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O sentido da vida, segundo esse existencialista darwinista

Filósofo usa teoria de Darwin para responder pergunta fundamental

Cresci na religião Quaker, mas por volta dos 20 anos minha fé se esgotou. Seria mais fácil dizer que isso ocorreu porque eu comecei a me dedicar à filosofia — minha ocupação para a vida toda como professor e acadêmico. Isso não é verdade. Mais precisamente, eu brinco que tendo tido um diretor durante essa vida, eu estaria condenado se quisesse outro na próxima vida. Naquela época, eu estava convencido de que, aos 70 anos, eu estaria me juntado às autoridades. Mas a fé não voltou e, me aproximando dos 80 anos, não está no horizonte. Eu me sinto mais em paz comigo mesmo do que já estive antes. Não é que eu não me importo com o significado ou o sentido da vida — eu sou um filósofo! Minha paz também não significa que eu sou complacente ou tenho desilusões sobre as minhas conquistas e sucessos. Pelo contrário, eu sinto aquele profundo contentamento que as pessoas religiosas dizem ser a recompensa pela vida correta.

Eu estou nessa situação por duas razões. Como estudioso de Charles Darwin, eu estou completamente convencido — com ou sem Deus — que nós somos (como o biólogo do século 19 Thomas Henry Huxley costumava dizer) macacos modificados mais do que barro modificado. A cultura é imensamente importante, mas ignorar a nossa biologia é errado. Segundo, eu sou inclinado, filosoficamente, ao existencialismo. Um século depois de Darwin, Jean Paul Sartre disse que estamos condenados à liberdade, e eu acho que ele está certo. Mesmo que Deus exista. Ele ou Ela é irrelevante. As escolhas são nossas.

Sartre negou a existência de algo como a natureza humana. Desse homem francês quintessencial, eu incorporo isso com uma pitada a mais: nós somos livres, dentro do contexto da nossa natureza humana concebida de forma darwiniana. No que eu estou pensando? Muitos filósofos hoje em dia se sentem desconfortáveis até em levantar a ideia de natureza humana. Eles sentem que ela é rapidamente usada contra minorias — homossexuais, pessoas com deficiência, e outros — para sugerir que eles não são realmente humanos. Isso é um desafio, não uma refutação. Se a definição de natureza humana não pode levar em conta que cerca de 10% de nós somos atraídos pelo mesmo sexo, então o problema não é com a natureza humana, mas sim com a sua definição.

Então, o que é a natureza humana? No meio do século 20, era comum sugerir que éramos primatas assassinos: nós podemos fazer e fazemos armas, e nós as usamos. Mas primatologistas modernos têm pouco tempo para isso. Suas descobertas sugerem que a maioria dos primatas preferiria copular do que lutar. Ao fazer guerra, nós realmente não estamos fazendo o que seria natural. Eu não nego que humanos são violentos, independentemente da nossa essência ir no outro sentido. É uma questão de sociabilidade. Nós não somos tão rápidos, não somos tão fortes, somos inúteis quando há mau tempo, mas nós temos sucesso porque trabalhamos juntos. De fato, nossa falta de armas naturais aponta nesse sentido. Não conseguimos tudo o que queremos por meio da violência. Precisamos cooperar.

Darwinianos não descobriram esse fato sobre a nossa natureza. Veja o poeta metafísico John Donne em 1624:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

John Donne

Poeta

A teoria da evolução darwiniana mostra como isso se concretizou, pelas forças da natureza. Ela sugere que não há futuro eterno ou, se há, ele não é relevante para o aqui e agora. Melhor, nós devemos viver a vida ao máximo, dentro do contexto da — e libertos pela — nossa natureza humana concebida de forma darwiniana. Eu vejo três formas básicas de isso acontecer.

Primeiro, pela família. Humanos não são como machos orangotangos cuja vida doméstica é composta por casos de uma noite. Um macho aparece, cuida dos seus negócios, e então, sexualmente satisfeito, desaparece. A fêmea prenha dá à luz e cria o filhote sozinha. Isso é possível simplesmente porque ela é capaz. Se ela não fosse, biologicamente, seria interessante aos machos dar uma mão. Pássaros machos ajudam no ninho porque, como os filhotes ficam expostos no topo das árvores, precisam crescer o mais rápido possível. Humanos enfrentam desafios diferentes, mas com a mesma finalidade. Nós temos cérebros grandes, que precisam de tempo para se desenvolver. Nossos filhotes não podem se defender em dias ou semanas. Dessa forma, humanos precisam de muitos cuidados parentais, e a nossa biologia nos enquadra à vida doméstica, como cônjuges, filhos, pais, e mais. Não é por acaso que os homens empurram o carrinho de bebê. Ou se vangloriam para os colegas de trabalho pelo filho que entrou em Harvard.

Segundo, sociedade. Colegas de trabalho, atendentes de loja, professores, médicos, balconista de hotel — a lista é infinita. Nossa força evolutiva é trabalharmos juntos, ajudando e esperando ajuda. Eu sou professor, não apenas dos meus filhos, mas dos seus e de outros também. Você é médico: você cuida não apenas dos seus filhos, mas dos meus e dos outros também. Dessa forma, todos nos beneficiamos. Como Adam Smith apontou em 1776, nada disso acontece por acaso ou porque a natureza de repente se tornou permissiva: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro, ou do padeiro, que esperamos o nosso jantar, mas da sua busca pelos próprios interesses”. Smith invocou a “mão invisível”. O darwinismo atribui à evolução pela seleção natural.

Embora a vida seja um fardo às vezes, a biologia garante que nós lidemos com o trabalho, e que façamos isso como parte das nossas vidas plenas. John Stuart Mill entendeu corretamente em 1863: “Quando pessoas que são bastante afortunadas em termos materiais não encontram prazer suficiente para tornar a sua vida valiosa, normalmente é porque elas não se importam com ninguém além delas mesmas”.

Terceiro, cultura. Obras de arte e entretenimento, televisão, filmes, peças, romances, pinturas e esportes. Repare quão social tudo isso é. “Romeu e Julieta”, sobre jovens em um amor condenado ao fracasso. “A família Soprano”, sobre uma família de mafiosos. Uma pintura pseudo-cômica de Roy Lichtenstein: uma garota ao telefone: “ah, Jeff… Eu também te amo, mas…” A Inglaterra derrotando a Austrália no críquete. Existem evolucionistas que acreditam que a cultura está tão intimamente ligada à biologia, que estão inclinados a vê-la como um produto paralelo à evolução, o que Stephen Jay Gould, em 1982, chamou de “exaptação”. Isso com certeza é verdade, em parte. Mas, provavelmente, apenas em parte. Darwin pensou que a cultura pode ter algo a ver com a seleção sexual: proto-humanos usando canções e melodias, digamos, para atrair parceiros. Sherlock Holmes concordou; em “Um estudo em vermelho” (1887), ele diz a Watson que a habilidade musical antecede a fala, de acordo com Darwin: “Talvez seja por isso que nós somos tão sutilmente influenciados por ela. Existem vagas memórias nas nossas almas daqueles nebulosos séculos em que o mundo estava na sua juventude”.

Junte os pontos. Eu tenho uma vida familiar plena, uma esposa e filhos amáveis. Eu até gostava de adolescentes. Eu sou professor universitário há 55 anos. Nem sempre fiz o trabalho tão bem quanto eu podia, mas não estou mentindo quando digo que a manhã de segunda-feira é o meu momento favorito da semana. Não sou um artista muito criativo, e sou péssimo em esportes. Mas fiz os meus estudos e os compartilhei com outros. Por que mais estou escrevendo isso? E eu gostei do trabalho de camaradas humanos. Uma bela perfomance da ópera de Mozart “As bodas de Fígaro” é divina. Eu digo isso literalmente.

Esse é o meu sentido para a vida. Quando eu encontrar o meu Deus que não existe, eu direi a ele: “Deus, você me deu talentos, e foi muito divertido usá-los. Obrigado”. Não preciso de mais nada. Como George Meredith escreveu em seu poema “Na floresta” (1870):

“O amante da vida conhece seu trabalho divino,

e aí está em paz.”

George Meredith

Poeta

Michael Ruse é professor de Filosofia e diretor do departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade do Estado da Flórida.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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