As lições econômicas que podem ser tiradas do Monte Everest

O problema de superlotação do Everest não é tão diferente de muitos outros desafios econômicos e sociais que os políticos enfrentam. É o que defende neste texto Jim O'Neill, ex-secretário do Tesouro britânico

 

Como muitos outros, fiquei chocado com as imagens recentes mostrando o tamanho da fila que se formou em maio para escalar o Monte Everest, o pico mais alto do mundo, do lado nepalês. A ideia de que os atrasos causados ​​pela superlotação podem ser parcialmente responsáveis ​​por algumas das 11 mortes registradas na montanha durante a temporada de escalada deste ano é algo horrível de se pensar.

Há cerca de uma década, minha esposa e eu fizemos o caminho de Lukla, no Nepal, em direção ao acampamento base do Everest, então tenho uma certa atração por essas aventuras. Mas, junto com a empolgação, lembro de me sentir decepcionado com o grande número de pessoas que faziam a caminhada. A excitação inicial se foi e vimos pouco sentido em continuar o esforço apenas para esperar na fila. Invertemos o percurso na última parada antes do acampamento base. (Para qualquer aspirante a caminhante, eu recomendaria a rota pouco valorizada até os Lagos Gokyo, no Nepal, que era muito menos movimentada e tinha vistas igualmente esplêndidas.)

Além de condições específicas, como a estreiteza da trilha, o problema de superlotação do Everest não é tão diferente de muitos outros desafios econômicos e sociais que os políticos enfrentam, isto é, um desequilíbrio entre oferta e demanda e, possivelmente, uma regulamentação ruim. Um exemplo, especialmente preocupante para mim, é o do mercado de antibióticos, que está falhando porque o desenvolvimento de novos medicamentos não está acompanhando a demanda. Mas, mais diretamente relacionado ao Everest, é o desafio mais amplo de gerenciar pontos turísticos. No mundo todo, mais e mais pessoas se juntaram à classe média e elas (compreensivelmente) querem experimentar o melhor que o planeta tem a oferecer.

Quando se trata do Everest, parte do problema é a oferta fixa. Existe apenas um certo número de caminhos na montanha (embora alguns alpinistas ousados, sem dúvida, prefiram abrir os seus próprios), mas o número de grupos de turistas aumentou. Diante disso, o razoável é deixar o preço subir até que o equilíbrio entre oferta e demanda seja restaurado.

É claro que os políticos nepaleses, ávidos pelo dinheiro do turismo, recusariam essa sugestão; eles provavelmente argumentariam que o visitante médio não deveria ser afastado de uma atração natural tão grandiosa. Mas, nesse caso, eles devem introduzir e impor padrões de segurança e regulatórios mais rígidos para as empresas que oferecem passeios pela montanha (o que também pressiona os preços para cima).

O mesmo problema de oferta fixa se aplica a todos os destinos turísticos. Como observei anteriormente, a Suíça teria que produzir mais montanhas bonitas para ter qualquer esperança de satisfazer a crescente demanda de turistas chineses que visitam os Alpes. O mesmo pode ser dito sobre Petra, na Jordânia, ou qualquer outro destino maravilhoso. Em todos esses casos, a solução econômica racional é permitir que o preço suba, ou introduzir controles regulatórios mais rigorosos.

Quando se trata do mercado de antibióticos, muitos na indústria farmacêutica ofereceriam o mesmo remédio. Se o preço dos antibióticos (especialmente daqueles para o tratamento de infecções bacterianas “gram-negativas”) fosse consideravelmente maior, a demanda inadequadamente alta por tais remédios cairia, e as empresas teriam um incentivo para retomar o arriscado negócio de pesquisar, desenvolver, e obter aprovação para medicamentos urgentemente necessários.

Quando comparado ao dilema do Everest, esse argumento faz sentido. O problema é que medicamentos que salvam vidas não são a mesma coisa que aventuras e férias. Embora a imposição de um custo muito mais alto pudesse resolver o problema nas sociedades ricas, isso aumentaria o problema do acesso em vastas partes do mundo emergente. Em muitas partes da África, do subcontinente indiano, e em outros lugares, pagar preços mais altos não é uma opção. Para evitar o surgimento de bactérias com resistência antibiótica, que poderiam ameaçar o mundo inteiro, essas sociedades precisam ser capazes de prevenir e de lidar com doenças infecciosas de forma eficaz e responsável.

Depois de liderar a revisão independente do governo britânico sobre resistência antibiótica de 2014 a 2016, tenho continuamente pedido uma grande “recompensa de entrada no mercado” para incentivar os fabricantes de medicamentos a buscar o desenvolvimento de novos antibióticos. Mas essa medida por si só não será suficiente. Como mostra o problema do Everest, também precisamos de iniciativas políticas para limitar o uso inadequado, o que exigirá mais investimento em diagnósticos. Com as políticas certas em vigor, as empresas farmacêuticas poderiam cobrar preços mais altos pelos novos medicamentos necessários, mas eles só seriam administrados em casos considerados apropriados por meio de ferramentas melhores de diagnóstico.

Pensando bem, talvez as autoridades nepalesas devam introduzir uma técnica de diagnóstico nos pontos de entrada do Everest, para testar o nível de preparação dos aspirantes a escaladores. Isso não apenas deteria aqueles que não podem julgar por si mesmos; também salvaria vidas.

Jim O'Neill, ex-presidente do Goldman Sachs Asset Management e ex-ministro do Tesouro do Reino Unido, é presidente da Chatham House.

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