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O excesso de opções. E o peso de se fazer uma escolha

 

Abra o Netflix e você será presenteado com um menu de aproximadamente 6.000 títulos. Crie uma conta no OKCupid e você terá a chance de se conectar com 5 milhões de usuários ativos. Procure uma escova de dentes nova na Amazon e você será bombardeado com mais de 20 mil opções, de manual a mecânica, de pacotes de 3 a pacotes de 12.

Como alguém que é comicamente indeciso  — e que estuda o estresse  — penso frequentemente sobre a pressão de tomar decisões quando tantas opções à disposição.

O que sentimos no momento em que tomamos uma decisão a partir de uma abundância de pessoas? Isso nos faz desligar ou nos energiza? Nos faz sentir mais ou menos confiantes? Pode ter um impacto duradouro na nossa saúde e bem-estar?

Queremos escolhas – mas não o que escolhemos

Liberdade de escolha é um pilar da cultura ocidental. Mas há também a questão de que temos muitas escolhas à nossa frente.

Pesquisadores como Sheena Iyengar e Barry Schwartz foram pioneiros nessa área de estudo, descobrindo que ser inundado de opções pode criar uma experiência negativa chamada “sobrecarga de escolhas” ou “O paradoxo da escolha”.

As pessoas tendem a querer o maior número de opções possível. Seja ao comprar um carro ou uma refeição, elas gravitam em direção a empresas que oferecem mais escolhas pois acreditam que uma seleção maior maximizará as chances de encontrar a melhor opção.

Mas quando se trata de realmente tomar uma decisão entre todas essas opções, as pessoas podem ficar paralisadas  — e evitar tomar decisões de forma geral  

Ainda pior, quando elas finalmente se decidem, ficam mais insatisfeitas e arrependidas sobre qualquer escolha que fazem.

A sobrecarga de escolhas

Para mim, isso explica muito do mal-estar cotidiano que atormenta a sociedade moderna.

Explica o puro entusiasmo que os compradores da primeira casa sentem quando começam a sua busca, seguido pelo medo de que não escolherão o bairro ideal, a proximidade escolar, ou o estilo arquitetônico.

Explica a curiosidade que alguém sociável de vinte e tantos anos sente antes de checar a inauguração de um bar novo no centro da cidade, seguido pela preocupação de que não atenderá às suas expectativas.

Embora saibamos que a sobrecarga de escolhas eventualmente leva ao arrependimento e à insatisfação, não está claro o que as pessoas sentem quando estão no meio do processo de tomar essas decisões.

Meus colegas e eu pensamos: As pessoas realmente se sentem confiantes sobre suas habilidades de tomar uma boa decisão? E, se sim, quando essa experiência vai de boa a ruim  — de cheia de potencial para inundada de angústia e dúvida?

Em nossos estudos, buscamos mergulhar na experiências internas dos participantes conforme eles tomavam decisões, monitorando suas respostas cardiovasculares.

Quando as pessoas se importam mais com uma decisão, seus corações batem mais rápido e mais forte. Outras medidas, como quanto sangue o coração está bombeando e a dilatação dos vasos, podem indicar os níveis de confiança.

Participantes dos nossos estudos analisaram perfis de namoro virtual. Pedimos a eles que escolhessem um perfil dentre muitas opções ou dentre apenas algumas opções. Em outras condições do estudo, pedimos que apenas classificassem os perfis em uma escala de um a dez.

Descobrimos que quando os participantes escolhiam dentre muitas opções, eles se sentiam mais envolvidos na decisão: seus corações batiam mais forte e mais rápido. Mas suas artérias também se constringiam  — um sinal de que se sentiam menos confiantes sobre sua decisão.

Em outras palavras, quando deparamos com mais opções, tomar a decisão “certa” começa a parecer mais crucial e, ao mesmo tempo, mais inatingível.

O sistema cardiovascular responde da mesma forma quando fazemos uma prova importante sentindo que estamos perdidamente despreparados, ou quando estamos a caminho de uma entrevista para o emprego dos sonhos sem ter as qualificações necessárias.

Notavelmente, acredita-se que mesmo exposições pequenas a esse tipo de atividade cardíaca têm consequências de longo prazo à saúde se acontecem com frequência, estando conectadas com alguns tipos de doença cardíaca e hipertensão.

Decidindo como decidir

Sentir grandes expectativas sobre uma decisão  — mas não se sentir particularmente confiante para tomar a decisão certa  — pode contribuir para o medo enraizado de escolher de forma errada.

Acredito que esse medo pode ser equilibrado ao colocar a decisão em perspectiva. Pode ajudar lembrar que muitas das decisões cotidianas que você toma  — o que comer no almoço, qual sabor complementa melhor o macchiato de caramelo  — não serão importantes num esquema maior de coisas. Mesmo escolhas aparentemente mais importantes, como aceitar um emprego novo, podem ser mudadas.

Ao pensar dessa forma, as consequências associadas a tomar a decisão “errada” se tornam menos assustadoras.

Também pode ser útil entrar nessas situações com algumas diretrizes claras do que você quer  — ou não quer de jeito nenhum  — da gama de opções. Isso pode pré-selecionar as escolhas possíveis, além de te deixar mais confiante sobre suas habilidades de tomada de decisão.

Então da próxima vez que você passar horas navegando pela Netflix incapaz de parar em um título para assistir  — preocupado que a pessoa do OkCupid que você tem pensado há dias em chamar para sair não vá gostar  — lembre que tirar o peso das nossas escolhas pode nos ajudar a navegar em um mundo sobrecarregado por elas.

Thomas Saltsman é diretor do laboratório de Psicofisiologia Social da University at Buffalo, de Nova York

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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