Por que devemos ter o direito de fazer e quebrar promessas

Muitas das resoluções e promessas que compõem nossas vidas são quebradas de forma premeditada, por diferentes razões. Este professor de filosofia discute o estranho paradoxo de fazer compromissos consigo mesmo.

O mais interessante sobre as resoluções não é que a gente as faça, mas sim os jeitos que a gente dá de descumpri-las. Se você for como eu, já quebrou e depois tentou esquecer as promessas esperançosas que abriram o ano. Comecei a enxergar o estranho paradoxo que é fazer compromissos comigo mesmo. Não sou o mesmo homem que eu era na véspera de Ano Novo, que prometeu fazer corridas, sem levar em conta as tempestades de neve, ou renunciar à minha cerveja diária, independentemente do desejo. Os filósofos têm uma palavra para esse tipo de situação: “acrasia”, do grego, para falta de comando ou fraqueza de vontade.

A acrasia é geralmente descrita como um tipo de “perda de controle” e, em alguns casos, é isso mesmo. Quebrar uma promessa pode ser tão repentino que parece que alguém realmente perdeu a cabeça. Perder o controle, no entanto, é algo muitas vezes mais medido e autoconsciente. Posso ver a transgressão da minha vontade vindo de longe: posso antever a chegada da acrasia e como vou cumprimentá-la na porta de uma escolha que sei que tenho que fazer. Nesse caso, é difícil dizer que perdi a cabeça. Sei exatamente o que estou fazendo, ou melhor, posso prever com alto grau de probabilidade o que farei em um momento particularmente decisivo no futuro. O filósofo britânico J. L. Austin descreve o desaparecimento lento e calculado de uma resolução de uma pessoa em “A Plea for Excuses” (1956): “Sou um grande apreciador de sorvete, e um bolo de sorvete é servido dividido em pedaços, cada um deles correspondendo a uma das pessoas na mesa: me sinto tentado a me servir dois pedaços e faço isso, sucumbindo assim à tentação e até mesmo provavelmente (mas por que necessariamente?) indo contra meus princípios. Mas eu perco o controle de mim mesmo? Eu corro, pego os pedaços do prato e os engulo, indiferente à consternação de meus colegas? Nada disso. Muitas vezes sucumbimos à tentação com calma e até com delicadeza.”

Resoluções geralmente perecem dessa maneira, por meio de assassinato premeditado. Quanto mais robusta a resolução, maior a clareza que tenho sobre como e quando eu poderia desistir. Quantas transgressões me são permitidas antes de violar totalmente minha convicção? Estritamente falando, a resposta é “exatamente uma”. Mas eu já vivi muitos anos novos e sei que isso não é exatamente verdade…

Nas palavras de Austin, nós tipicamente “enganamos” nossa acrasia. “Vou apenas compartilhar a cerveja com a minha esposa — só vou tomar meia cerveja — e depois apenas outra metade.” Ou um caso potencialmente mais destrutivo: “Vou trair minha parceira só uma vez. Não vai acontecer de novo. Isso não é adultério de verdade.” Muitas resoluções são feitas e refeitas e feitas novamente. Por fim, elas viram uma bagunça de tal forma que realmente não podem ser chamadas de resoluções, apenas princípios orientadores ou boas lembranças. Algumas das promessas mais bem cuidadas do mundo morreram destroçadas em 1.000 pedaços.

Muitos pensadores da tradição filosófica ocidental argumentaram que o sentido de ser um adulto responsável é se tornar o tipo de pessoa que é capaz de fazer promessas — para os outros, mas também para si mesmo. Tem algo a se prestar atenção aí. A sociedade civil funciona por meio de pactos e contratos que dependem da integridade de seus membros. Mais fundamentalmente, como argumenta a filósofa Christine Korsgaard, da Universidade de Harvard, a integridade — a capacidade de resistir às tentações e aos desejos irrefletidos da vida — é a pré-condição da individualidade moral. Ser uma pessoa é mais do que ser um amontoado de esforços díspares, é também manter o passado e o futuro juntos de uma forma coerente, por meio de promessas e intenções. Em “A genealogia da moral” (1887), Friedrich Nietzsche escreve: “Criar um animal que pode fazer promessas — não é essa a tarefa paradoxal que a natureza se impôs no caso do homem?”

Dado meu histórico com resoluções, suspeito que essa tarefa esteja, na melhor das hipóteses, incompleta. Nietzsche sabe bem disso. “Poder responder por si, e com orgulho”, escreve ele, “e também poder dizer sim a si mesmo — isso é, como já foi dito, um fruto maduro, mas também um fruto tardio: quanto tempo esse fruto tem que pender da árvore, azedo e amargo!”

E aqui chegamos ao cerne das resoluções fracassadas. A real questão não é o simples fato de manter ou quebrar uma promessa, mas sim os sentimentos particulares que cercam nossa tênue decisão. Muitas vezes nos sentimos “azedos e amargos”. Se eu sustento uma promessa mal concebida, tendo a sentir raiva e ressentimento; se eu a violo, sinto ansiedade, autoaversão e culpa. Quando eu era mais jovem, achava que o autolegislador ideal de Nietzsche teria simplesmente conhecimento antecipado e autoconhecimento suficientes para evitar esse tipo de amargura. No final da década de 1860, Nietzsche leu e admirou o ensaísta norte-americano Ralph Waldo Emerson, que em “Self-Reliance” (1841) gracejou: “Uma coerência tola é o duende das mentes pequenas, adorada por pequenos estadistas, filósofos e teólogos”. Que tal uma coerência sábia? É para isso que devemos nos esforçar?

Nietzsche oferece a seus leitores um experimento mental, conhecido como “o eterno retorno”, que serve como um teste decisivo para quais promessas fazer e quais manter. Em “A Gaia ciência” (1882), ele escreve: “E se algum dia ou noite um demônio se esgueirasse até você, em sua solidão mais solitária, e lhe dissesse: ‘Esta vida como você vive agora e já viveu, você terá que vivê-la uma vez mais e inúmeras vezes mais; e não haverá nada de novo nela, mas cada dor e cada alegria e cada pensamento e suspiro e tudo indescritivelmente pequeno ou grande em sua vida terá que retornar a você, tudo na mesma ordem e sequência — até mesmo esta aranha e este luar entre as árvores, e até este momento e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada de cabeça para baixo de novo e de novo, e você com ela, partícula de poeira!’”

Nossas vidas são compostas de resoluções, mas será que, nas palavras do poeta irlandês William Butler Yeats, “nos contentamos em viver tudo de novo”? Você poderia não apenas aceitar, mas acolher bem esse tipo de repetição? Esse não é o imperativo kantiano de “agir como se a máxima de sua ação devesse tornar-se, através da sua vontade, uma lei universal”, mas sim o comando de agir de tal maneira que você se contentaria em repetir para toda a eternidade.

Nietzsche explica a total gravidade desse eterno retorno, escrevendo: “A questão diante de cada coisa e de tudo: ‘você quer isso de novo e inúmeras vezes?’ repousaria em suas ações como o peso mais pesado!” Há promessas que eu fiz que ficaria feliz em fazer novamente. Algumas delas podem ser do tipo que eu poderia querer para todo o sempre. Essas são do tipo que Nietzsche gostaria que adotássemos. Há também, no entanto, promessas que eu quebrei que eu ficaria feliz em quebrar novamente. De fato, algumas dessas podem ser do tipo de promessas que eu de bom grado quebraria a cada momento num futuro indefinido. Tais promessas e transgressões resistem ao eterno retorno. Elas podem ter satisfeito ou desapontado outras pessoas, mas Nietzsche sugere que isso é em grande parte irrelevante. Posso me responsabilizar por essas decisões? Eu me responsabilizaria por elas para sempre? Essa é a questão.

Durante muito tempo, pensei que o direito de fazer promessas dependia de integridade absoluta, no sentido de assumir apenas o tipo de compromissos que eu pudesse garantir. Nunca consegui esse tipo de coesão moral rígida. Acontece que não tenho nem a vontade nem a onisciência para isso. Estou, ao contrário, tentando cultivar uma integridade mais modesta e mais humana: uma disposição de reivindicar o que prometo e o que deixo de defender. A parte mais difícil do eterno retorno é se responsabilizar pelas torturas que criamos para nós mesmos e para os outros. Responsabilizar-se: relembrar, se arrepender, e em última instância perdoar e amar.

Resoluções geralmente se voltam para que as pessoas se tornem melhores. Em “A Gaia ciência”, Nietzsche escreve: “Você deve se tornar o que você é”. Tornar-se o que se é não é o mesmo que se tornar a pessoa que você sempre quis ser. De fato, envolve unir grandes aspirações e abraçar a verdade da sua situação humana: que você acha significativo manter certas promessas e violar outras, que quer ser melhor, mas muitas vezes não tem os recursos necessários — que você erra mais do que acerta. Que essas deficiências são parte integrante da vida.

John Kaag é professor de filosofia na Universidade de Massachusetts, Miller Scholar no Santa Fe Institute e autor de “Hiking with Nietzsche: On Becoming Who You Are” (2018).

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