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Os dilemas morais de escalar o Monte Everest

Ainda que você tenha sorte suficiente para chegar ao topo sem passar por um escalador precisando de ajuda, estará optando por seu objetivo pessoal a salvar uma vida

 

PRINCETON- Em 1953, quando Edmund Hillary e Tenzing Norgay viraram as primeiras pessoas a alcançar o cume do Monte Everest, eu tinha sete anos. Por um tempo, fiquei imerso nas histórias da escalada épica. Parecia uma conquista para toda a humanidade, como alcançar o Polo Sul. Haveria ainda quaisquer fronteiras remanescentes, eu me perguntava, quando eu crescesse?

Uma foto do cume sul do Everest trouxe essas memórias de volta. Mas que Everest diferente é esse! O esplêndido isolamento do topo do mundo tinha desaparecido. Em vez disso, havia uma longa linha de alpinistas esperando sua vez para ficar em pé brevemente no cume.

Não é difícil ver por que. Conforme a empresa de expedições Seven Summit Treks divulga: "Se você quer ter a experiência de se sentir no ponto mais alto no planeta e tem uma grande retaguarda econômica para recompensar sua alta idade e seu medo de riscos, você pode se inscrever para o VVIP Mount Everest Expedition Service". Você precisa da “grande retaguarda econômica” porque vai te custar US$130.000. Existem modos menos caros de escalar o Everest, mas todos eles começam com a taxa de US$11.000 que o governo Nepalês cobra pela permissão.

Não deveríamos ter objeções a um governo de um país de baixa renda que procure receitas de ricos alpinistas estrangeiros. Mas mesmo com o melhor suporte que o dinheiro possa comprar, no ar fino acima de 8.000 metros, pessoas morrem — 12 em 2019. Existem pelo menos 200 corpos ainda na montanha, alguns em fendas no gelo, outros enterrados por avalanches. E ainda outros descritos como “figuras familiares” na rota ao cume do Everest".

Antes assumia-se que, se um alpinista estivesse em perigo, outros iriam ajudar, mesmo que isso significasse abandonar seus próprios planos. Não mais. Em 2006, foi reportado que David Sharp, que tinha escolhido escalar o monte Everest sem suporte de sherpas, congelou lentamente até morrer enquanto 40 alpinistas passaram por ele em seu caminho ao cume. Edmund Hillary achou isso “horripilante”. Reportagens posteriores sugeriram que a maioria dos 40 não notaram Sharp, ou não estavam conscientes de que ele precisava de ajuda. Mas alguns alpinistas, como o australiano Brad Hoen, foram consideravelmente transparentes ao dizer que estavam na montanha somente para chegar ao topo, e não parariam para ajudar ninguém até que atingissem seu objetivo.

Usei o exemplo de resgatar uma criança se afogando em um lago raso para explorar as questões sobre nossa obrigação de salvar a vida de estranhos. Quando pergunto aos meus alunos se eles pulariam em um lago para salvar uma criança se afogando, mesmo que ao fazer isso destruiriam seus sapatos favoritos e mais caros, eles me dizem que você não pode comparar a vida de uma criança com um par de sapatos, então é claro que eles iriam salvar a criança. E se o único modo de salvar uma criança de ser atingida por um trem descontrolado e morrer fosse desviá-lo para um lado em que destruiria seu bem mais precioso, um Bugatti vintage, no qual você colocou a maior parte da sua poupança? Não importa, a maioria ainda diz, você tem que salvar a criança.

Se esse é o caso, então por que escalar o Everest permite que alguém deixe de salvar a vida de um colega alpinista? É porque, como diz Horn ao defender sua atitude, “todo mundo conhece o risco"? Isso pode ser verdade, mas como Immanuel Kant argumentou, nossa obrigação de ajudar estranhos é baseada em nosso próprio desejo de ser ajudado quando necessário. Não podemos querer, portanto, como uma lei universal, que pessoas passem por estranhos em necessidade. Horn teria que responder que, se ele estivesse precisando ser salvo, outros alpinistas teriam justificativa em deixá-lo morrer enquanto se dirigiam ao cume.

De qualquer maneira, mesmo se você tem sorte suficiente e chega ao topo do Everest sem passar por um alpinista precisando de ajuda, você ainda está escolhendo chegar ao cume em vez de salvar uma vida. Isto porque o custo da subida seria suficiente para salvar a vida de várias pessoas, se doado a uma instituição de caridade eficaz.

Eu gosto de fazer caminhadas e de estar em lugares selvagens. Gosto de caminhadas que me levam a um cume, especialmente um com vista. Então posso entender por que Hillary quis escalar o Monte Everest. Mas tenho dificuldade em entender por que alguém veria isso com um objetivo que vale a pena hoje. Não requer grande habilidade de montanhismo, e está muito longe de ser uma experiência selvagem. Arnold Coster, um montanhista Holandês que organiza escaladas no Everest, diz que muitos de seus clientes são mais caçadores de troféus do que montanhistas. Tim Macartney-Snape, que escalou Everest em 1984, diz que "alpinistas de hoje em dia são mais interessados em falar sobre isso em festas do que em realmente estar nas montanhas. É uma coisa que aumenta o status".

Se isto estiver correto, pode-se apenas considerar uma pena que o desejo de status nos leve a estabelecer metas que envolvam atividades sem sentido ou até prejudiciais, em vez de objetivos que têm valor independentemente do status, como ajudar a quem precisa e tornar o mundo um lugar melhor.

Peter Singer é professor de Bioética na Universidade de Princeton, professor na School of Historical and Philosophical Studies da Universidade de Melbourne e fundador da organização sem fins lucrativos The Life You Can Save.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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