Ir direto ao conteúdo

Os fatores da personalidade ligados ao vício

Existem algumas coisas compartilhadas entre pessoas predispostas ao vício.

A maioria de nós conhece alguém que tende a se envolver demais em certos tipos de comportamentos, e se costuma dizer que essa pessoa deve ter uma “personalidade propensa ao vício”. Mas isso existe?

A ideia de uma personalidade propensa ao vício é mais psicologia popular do que ciência.

O que é personalidade?

Para entender por que essa ideia é falha, é importante entender primeiro o que psicólogos querem dizer quando se referem à personalidade.

Ela é composta por características individuais amplas, estáveis e mensuráveis que predizem o comportamento. Então, por definição, se envolver em comportamentos excessivos não pode ser considerado um traço de personalidade.

No entanto, existem traços de personalidade que estão associados ao vício.

O neuroticismo é uma das cinco maiores dimensões da personalidade. São as cinco principais características que influenciam o comportamento. Elas incluem abertura à experiência, discernimento, extroversão/introversão, afabilidade e neuroticismo.

Pessoas que têm grandes níveis de neuroticismo tendem a ser estimuladas emocionalmente com facilidade. Elas também são mais propensas a desenvolver comportamentos excessivos, como excessos alimentares, gastar muito tempo com jogos virtuais, usar muito as redes sociais, e dependência química.

Pessoas muito neuróticas podem desenvolver comportamentos excessivos para ajudar a gerenciar as suas emoções. O neuroticismo também foi associado a uma série de transtornos mentais, o que pode nos levar a indagar se o vício é causado por transtornos mentais.

Existem evidências disso para algumas pessoas. Nesses casos, o comportamento viciante delas reduz as emoções negativas causadas pelo transtorno mental. Embora também possa ser que alguns fatores da personalidade, como o neuroticismo, predisponham alguém a transtornos mentais e vício, separadamente.

Natureza versus criação

Existem algumas evidências de que, tanto a personalidade quanto comportamentos relacionados ao vício, têm um componente genético.

Cinco genes chave foram descobertos como propensores de dependência química e outros comportamentos relacionados ao vício.

Um desses genes também foi associado à extroversão, outra das cinco principais dimensões da personalidade. Extroversão se refere ao grau em que as pessoas “buscam novas experiências e conexões sociais que lhes permitem interagir com outros humanos tanto quanto possível”.

Esses cinco genes reduzem o funcionamento da dopamina, ou sistema de recompensas do cérebro. Os cérebros de pessoas com variantes dos genes associados à extroversão e comportamentos relacionados ao vício usam a dopamina de maneira menos eficiente. Foi sugerido que isso leva essas pessoas a buscarem prazer em outras experiências.

A dopamina costuma ser mal explicada como o neurotransmissor do prazer. Uma descrição mais precisa da dopamina é de que é o neurotransmissor da motivação. Ela motiva as pessoas a certos comportamentos — particularmente àqueles necessários à sobrevivência, como comer e fazer sexo.

Então, faz sentido que variantes desses genes tenham sido associadas à “busca por sensações”, outra dimensão da personalidade. A busca por sensações é uma “característica definida pela disposição a correr riscos físicos, sociais, legais e financeiros por essas experiências”. Pessoas com comportamentos relacionados ao vício também têm altos níveis dessa dimensão da personalidade.

No entanto, dizer que esses são os genes para uma personalidade propensa ao vício é um pouco como dizer que os genes da altura são os genes do basquete. Enquanto algumas pessoas que são altas são boas no basquete, nem todas as pessoas altas têm a oportunidade ou o desejo de aprender o esporte.

Similarmente, nem todo mundo com variantes dos genes da dopamina associados a comportamentos excessivos desenvolvem problemas com dependência química ou outros comportamentos relacionados ao vício. O ambiente também é importante.

É provável que algumas dessas pessoas cujo sistema de dopamina é menos eficiente devido a variações genéticas reparem em sua dopamina por meio de outras atividades, como corridas, snowboard, surf, paraquedismo, e assim por diante. E algumas pessoas que desenvolvem uma dependência de álcool e outras drogas não têm essa predisposição genética. Elas podem desenvolver problemas devido a uma série de influências externas, como trauma ou modelos sociais de uso de drogas.

Então, embora haja alguns fatores comuns associados à personalidade que podem prever o vício, não existe um tipo de personalidade que causa o desenvolvimento de comportamentos excessivos. O vício tem múltiplas causas, e associá-lo apenas à personalidade de alguém provavelmente não ajuda muito a lidar com a situação.

Stephen Bright é psicólogo e especialista em álcool e outras drogas, professor sênior na Edith Cowan University

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes