Tempo para cozinhar é um luxo que muitas famílias não têm

Manter hábitos alimentares saudáveis é um desafio. Neste texto, três professoras de sociologia explicam por que refeições de qualidade dependem de mais do que só ter vontade de comer bem

Os americanos esqueceram como cozinhar? Muitos lamentam o fato de que americanos passam menos tempo cozinhando do que as gerações anteriores. Enquanto mulheres passavam aproximadamente 2 horas na cozinha em 1965, elas passaram um pouco menos do que 1 hora preparando refeições em 2016. Homens estão cozinhando mais do que antes, mas ainda cozinham apenas 20 minutos por dia.

Em um TED Talk de 2014, que tem mais de 8 milhões de visualizações, o chef britânico e celebridade gastronômica Jamie Oliver anda pelo palco, falando para a plateia sobre a quantidade de comida processada consumida pelas pessoas nos Estados Unidos. Sua mensagem: americanos “precisam voltar a passar adiante habilidades culinárias”.

Oliver e outros que trabalham por uma reforma nos hábitos alimentares acreditam que o tempo para cozinhar existe, basta que as pessoas definam direito suas prioridades. As famílias poderiam ser mais eficientes se cozinhassem em grandes quantidades aos fins de semana, ou se investissem em utensílios que otimizam o tempo, como a Instant Pot [panela de pressão elétrica que diminui o tempo de cozimento dos alimentos].

Mas falar para as famílias gerenciarem melhor o seu tempo provavelmente não vai resolver os problemas gastronômicos enfrentados por famílias americanas.

Como cientistas sociais que estudam a alimentação, a família e a saúde, nós embarcamos em um estudo de cinco anos para descobrir o que é preciso para colocar uma refeição na mesa. Nós entrevistamos um grupo diversificado de 150 mães de crianças pequenas e passamos mais de 250 horas observando famílias enquanto elas faziam compras, preparavam refeições e comiam.

Os resultados, publicados no nosso livro mais recente “Pressure Cooker: Why Home Cooking Won’t Solve Our Problems and What We Can Do About It,” (Panela de pressão: Por que comida caseira não vai resolver nossos problemas e o que podemos fazer a respeito, em tradução livre) revela que as mães no nosso estudo se importavam muito sobre a alimentação e a saúde de seus filhos, e passavam boa parte do tempo cozinhando. Mas, mesmo assim, muitas sentiam que eram insuficientes. Suas experiências ilustram por que insistir que os pais “arrumem tempo para cozinhar” subestima a importância de jornadas de trabalho imprevisíveis, conflitos de horários e dos gastos com opções que economizam tempo.

Jornadas de trabalho imprevisíveis

A vida profissional de americanos é cada vez mais imprevisível e caótica. Um estudo de 2015 concluiu que 17% das pessoas têm trabalhos com horários irregulares, e maior parte desses trabalhadores é de baixa renda. Ter pouco controle sobre o tempo é algo que torna mais difícil para famílias o ato de planejar suas refeições com antecedência ou mesmo saber quem estará presente para o jantar. Horários de trabalho irregulares também estão associados com risco aumentado de problemas cardíacos. Quando especialistas em alimentação e chefs-celebridade falam sobre arrumar tempo para cozinhar o jantar, eles raramente levam em conta famílias que não têm o controle de sua rotina.

Esse foi o caso de Ashley a Marquan Taylor (todos os nomes citados aqui são pseudônimos), uma família de classe trabalhadora que aparece em nosso estudo. O casal trabalhava para a mesma rede de fast food, mas em áreas diferentes, com 45 minutos de diferença. Eles pegaram o maior número de turnos que conseguiram, com a expectativa de consertar seu carro e ficar em dia com as contas.

Ashley se desdobrou para colocar as refeições na mesa de casa. Ela mantinha um fichário meticuloso com cupons para economizar o dinheiro da família no supermercado. No entanto, sua jornada de trabalho imprevisível tornava difícil encontrar tempo para cozinhar. “Eu disse para o gerente me colocar num horário fixo” ela explicou, em tom exasperada. “Eles me perguntavam todos os dias se eu podia ficar até mais tarde”. Boa parte do dia de Ashley é definida por decisões de outras pessoas.

O tempo dos pais

A ideia de desacelerar e arrumar tempo para cuidar da alimentação parece ideal. Mas, na realidade, as famílias de hoje em dia têm muito com o que se preocupar. Pesquisas mostram que pais que trabalham relatam se sentir ansiosos. Mães, em particular, se sentem sobrecarregadas. Mulheres ainda fazem a maior parte da comida e das tarefas domésticas, ainda que 76% das mães com crianças entre 6 e 17 anos trabalhem fora de casa.

Mulheres também passam por pressão cultural para estarem muito envolvidas nas vidas dos seus filhos. Greely Janson, uma mãe de classe média, sentiu essa pressão de forma aguda. “Quando eu tenho tempo, gosto de cozinhar. Mas quando esse tempo é espremido no final de uma dia estressante, cozinhar é horrível”, ela disse. Greely se sentia exausta ao fim do dia. Ela queria cozinhar e ajudar sua filha a terminar os cartões de dia dos namorados para a escola. Greely tentou cozinhar aos lotes aos fins de semana para economizar tempo durante a semana. Funcionou por um tempo. Mas aí a vida ficou ainda mais frenética. Conforme as horas de trabalho de Greely e seu marido aumentavam, e eles continuavam levando e buscando a filha das atividades extracurriculares, o sistema de economia e gestão do tempo de Greely colapsou.

Apesar dos seus esforços, Greely não conseguia gerenciar todas as demandas concorrentes – como preparar refeições saudáveis e fazer tarefas da escola com a filha – tão bem quanto gostaria. E ela não está sozinha. Embora pais passem hoje mais tempo com seus filhos hoje do que os pais em 1965, muitos ainda sentem que não é o suficiente. Quando figuras famosas que buscam reformar os hábitos alimentares dizem aos pais que eles não estão arrumando tempo para preparar refeições frescas e saudáveis, eles deixam de reconhecer as outras demandas que os pais estão gerenciando.

Atalhos caros

O mercado oferece soluções para famílias que querem cozinhar do zero com mais eficiência. Kits de entrega de refeições como HelloFresh ou BlueApron tiram o trabalho de planejar uma refeição. E supermercados podem entregar as compras na sua porta, por um preço. Alguns defensores da alimentação saudável afirmam que tecnologias para a cozinha tornaram o preparo de refeições mais fácil do que nunca. O problema é que muitas família não podem arcar com os custos de um processador de alimentos, uma Instant Pot, ou um serviço de entrega de refeições. Outras opções como vegetais pré-cortados também economizam tempo, mas custam mais do que vegetais inteiros. As soluções do mercado só existem para quem pode pagar por elas. Mas, para muitas famílias pobres e da classe trabalhadora, essas opções estão fora de alcance.

Hora de parar de culpar os pais

Americanos estão cada vez mais precisando de tempo e sofrem para encontrar um equilíbrio. A sociedade não pode continuar pedindo aos pais – e especialmente às mães – para fazer mais com o pouco tempo que elas têm. As famílias, como as presentes no nosso estudo, já estão priorizando a alimentação e saúde das suas crianças. Mas muitas simplesmente não têm tanto tempo ou controle sobre o seu tempo quanto os reformadores alimentares imaginam.

Americanos precisam passar menos tempo culpando os pais por não usarem bem o seu tempo, e mais tempo defendendo melhores condições de trabalho e mais apoio às famílias. Muitas das famílias no nosso estudo gostam da ideia de desacelerar e comer juntos. Mas para que isso aconteça, elas precisam de jornadas de trabalho estáveis e um salário mínimo que pague as contas.

Espaços de trabalho exigentes e a expectativa cultural sobre a parentalidade colocam um enorme peso sobre os pais de hoje em dia. Investir em famílias e na sua saúde requer arranjar tempo para apoiá-las.

Joslyn Brenton é professora assistente de Sociologia da faculdade de Ithaca, em Nova Iorque

Sarah Bowen é professora associada de Sociologia na Universidade da Carolina do Norte

Sinikka Elliott é professora assistente de Sociologia da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá

A seção `Externo` traz uma seleção de artigos e ensaios cedidos por veículos nacionais e internacionais. Textos publicados originalmente em outros idiomas têm tradução do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.