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A política do medo: como ela nos induz ao tribalismo

O medo é um sentimento humano antigo e poderoso. Neste artigo, o psiquiatra e neurocientista Arash Javanbakht explica como ele é explorado por alguns políticos, como o presidente norte-americano Donald Trump

As pessoas sempre usaram o medo para intimidar subordinados e inimigos, pastoreando a tribo por seus líderes. Recentemente, parece que o presidente Donald Trump fez uso do medo ao sugerir em um tuíte que quatro mulheres congressistas representantes de minorias deveriam voltar para os lugares de onde vieram.

Há um histórico de longa data para usar o medo dos “outros”, transformando humanos em armas cruéis e ilógicas, a serviço de uma ideologia. O medo é uma ferramenta muito poderosa que pode distorcer a lógica humana e mudar comportamentos.

O medo é, possivelmente, tão velho quanto a vida. Está incrustado nos seres vivos que sobreviveram à extinção por bilhões de anos de evolução. Suas raízes estão no fundo do nosso ser psicológico e biológico, e é um dos nossos sentimentos mais íntimos. Perigo e guerra são tão velhos quanto a história humana, assim como política e religião.

Sendo psiquiatra e neurocientista, especializado em medo e trauma, tenho alguns pensamentos baseados em evidências sobre como o medo é usado de forma abusiva na política.

Nós aprendemos o medo de companheiros de tribo

Como outros animais, nós humanos podemos aprender o medo por experiência, como ser atacado por um predador. Também o aprendemos por observação, como ao testemunhar um predador atacando outro ser humano. E aprendemos por instrução, como ao ouvir que existe um predador por perto.

Aprender dos nossos coespecíficos — membros da mesma espécie — é uma vantagem evolucionária que nos impede de repetir experiências perigosas de outros humanos. Tendemos à confiar em nossos companheiros de tribo e nas autoridades, especialmente no que diz respeito ao perigo. É adaptativo: pais e sábios anciões nos disseram para não comer uma planta em especial, ou não ir a certa área da floresta, ou nos machucaremos. Ao confiar neles, não morremos como nosso tataravô, que morreu ao comer aquela planta. Dessa forma, acumulamos conhecimento.

O tribalismo é uma parte inerente à história humana. Sempre houve competição entre grupos humanos de formas diferentes, desde nacionalismo brutal em tempos de guerra até lealdade extrema a um time de futebol. Evidências da neurociência cultural mostram que nossos cérebros até respondem de forma diferente, em nível inconsciente, à visão de rostos de outras raças ou culturas.

Em um nível tribal, as pessoas são mais emocionais e, consequentemente, menos lógicas: fãs dos dois times rezam para que seu time ganhe, esperando que Deus tome partido em um jogo. Por outro lado, regressamos ao tribalismo quando temos medo. Isso é uma vantagem evolutiva que levaria coesão ao grupo e nos ajudaria a combater outras tribos para sobreviver.

O tribalismo é a brecha biológica com a qual muitos políticos têm contado há muito tempo: explorando nossos medos e instintos tribais. Alguns exemplos são o nazismo, a Ku Klux Klan, guerras religiosas e a Idade das Trevas. O padrão típico é dar a outros humanos rótulos diferentes dos nossos, e dizer que eles vão nos machucar ou danificar nossos recursos, e transformar o outro grupo em um conceito. Não precisa ser necessariamente por raça ou nacionalidade, que são usadas com frequência. Pode ser qualquer diferença, real ou imaginária: liberais, conservadores, pessoas do Oriente Médio, homens, brancos, a direita, a esquerda, muçulmanos, judeus, cristãos, siques. A lista continua.

Construindo fronteiras entre “nós” e “eles”, alguns políticos se saíram bem ao criar grupos virtuais de pessoas que não se comunicam e se odeiam sem ao menos se conhecerem. Esse é o animal humano em ação!

O medo é desinformado

Um soldado me disse uma vez: “É muito mais fácil matar alguém que você nunca conheceu, a distância. Quando você olha na mira, você só vê um ponto vermelho, não um ser humano”. Quanto menos você sabe sobre ele, mais fácil é temê-lo e odiá-lo.

Essa tendência e habilidade humana para a destruição do que é desconhecido é um prato cheio para políticos que querem explorar o medo: se você tivesse crescido só entre pessoas que se parecem com você, ouvindo apenas um canal midiático, e escutasse daquele tio mais velho que todos que são ou pensam diferente são perigosos, o medo e o ódio intrínsecos direcionados a essas pessoas jamais vistas seria um resultado compreensível (embora falho).

Para nos ganhar, políticos, por vezes com a ajuda da mídia, fazem o seu melhor para nos manter separados, e os “outros”, reais ou imaginários, como apenas um conceito. Porque se passamos tempo com os outros, falamos com eles e comemos com eles, nós aprendemos que eles são exatamente como nós: humanos com todas as nossas forças e fraquezas. Alguns são fortes, outros são fracos; alguns são inteligentes, outros são burros; alguns são legais, outros nem tanto.

O medo é ilógico e frequentemente burro

É comum que meus pacientes com fobias comecem com “sei que é estúpido, mas tenho medo de aranhas.” Ou podem ser cachorros, gatos, ou alguma outra coisa. E eu sempre respondo: “não é estúpido, é ilógico.” Nós humanos temos diferentes funções no cérebro, e o medo frequentemente ultrapassa a lógica. Existem várias razões. Uma é que a lógica é devagar, e o medo é rápido. Em situações de perigo, precisamos ser rápidos: primeiro corremos ou matamos, depois pensamos.

Políticos e a mídia costumam usar o medo para contornar nossa lógica. Eu sempre digo que a mídia norte-americana é pornógrafa de desastres — eles trabalham demais em engatilhar as emoções das suas audiências. São como reality shows de política, surpreendendo muitos de fora dos Estados Unidos.

Quando uma pessoa mata algumas outras em uma cidade de milhões, o que, claro, é uma tragédia, a cobertura de grandes emissoras pode levar à percepção de que a cidade inteira está em alerta e insegura. Se um imigrante sem documentação mata um cidadão americano, alguns políticos usam o medo, com a esperança de que poucos vão perguntar: “isso é terrível, mas quantas pessoas neste país foram assassinadas por cidadãos americanos só hoje?” ou “eu sei que vários homicídios acontecem toda semana nesta cidade, mas por que estou tão assustado agora que esse está sendo mostrado na mídia?”

Não fazemos essas perguntas, porque o medo supera a lógica.

O medo pode se tornar violento

Existe uma razão pela qual a resposta ao medo é chamada de “lutar ou fugir”. Essa reação tem nos ajudado a sobreviver a predadores e outras tribos que já quiseram nos matar. Ainda assim, é outra brecha na nossa biologia sermos manipulados para direcionar nossas agressões aos “outros”, seja na forma de vandalizar seus templos ou ameaçando-os nas redes sociais.

Quando as ideologias conseguem atingir nosso circuito de medo, frequentemente regredimos a animais humanos ilógicos, tribais e agressivos, nos transformando em armas — armas que políticos usam para seus próprios interesses.

Arash Javanbakht é professor assistente de psiquiatria da Wayne State University, em Detroit, Michigan.

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

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