Foto: Viktor Talashuk/Unsplash

Rosto de manequim azul
Rosto de manequim azul
 

Os custos dos transtornos mentais -—como incapacitação, perda de produtividade e morte prematura — são frequentemente subestimados. Solucionar o desafio global da saúde mental requer não só ampliar o alcance dos recursos tradicionais para tratá-la, mas também se valer de tecnologias inovadoras, como a inteligência artificial.

BOSTON – Alguns anos atrás, próximo ao fim da vida, meu pai enfrentou um quadro de depressão severa. Como médico e professor, não faltou acesso ao cuidado de saúde mental. Porém, ele cresceu em uma sociedade que estigmatizava transtornos mentais, e estava relutante em buscar ajuda profissional. Como filho, eu estava arrasado ao ver seu sofrimento. Como pesquisador de saúde pública, ganhei outra perspectiva sobre as inumeráveis falhas sistêmicas na provisão de cuidado.

Cientistas do mundo todo tentam agora resolver os problemas com a “Countdown Global Mental Health 2030” (Contagem regressiva para saúde mental global 2030, em tradução livre), uma “colaboração por monitoramento e responsabilização de diversas partes interessadas no campo da saúde mental”, lançada em fevereiro. No entanto, por mais que a iniciativa represente um passo positivo, ela negligencia um elemento chave para uma solução efetiva: tecnologia avançada, especialmente a inteligência artificial.

Globalmente, a oferta de psiquiatras e psicólogos está longe de ser suficiente. Por exemplo, no Zimbábue, existem apenas 25 profissionais de saúde mental para uma população de mais de 16 milhões de pessoas. Embora o país tenha produzido algumas iniciativas comunitárias úteis e inovadoras, como o “Banco da Amizade”, sua reprodutibilidade é limitada.

Falta de acesso ao cuidado com a saúde mental não é um problema exclusivo de países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, aproximadamente metade da população é incapaz de acessar cuidados de saúde mental, frequentemente devido a restrições financeiras.

Além do acesso, há também a questão da vergonha, exemplificada pela experiência do meu pai. Evidências clínicas indicam que o estigma assume duas formas. Pessoas que buscam tratamento para questões de saúde mental podem enfrentar um estigma público em forma de discriminação e exclusão, devido a equívocos endêmicos sobre transtornos mentais. Quando essas crenças são internalizadas, pacientes podem sofrer também com o autoestigma: baixa autoestima, pouca crença de que pode resolver o problema, e relutância em buscar oportunidades produtivas.

As consequências da ineficiência na provisão de cuidado adequado têm sido severamente subestimadas. De acordo com um estudo, questões de saúde mental são responsáveis por 32,4% dos anos vividos com inaptidão e 13% de anos de vida adaptada à inaptidão — anos perdidos de vida saudável devido a doenças, deficiências ou morte prematura.

Os custos econômicos são enormes. De acordo com uma análise feita em 2015, apenas nos Estados Unidos, o fardo econômico da saúde mental ultrapassa US$ 210 bilhões anualmente. Mais da metade desse valor está ligada a ausências no trabalho e perda de produtividade; outros 5% são custos relacionados a suicídios. Os esforços de empresas para contornar a necessidade de cuidados especializados com saúde mental, lembrando funcionários de praticar meditação, provavelmente não são tão eficientes quanto seus proponentes sugerem.

O que poderia ajudar são soluções baseadas em inteligência artificial, como chatbots. Ao simular a linguagem natural para desenvolver uma conversa com um usuário humano, esses sistemas podem agir como terapeutas virtuais, fornecendo direcionamento e apoio àqueles que não têm alternativas. Um experimento de controle randomizado relatado por psicólogos da Universidade de Stanford mostra que chatbots foram significativamente mais bem sucedidos em reduzir os sintomas de depressão do que uma abordagem baseada apenas em informações.

O tipo de cuidado provisório fornecido por chatbots seria particularmente útil em comunidades com oferta limitada de profissionais especializados. Em tempos de acesso a smartphones sem precedentes, em países em desenvolvimento, soluções disponíveis pela internet representam um benefício ao acesso à saúde mental.

Chatbots também poderiam nos ajudar a superar o problema do estigma, já que conseguem mobilizar pessoas que, em outras circunstâncias, estariam relutantes em buscar tratamento para questões de saúde mental. Um estudo recente descobriu que cerca de 70% dos pacientes têm interesse em utilizar aplicativos de celular para automonitoramento e autogerenciamento da saúde mental. Uma vez iniciado o contato com chatbots, outro estudo indica que eles tendem a se expressar mais livremente do que fariam com um terapeuta humano, realçando a prioridade dada à manutenção da privacidade e evitando julgamentos quando buscam solucionar um problema de saúde mental.

Agora cabe aos especialistas, como psicólogos, colaborar mais extensivamente com desenvolvedores de IA. Diversas universidades americanas já lançaram programas que conectam especialistas de ciências clínicas com desenvolvedores de softwares. Essas parcerias devem ser expandidas para incluir universidades, especialmente em países com grande demanda reprimida de tratamento para a saúde mental, visando apoiar o desenvolvimento de terapeutas virtuais linguística e culturalmente adequados.

Envolver atores mais diversos no desenvolvimento de algoritmos também ajudaria a solucionar a questão da discriminação de raça e gênero que tem ocorrido em pesquisas de inteligência artificial. Pesquisadores devem usar grupos de teste bem representativos, também tomando cuidado para aderir a protocolos rigorosos de privacidade e responsabilidade.

É claro que iniciativas assim custam dinheiro. Empresas de capital de risco atualmente investem ao ano US$ 3,2 bilhões  em pesquisas e desenvolvimento de saúde global. Elas devem expandir o escopo dos seus investimentos para incluir tecnologias de inteligência artificial para cuidados com saúde mental. Também poderiam financiar competições entre empreendedores de tecnologia socialmente conscientes, visando estimular futuras inovações nessa área.

Para ficar claro, intervenções de saúde mental via inteligência artificial não substituiriam — e nem devem substituir — psicólogos ou psiquiatras humanos. Afinal, um chatbot não consegue realmente projetar empatia. O que ele pode fazer é atentar a indivíduos em situação de alto risco e, potencialmente, prevenir comportamentos destrutivos, no curto prazo.

Demanda e necessidades frequentemente guiam a inovação. Infelizmente, isso não tem sido verdade para o cuidado com a saúde mental. Está na hora de investir em soluções de longo prazo, que sejam economicamente viáveis e dimensionáveis, que ampliem os  recursos para o cuidado em saúde mental. Esse esforço deve incluir a expansão do amparo em serviços tradicionais. Porém, também deve se valer de tecnologias inovadoras, como a inteligência artificial.

Junaid Nabi é pesquisador de saúde pública no Brigham and Women’s Hospital e na escola de medicina de Harvard.