Foto: Carole Raddato/Flickr

Mosaico com máscaras teatrais de comédia e tragédia
Mosaico com máscaras teatrais de comédia e tragédia
 

Trabalhe duro, seja bem-sucedido, então você será feliz. Pelo menos, isso é o que foi ensinado a muitos de nós pelos nossos pais, professores e colegas. A ideia de que devemos lutar pelo sucesso para desfrutar da felicidade está inscrita nas instituições mais valorizadas dos Estados Unidos (a Declaração da Independência), além de crenças (o sonho americano) e histórias (Rocky Balboa e Cinderela). A maior parte das pessoas quer ser feliz, então buscamos a felicidade como um coelho persegue uma cenoura amarrada à ponta de uma vara - acreditando que a satisfação se esconde atrás do ingresso na faculdade, da conquista do emprego dos sonhos, de uma promoção ou de uma conta bancária de seis dígitos. Porém, para muitos perseguidores, sucesso e felicidade permanecem eternamente fora de alcance. O problema é que a equação pode estar invertida.

Nossa hipótese é que a felicidade precede e leva ao sucesso - não o contrário. Na psicologia, “felicidade” se associa a “bem-estar subjetivo” e “emoções positivas” (utilizamos os termos de forma intercambiável). Aqueles com maior bem-estar tendem a estar mais satisfeitos com as próprias vidas, além de vivenciar mais emoções positivas e menos emoções negativas. Pesquisas sugerem que são essas emoções positivas - como entusiasmo, alegria e serenidade - que promovem o sucesso no ambiente de trabalho.

Vamos olhar primeiro para os estudos transversais que examinam pessoas em um determinado momento. Isso permite que pesquisadores determinem se a felicidade e o sucesso estão correlacionados. Em relação aos seus colegas mais ranzinzas, pessoas mais felizes estão mais satisfeitas com seus empregos; elas também recebem maior suporte social de seus colegas de trabalho e melhores avaliações de performance de supervisores. Consideravelmente, pode ser que gestores deem aos empregados mais felizes avaliações melhores devido a um efeito auréola, onde uma impressão favorável em uma área (como felicidade) influencia a opinião em outras áreas (como competência profissional), por exemplo: "Tim está feliz, então ele deve ser ótimo no seu trabalho também". No entanto, há também evidência de que pessoas com maior bem-estar se saem melhor em uma gama de tarefas relacionadas ao trabalho: um estudo crucial concluiu que agentes de vendas que têm perspectivas mais positivas vendem 37% mais apólices de seguro de vida do que seus colegas menos otimistas.

A felicidade também é associada com performance profissional e excelência em outras áreas. Pessoas que frequentemente sentem emoções positivas tendem a se esforçar mais por suas organizações; elas também são menos propensas a faltar no trabalho ou deixar o emprego. Pessoas com maior nível de bem-estar também tendem a ganhar salários mais altos do que aqueles com menores níveis de bem-estar.

No entanto, essas pesquisas transversais têm seus limites, uma vez que não conseguem estabelecer o que vem primeiro - a felicidade ou o sucesso. Estudos longitudinais podem ajudar, já que acompanham pessoas durante dias, semanas, meses ou anos para ver como elas mudaram ao longo do tempo. De acordo com a literatura longitudinal, pessoas que começam felizes eventualmente também se tornam bem-sucedidas. Quantos mais contente uma pessoa for, e o mais cedo, mais propensa ela é a ter clareza sobre sobre o tipo de trabalho que quer, além de preencher mais candidaturas de emprego, e encontrar um trabalho. Um estudo chave concluiu que pessoas jovens que relataram maiores níveis de bem-estar do que seus colegas imediatamente antes de se formar na faculdade estavam mais propensas a receber convites para entrevistas de emprego três meses depois.

Emoções positivas também são indicadores de futuras conquistas e ganho financeiro. Em um estudo, jovens felizes de 18 anos apresentavam maior probabilidade de desempenhar trabalhos satisfatórios e de prestígio e de se sentirem financeiramente estáveis aos 26 anos. Em outra pesquisa, pessoas que eram mais entusiasmadas ao começar a faculdade prosseguiram a ter rendas mais altas.

Mas determinar se a felicidade precede o sucesso não é o suficiente. O que queremos saber é: um causa o outro? Afinal, pode haver alguma outra variável desmedida, como inteligência ou extroversão que direcione tanto a felicidade quanto o desempenho profissional. De fato, pessoas extrovertidas são mais propensas a serem mais felizes e a terem maior renda.

Experimentos bem pensados podem controlar essas variáveis. Por exemplo, estudos designaram aleatoriamente pessoas para situações que as fazem sentir emoções neutras, positivas, ou negativas, e então mediram sua performance em tarefas de trabalho. Esses experimentos demonstraram que pessoas que foram levadas a sentir emoções positivas estabelecem objetivos mais ambiciosos, enxergam a si e aos outros de forma mais favorável, e acreditam que terão sucesso. As expectativas otimistas de pessoas felizes parecem ser realistas, também: tanto em tarefas relacionadas ao exercício clerical e testes de substituição de dígitos, pessoas com emoções positivas tendem a se sair melhor e ter maior produtividade do que aqueles presos a emoções neutras ou negativas. O peso de evidências experimentais sugere que pessoas mais felizes têm melhor desempenho do que pessoas menos felizes, e que sua atitude positiva é, provavelmente, a causa.

Pela nossa revisão de mais de 170 estudos transversais, longitudinais e experimentais, é claro que o bem-estar promove sucesso profissional de diversas formas. Isso não é para dizer que pessoas infelizes não podem ter sucesso - ainda bem, já que uma pessoa lendo isso e dizendo a si mesma que precisa se animar para ser bem-sucedida provavelmente não vai ajudar. Do contrário, a história demonstra que indivíduos deprimidos como Abraham Lincoln e Winston Churchill podem conquistar feitos incríveis. Ambas as emoções positivas e negativas são adaptáveis às situações - existe o momento para estar triste, assim como existe o momento para estar feliz.

Então, para quaisquer líderes corporativos ou gerentes lendo isso, nós alertamos contra contratar apenas pessoas excessivamente felizes ou pressionar seus empregados a serem mais entusiasmados. Estratégias assim já saíram pela culatra no passado - como no caso da alegria obrigatória imposta à equipe da rede de supermercados americana Trader Joe’s, onde a política, ironicamente, tornou os funcionários mais infelizes. Pessoas e empresas que esperam aumentar a felicidade de forma mais saudável teriam mais sorte se adotassem atividades positivas, como atos de gentileza e expressão de gratidão.  

O filósofo Bertrand Russell disse, em 1951 que: “A boa vida, como eu a compreendo, é uma vida feliz”. Mas ele continuou: “Eu não quero dizer que se você for bom, você será feliz; eu quero dizer que se você for feliz, você será bom”. Quando se trata de se destacar no trabalho, nós concordamos. Se você quer ser bem-sucedido, não fique à toa esperando encontrar a felicidade: comece por ela.

Lisa C Walsh é candidata ao doutorado em psicologia na Universidade da Califórnia, em Riverside. Seu trabalho foi publicado no Diário de Psicologia Social Experimental, na revista Emotion, entre outros.

Julia K Boehm é professora assistente de psicologia na Universidade de Chapman, na Califórnia. Seu trabalho foi publicado no New York Times, Psychological Science, entre outros.

Sonja Lyubomirsky é professora e vice diretora de psicologia da Universidade da Califórnia. Ela é autora de The How of Happiness - “O como da felicidade”, em tradução livre - publicado em 2008.