Homens enxergam a bagunça – só não são julgados por ela

Mulheres gastam três vezes mais tempo com limpeza do que os homens. Neste artigo, três professores de sociologia discutem a desigualdade na distribuição das tarefas domésticas

Em um dia comum, homens gastam com a limpeza um terço do tempo usado por mulheres.

Isso faz das mulheres referenciais da limpeza, enquanto homens são geneticamente incapazes de enxergar a bagunça ao seu redor?

Esse mito é uma explicação comum para o fato de homens não cumprirem tantas tarefas domésticas quanto as mulheres. Homens entram em um cômodo e aparentemente não conseguem ver os carneirinhos de poeira acumulada no chão ou a pilha de roupa suja no sofá.

Isso isenta homens da culpa por não fazerem sua parte das tarefas domésticas.

Mas, em um estudo recente, mostramos que homens não são cegos para a sujeira — eles podem enxergar a bagunça tão bem quanto as mulheres. Eles simplesmente são penalizados menos severamente por não manterem seus espaços limpos e organizados.

Desigualdade nas tarefas

Apesar das grandes conquistas nas áreas de educação e emprego, mulheres ainda assumem uma parte mais significativa das tarefas domésticas do que os homens.

Hoje as mulheres passam, em média, cerca de 1 hora e 20 minutos por dia cozinhando, limpando e lavando roupas. Cerca de um terço desse tempo é passado limpando. Homens, por outro lado, passam cerca de 30 minutos realizando essas tarefas — e apenas 10 minutos limpando e arrumando.

Essa desigualdade nas tarefas domésticas é evidente ao longo do tempo, entre profissões, e mesmo quando mulheres trabalham mais tempo e ganham mais dinheiro. Mesmo na Suécia, onde políticas governamentais são fortemente voltadas à promoção da igualdade de gênero, mulheres realizam mais tarefas domésticas. As suecas fazem o dobro do trabalho doméstico do que os homens, mesmo sendo mais propensas a trabalhar em período integral do que mulheres em outros países.

Naturalmente, quanto mais tempo gasto em tarefas, uma mulher tem menos tempo para colocar em outras atividades, como sono, trabalho e lazer.

A mesma bagunça

No nosso estudo, publicado recentemente no periódico Sociological Methods and Research, pedimos a 327 homens e 295 mulheres de idades e panoramas variados que avaliassem uma foto de uma área pequena de uma sala de estar e uma cozinha.

Por distribuição aleatória, alguns participantes avaliaram uma foto do espaço desordenado — sujo, com pratos na pia, roupas jogadas — enquanto outros examinaram uma versão mais organizada do mesmo espaço. Todos os participantes olharam para a foto que lhes foi dada e então avaliaram quão bagunçado achavam que estava e quão urgentemente precisava de limpeza.

A primeira coisa que queríamos saber era se homens e mulheres avaliariam o quarto de formas diferentes. Ao contrário do esperado, homens e mulheres enxergaram a mesma bagunça: eles avaliaram o cômodo limpo como limpo e o cômodo bagunçado como bagunçado.

Expectativas diferentes

Então, se a cegueira para a sujeira não é a culpada, por que mulheres fazem mais tarefas domésticas?

Um argumento é que as expectativas sociais são diferentes para homens e mulheres. Elas podem ser julgadas mais severamente por não terem uma casa impecável, e a atenção de mulheres a essas expectativas pode motivá-las a fazer mais.

Nós testamos essa ideia ao dizer aos participantes aleatoriamente que a foto que estavam olhando retratava o espaço de “John” ou de “Jennifer”. Então pedimos que avaliassem o caráter de Jeniffer e John — quão responsável, trabalhador, negligente, atencioso, e amável eles eram — com base no nível de limpeza do seu lar.

Também pedimos aos participantes que avaliassem em que nível eles poderiam ser julgados negativamente por visitantes inesperados — família, chefes e amigos — e com quanta responsabilidade pela limpeza eles acreditavam que Jeniffer ou John arcariam se trabalhassem em período integral e vivessem sozinhos, trabalhassem em período integral e fossem casados e tivessem filhos, ou se fossem casados, com filhos e ficassem em casa.

É aí que as coisas ficaram interessantes. Os participantes avaliaram as fotos de forma diferente, dependendo se ouviam que uma mulher ou um homem viviam no espaço. Notavelmente, os entrevistados colocaram padrões de limpeza mais altos para Jeniffer do que para John. Quando foram informados que o cômodo pertencia a Jeniffer, os participantes — independente do seu gênero — o julgaram menos limpo e mais propenso a causar reações negativas de convidados do que quando o exato mesmo cômodo pertencia a John.

Todos já ouvimos que ‘homens são preguiçosos’

Ainda assim, concluímos que tanto homens quanto mulheres sofrem grandes penalidades por terem uma casa desorganizada.

Comparados aos seus pares mais organizados, ambos Jeniffer e John receberam avaliações de caráter substancialmente mais negativas e esperava-se que receberiam mais julgamentos negativos de visitantes.

Curiosamente, o caráter de John foi julgado mais negativamente do que o de Jeniffer por ter uma casa bagunçada, refletindo o estereótipo comum de que homens são preguiçosos. No entanto, os participantes não acreditaram que John estaria mais propenso do que Jeniffer a sofrer com julgamentos negativos de visitantes, o que sugere que o estereótipo de que “homens são preguiçosos” não é uma desvantagem social significativa para eles.

Por fim, as pessoas eram mais propensas a acreditar que Jeniffer seria a principal responsável pela limpeza, e essa diferença era especialmente grande no cenário hipotético em que ela é uma mãe trabalhando em período integral morando com um parceiro.

O fato de que pessoas atribuem maior responsabilidade pelo trabalho doméstico para mulheres do que para homens, mesmo independentemente da sua situação de emprego, sugere que mulheres são mais penalizadas pela bagunça do que os homens.

Não julgar

As pessoas estabelecem padrões de limpeza mais altos para mulheres do que para homens e as julgam mais responsáveis por ela.

Algumas mulheres podem internalizar esses padrões. Mas para muitas, é improvável que o problema seja um amor pela limpeza, mas sim um medo de como a bagunça será percebida — e uma possível razão por que muitas mulheres limpam suas casas freneticamente antes de visitantes chegarem.

A boa notícia é que, com esforços coletivos suficientes, expectativas sociais antiquadas podem ser mudadas. Podemos começar pensando duas vezes antes de julgar o estado da casa de alguém, especialmente da nossa.

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