O surpreendente declínio da inovação e do empreendedorismo

Apesar do mito de que vivemos em uma era de rápida disrupção tecnológica, os dados mostram que as economias do Ocidente estão se tornando menos inovadoras e dinâmicas

 

A ideia de que estamos vivendo em uma era empreendedora, na qual  experimentamos rápida inovação tecnológica disruptiva em escala equivalente a uma nova Revolução Industrial, é um mito moderno generalizado. Acadêmicos escreveram artigos exaltando a chegada da “economia empreendedora”. Formuladores de políticas públicas e investidores injetaram grandes quantidades de fundos em ecossistemas de startups e inovação. Cursos de administração, universidades e escolas incluíram o empreendedorismo em seus currículos principais.

O único problema é que a era de ouro do empreendedorismo e da inovação no Ocidente já passou. Desde os anos 80, o empreendedorismo, a inovação e, de maneira mais geral, a dinâmica dos negócios vêm diminuindo constantemente – principalmente nos EUA. Como o economista Tyler Cowen descobriu:

“Hoje em dia, é menos provável que os americanos mudem de emprego, se movimentem pelo país e, em um dia normal, é mais provável que sequer saiam de casa […] a economia está mais ossificada, mais controlada e cresce a taxas mais lentas.”

A economia ossificada

Não importa a medida de empreendedorismo que você usa, a tendência subjacente é a mesma: para baixo. Por exemplo, se medido como o número de novas empresas (com menos de um ano) em relação ao total de empresas, o empreendedorismo nos EUA diminuiu cerca de 50% entre 1978 e 2011. Em termos da participação de novas empresas (com menos de cinco anos de existência), o empreendedorismo caiu de 47% no final da década de 1980 para 39% em 2006. Enquanto isso,  no mesmo período o número de pessoas que trabalha em grandes empresas (aquelas que empregam mais de 250 pessoas) aumentou de 51% para 57% da força de trabalho geral, e o tamanho médio das empresas aumentou de 20 para 24 funcionários.

Uma razão para o declínio é uma queda no crescimento da população e seu envelhecimento. A taxa de fertilidade da Europa é de 1,6 filho por mulher, o que significa que cada geração será 20% menor que a anterior

A mobilidade entre empregos, mobilidade profissional interna e mobilidade geográfica – todas medidas indiretas das dinâmicas de entrada e saída de negócios – têm diminuído. Há também evidências de que, depois do ano 2000, a criação de empregos nos EUA mudou de postos com altos salários para os de salários baixos (e pouco qualificados). Da mesma forma, a participação de empresários com ensino superior nos EUA caiu de 12,2% em 1985 para 5,3% em 2014. Como coloca o economista Nicholas Kozeniauskas, “o declínio do empreendedorismo está concentrado entre os inteligentes”.

Várias medidas indicam que os empreendedores também estão menos inovadores. A proporção de patentes em relação ao PIB nos EUA está caindo e o custo das patentes está aumentando. A idade dos inventores, baseada em quando registraram sua primeira patente, e o tamanho médio das equipes de pesquisa está aumentando. Além disso, como descobriram o economista Nicholas Bloom e seus co-autores, “a produtividade da pesquisa para a economia dos EUA como um todo diminuiu em um fator de 41 desde a década de 1930, uma redução de mais de 5% ao ano em média”.

Além de ser um problema nos EUA – a maior e mais complexa economia do mundo –, evidências também confirmam que o empreendedorismo e a inovação estão em declínio na Bélgica, no Reino Unido e na Alemanha. E, como descobri em um artigo recente, os dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostram um declínio de 8,2%, em 1991, para 6,8%, em 2018, no empreendedorismo em economias de alta renda.

Razões para o declínio

Uma razão para esse declínio é uma queda no crescimento da população e seu envelhecimento. A taxa de fertilidade da Europa é de 1,6 filho por mulher, o que significa que cada geração será 20% menor que a anterior.

Outro motivo é a crescente concentração do mercado. Empresas estabelecidas têm uma quantidade cada vez maior de poder que impede que novas empresas entrem no mercado. Da mesma forma, a nova concorrência é reprimida pela proliferação das chamadas “empresas zumbis”. São empresas com mais de dez anos, com baixos níveis de produtividade e frequentemente mantidas em atividade por financiamento subsidiado. Pode haver mais de 100.000 empresas zumbis somente no Reino Unido.

Esses motivos provavelmente estão interligados. O baixo crescimento populacional se traduz em níveis mais baixos de demanda, o que incentiva as empresas existentes a lucrar o máximo possível com os mercados que já têm. Isso significa que eles sufocam a entrada de novos concorrentes e lucram mais pagando menos aos funcionários. O número crescente de fusões e aquisições, bem como o declínio das ofertas públicas iniciais de ações, com empresas jovens preferindo ser compradas por grandes companhias, também reflete isso.

Com base na natureza do problema, as soluções para esse declínio no empreendedorismo são simples: quebrar monopólios, melhorar a concorrência, permitir que mercados funcionem melhor e facilitar a difusão do conhecimento. Além disso, e de maneira vital, será necessário aumentar a demanda geral. Isso significa mais investimento por parte dos governos em serviços públicos e infraestrutura, reduzindo altos níveis de desigualdade e melhorando o poder de barganha dos sindicatos.

O argumento em favor dessas políticas é esmagador. Mas, infelizmente, pode não ser tão simples assim. Em um artigo recente, afirmei que o fato de o declínio do empreendedorismo estar limitado a economias ricas e complexas sugere que esse pode ser um preço que pagamos pela complexidade.

Como enfatizou Geoffrey West, a mesma curva de crescimento que caracteriza organismos vivos também se aplica ao crescimento de cidades, economias e empresas. Depois de crescer além de um certo patamar, o tamanho e a complexidade se estabilizam e os níveis de crescimento diminuem. Portanto, torna-se mais desafiador criar e usar novos conhecimentos de valor quando você atinge um determinado tamanho. E, quanto mais complexo é um processo de produção, mais chance ele tem de dar errado.

Mas quão preocupados deveríamos realmente estar? Alguns pesquisadores questionam se o declínio do empreendedorismo é necessariamente indesejável. Eles apontam que o declínio tem sido acompanhado por mais emprego, mais estabilidade no trabalho e melhor correspondência em empregos (quando as pessoas encontram empregos que melhor se encaixam em suas preferências e talentos). Também pode refletir o fato de que as empresas mais produtivas, que também são as maiores, estão recebendo a maior parte dos recursos, o que é bom para a economia.

Se esse é realmente o caso, a desvantagem então pode ser que economias modernas complexas e ossificadas se tornarão gradualmente menos flexíveis, menos adaptáveis ​​às mudanças externas – e, portanto, mais vulneráveis. Portanto, a sobrevivência envolve encontrar maneiras de lidar com a vulnerabilidade sistêmica na sociedade.

Wim Naudé é bolsista do Instituto de Pesquisa Econômica e Social de Maastricht sobre Inovação e Tecnologia (UNU-MERIT), da Universidade das Nações Unidas

 

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