbioma intestinal. Os cientistas presumem há tempos que a composição do microbioma intestinal era majoritariamente determinada pela dieta e o ambiente, mas as amostras de Amboseli revelaram que a vida social do babuíno é uma importante forma de prever esse microbioma.

Essa descoberta estimulou novas ideias sobre o porquê de animais, inclusive humanos, serem sociais. Uma teoria é que compartilhar micróbios pode ter benefícios que antes passavam despercebidos e que, ao longo das escalas temporais evolucionárias, esses benefícios nos levaram a interagir uns com os outros. Em outras palavras, nossas vidas sociais configuram as nossas populações de microrganismos — e esses micróbios podem ter ajudado a moldar a vida social da nossa espécie.

Se esse for o caso, cada espirro, beijo, ou tapinha nas costas pode ter sido parte de uma história mais ampla, um condutor da nossa natureza social, e talvez mais benéfico do que se poderia esperar. Os antropólogos e biólogos que estudam os babuínos do Amboseli estão posicionados de forma única para explorar essa ideia.

Todo animal — da abelha mamangava ao ser humano — tem um microbioma, ou vários microbiomas. O sistema digestório, a pele, e outras partes do corpo hospedam comunidades de micróbios que, juntos, compõem o microbioma intestinal, o da pele, e assim por diante. Nos últimos 10 a 15 anos, avanços na tecnologia de sequenciamento de DNA possibilitaram ver a surpreendente diversidade desses microbiomas com mais clareza. “Todos ficaram estarrecidos com a aparência dessa diversidade”, diz Archie.

Também há uma crescente valorização do bem que os micróbios podem fazer. Enquanto alguns têm efeitos negativos como engatilhar doenças, outros são neutros ou mesmo positivos. Entre outras coisas, eles fortalecem o sistema imunológico de animais, produzem vitaminas, ajudam na digestão, e previnem o crescimento de bactérias prejudiciais.

Até recentemente, no entanto, pesquisas sobre a conexão entre o microbioma e a sociabilidade focavam em agentes patogênicos e infecções. Quem já deixou uma criança na creche ou pegou um avião com alguém que estava tossindo e espirrando está ciente que micróbios podem transmitir doenças de um indivíduo para outro pelo contato físico ou ambientes compartilhados. Alguns pesquisadores sugeriram que o medo de infecções pode ser uma explicação para a desconfiança humana para com estranhos.

Mas agora há sinais de que o compartilhamento de micróbios entre parceiros sociais está fazendo algo mais. Mamangavas, por exemplo, podem ser infectadas por um parasita que é particularmente nocivo para as mamangavas rainhas. Em 2011, pesquisadores descobriram que as mamangavas portam um micróbio que é transmitido socialmente pela colmeia e que as protege contra esse parasita — um caso claro de transmissão social benéfica.

E micróbios podem moldar a forma que certos organismos interagem. Em alguns estudos sobre roedores, a presença ou ausência de bactérias específicas pode determinar se camundongos mostram déficits sociais, como evitar interações com os seus pares. Bactérias da flora intestinal desempenham um papel em atrair moscas para os seus parceiros. E micróbios podem influenciar a produção corporal de hormônios como ocitocina, que tem um papel poderoso na criação de laços.

Compartilhar micróbios pode ter benefícios que antes passavam despercebidos e que, ao longo das escalas temporais evolucionárias, esses benefícios nos levaram a interagir uns com os outros.

Já para os humanos, sabemos que pessoas que compartilham a casa também compartilham micróbios. Em 2014, o microbiólogo Jack Gilbert, então da Universidade de Chicago e do Argonne National Laboratory, e seus colegas estudaram sete famílias e suas casa por mais de seis semanas. Eles descobriram que as comunidades microbióticas de cada casa eram facilmente distinguíveis e que cada uma era identificável pela família. Três famílias que se mudaram durante o estudo levaram suas “auras microbiais” com elas. Mas Gilbert e seus colegas não puderam determinar quanto dessa sobreposição microbial se relacionava ao ambiente compartilhado, à dieta, à genética, ou à interação social.

Em Amboseli, os cientistas seguem milhares de babuínos quase diariamente, registrando quem faz o quê para quem e o que acontece como resultado. Cerca de cinco anos atrás, eles começaram a imaginar se o mesmo comportamento social que estavam monitorando tão assiduamente poderia dizer algo sobre o microbioma, e vice-versa.

“Era bem estabelecido que a dieta desempenhava um grande papel moldando o microbioma, especialmente no intestino, por razões óbvias”, diz Jenny Tung, outra diretora associada do Amboseli que, como Alberts, é professora do departamento de antropologia evolucionária na Universidade de Duke. “Mas e em relação a quão legais animais são uns com os outros?”, ela indaga. “E as suas relações sociais? Isso é uma possibilidade?”

Em 2015, os babuínos Amboseli forneceram uma resposta. Babuínos selvagens vivem em grupos sociais de 20 a 150 animais. Dentro de cada grupo, os indivíduos variam em quão sociáveis eles são, mas a maioria tem alguns animais favoritos, frequentemente parentes, com os quais eles se limpam, pegando insetos e sujeira do pelo do outro — para babuínos e a maior parte dos outros primatas não humanos, limpar-se é uma moeda social preciosa.

Archie, Tung e suas colegas usaram uma técnica de sequenciamento de DNA em amostras fecais de 48 babuínos em dois grupos sociais diferentes para identificar os micróbios encontrados no intestino dos animais. Eles descobriram que o grupo social de um indivíduo e sua rede social eram fortes indicativos de quais micróbios viveriam no microbioma intestinal daquele indivíduo — mesmo ao considerar os papéis da dieta e da linhagem. “O que foi surpreendente foi quão claro isso era um indicativo”, diz Tung.

Os babuínos Amboseli se aproximam bem dos humanos por diversas razões. Uma é que eles vivem nas mesmas savanas do leste africano de onde os humanos provavelmente evoluíram. “Eles podem nos fornecer um vislumbre do mais próximo que conseguimos de um humano primitivo”, diz Archie.

E como os ambientes dos babuínos são menos complexos do que o dos humanos, os pesquisadores são capazes de determinar com mais precisão a forma que microbiomas similares refletem níveis de interação entre parceiros que cuidam uns dos outros. Em outras palavras, eles podem tirar muitas variáveis enganadoras que atormentam as pesquisas sobre humanos.

Os resultados de Amboseli foram inovadores. “Esse foi o primeiro estudo que determinou claramente que a quantidade de tempo que você passa com alguém vai determinar quão semelhantes os seus microbiomas são”, diz a antropóloga biológica da Universidade Northwestern Katherine Amato. “E isso gerou muita animação em termos de pensar como micróbios podem ser passados entre os indivíduos”.

Mais evidências das ligações entre sociabilidade e microbioma continuam a se acumular. Um estudo de 2016 com chimpanzés também mostrou um papel das relações sociais em moldar os microbiomas. Andrew Moeller, biólogo evolucionário da Universidade de Cornell, descobriu que as interações sociais entre os chimpanzés aumentavam a diversidade de micróbios no intestino de um animal e que cada grupo social tinha um pan-microbioma, uma comunidade de espécies que se estendiam pelo grupo todo.

Em 2017, os pesquisadores de Amboseli mostraram que os microbiomas intestinais de babuínos machos, que mudam de grupo ao atingirem a maturidade sexual, se tornam progressivamente mais semelhantes aos dos membros do novo grupo em um período de meses. Se a dieta influenciasse essa mudança mais do que as interações sociais, isso aconteceria mais rápido.

Em um estudo de 2017 sobre macacos alouatta, Amato descobriu que quanto mais tempo dois indivíduos passavam um com o outro, mais semelhantes seus microbiomas intestinais eram. “Não era resultado de parentesco” disse Amato. “Era sociabilidade”.

Agora que está claro que o comportamento social tem um papel em moldar o microbioma intestinal, a próxima questão é se os microbiomas têm algum impacto nos nossos mundos sociais. Cientistas ainda não têm uma resposta, mas eles estão empolgados pelas possibilidades, que poderiam ter implicações para entender a evolução da sociabilidade.

Existem teorias de longo prazo sobre porque animais, incluindo humanos, devem ser sociais. Viver em grupo é uma forma de evitar predadores e de encontrar ajuda para buscar comida e criar os filhotes. Provavelmente todas essas razões funcionam juntas para nos induzir à sociabilidade, diz Archie. “Existem muitas razões boas e convincentes para tantos animais serem sociáveis. As consequências para o seu microbioma podem ser um custo e um benefício da sociabilidade sobre o qual ainda não pensamos”, acrescenta.

Por que o microbioma seria útil? Existem muitas teorias. Poderia ser porque as conexões sociais alteram o nosso microbioma de forma a aumentar a nossa imunidade. Nossos amigos também podem servir como reservas microbiais. Nós passamos micróbios para eles e então, se gastamos as nossas reservas por algum motivo — como doenças, por exemplo — eles podem passá-los de volta para nós.

A diversidade nas relações sociais pode assegurar um microbioma mais diverso, e pode ser que certos micróbios benéficos sejam alcançados apenas por parceiros sociais.

"Existem muitas razões boas e convincentes para tantos animais serem sociáveis. As consequências para o seu microbioma podem ser um custo e um benefício da sociabilidade sobre o qual ainda não pensamos"

Beth Archie

Diretora do projeto de pesquisa do Amboseli

Outra possibilidade é que micróbios têm um papel na comunicação social pelo cheiro. Humanos têm cheiro corporal e muitos animais têm glândulas odoríferas. Décadas atrás, pesquisadores propuseram que não são os animais por si só que produzem o odor, mas micróbios, que produzem compostos orgânicos voláteis que se espalham pelo ar para propriamente produzir o cheiro. “Se estamos usando o cheiro para comunicar algo sobre o outro, é provável que os micróbios sejam os intermediários na produção da comunicação”, diz Archie.

É claro, também é possível que não haja um benefício evolucionário em jogo nos nossos microbiomas socialmente influenciados. Pesquisadores reconhecem a possibilidade de que ganhos e perdas associadas à sociabilidade e ao microbioma afetem animais com microbiomas intestinais mais simples, como mamangavas, mas isso pode não importar ao longo da cadeia evolutiva. “Ainda não temos evidência se isso chega ao nível dos humanos e outros mamíferos sociais”, diz Tung.

Se alguém será capaz de coletar evidências para dar a essas teorias uma base mais sólida, provavelmente será o grupo de Amboseli. No momento em que publicaram o primeiro estudo que ligava sociabilidade ao microbioma, Alberts, Archie e suas colegas perceberam que estavam com uma mina de ouro microbial.

Além das novas amostras que continuam a coletar, eles têm mais de 20 mil amostras fecais liofilizadas em diversos freezers no laboratório da fundadora do projeto Amboseli, Jeanna Altmann, da Universidade de Princeton. Altmann nunca descarta nada, e ela continuou a armazenar o que sobrava das fezes após elas serem usadas para testar DNA e níveis hormonais. Esse lixo do lixo agora parece ser um recurso sem precedentes.

Quando Gilbert, que estudou as “auras microbiais” humanas leu o estudo de 2015 de Amboseli, ele imediatamente ligou para Archie para ver se poderiam trabalhar juntos. “É excepcionalmente incomum ver algo nessa escala” disse Gilbert, agora na Universidade da Califórnia. Ele lembra de dizer a Archie: “Eu preciso disso e eu preciso agora. Me dê o cocô. Me dê o cocô”.

As amostras com décadas de idade viajaram um longo caminho dos capôs das 4x4s da savana do leste da África. Após resgatar as amostras dos freezers de Altmann, Archie, Tung e suas colegas se engajaram em um esforço hercúleo para prepará-las para o sequenciamento de DNA. Haviam tantas amostras que eles tiveram que dividi-las entre o laboratório de Archie em Notre Dame e o de Tung em Duke. Cada membro de cada laboratório e mesmo cônjuges ajudaram a organizar cuidadosamente as fezes liofilizadas nas mais de 200 bandejas de amostras — cada bandeja tem o tamanho aproximado de uma ficha catalográfica, com 96 espaços de 1cm de largura. Então as amostras foram movidas para o antigo laboratório de Gilbert, no Argonne National Laboratory.

As análises iniciais de Archie, Tung e Gilbert serviram para identificar a diversidade microbial em cada amostra, de forma que seria possível ver quão semelhantes os microbiomas dos babuínos eram. Mas como o intervalo de tempo das amostras abrange quase 15 anos das vidas de alguns animais, elas também podem ser usadas para mostrar mudanças nos microbiomas dos indivíduos ao longo do tempo. “O que temos até agora é basicamente um conjunto de fotos,” diz Archie “a esperança é transformá-las em um filme. Como a sua vida social molda a sua microbiota conforme você avança no tempo?”

A equipe também está fazendo uma análise genômica completa de um subconjunto menor de amostras de cerca de 400 animais. Isso fornecerá mais informações sobre as funções que micróbios específicos têm para os seus hospedeiros.

Se a equipe descobrir uma ligação entre a semelhança microbial aumentada entre parceiros sociais e sucesso reprodutivo, isso seria evidência de um condutor evolutivo em ação na conexão entre sociabilidade e micróbios. Gilbert conjectura: “Se você compartilhar mais bactérias entre um grupo, você terá mais descendentes. Isso [forneceria] evidências futuras de uma pressão de seleção evolutiva sobre aquele comportamento e [sugere] que o compartilhamento de micróbios pode estar guiando essa pressão pela seleção.”

Globalmente, essa nova linha de trabalho, de acordo com Gilbert “traz nova estranheza à frase ‘amizade colorida’”. Também levanta a questão de quais potenciais benefícios à saúde as interações com nossos amigos podem ter.

“Você deveria cumprimentar seus amigos com um “soquinho”? Você deveria abraçar? Dar um beijo na bochecha? Segurar as mãos?”, diz. “Muitas culturas fazem todas essas coisas. Nós simplesmente não sabemos. Essa é a razão pela qual nós fazemos a pesquisa e tentamos descobrir.”

Lydia Denworth é jornalista científica em Nova York

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes