Foto: Philippe Lopez/Reuters

Autoridades francesas e canadenses visitam Catedral de Notre Dame
 

Um pouco mais de 24 horas após o incêndio que prejudicou seriamente a Notre Dame em Paris, as doações para a reconstrução da catedral de 850 anos passaram de € 1 bilhão. A maior parte, vinda das pessoas mais ricas da França. A Untec, união nacional que representa os economistas especialistas em construções e reformas na França, indicou que o custo da reconstrução provavelmente ficará entre € 300 milhões e  € 600 milhões, muito menos do que a quantia arrecadada.

Os manifestantes franceses conhecidos como coletes amarelos já levantaram a pergunta óbvia: “E os pobres?” Se os ricos podem tão facilmente doar centenas de milhões para restaurar um edifício, eles bem poderiam gastar esse dinheiro em outros lugares, de formas melhores. Eles poderiam ter gastado € 1 bilhão para salvar vidas. Então vamos confrontar a pergunta desconfortável: quantas vidas valem para salvar Notre Dame?

Muitos dirão que essa comparação é impossível. Porém, se não pudermos fazer a comparação, então não saberemos o melhor a se fazer. Se a resposta a que chegarmos for simples demais, ela pode, pelo menos, servir como ponto de partida para desenvolvermos uma melhor.

Um motivo óbvio para restaurar a catedral é o prazer que ela traz, enquanto monumento estético e cultural, para seus 12 milhões de visitantes anuais. Digamos que cada visita dura, em média, 3 horas. Arredondando, isso equivale a 4.500 anos de experiência dos visitantes por ano. Sem dúvida, esses visitantes passam algum tempo relembrando, com prazer, a sua viagem. Portanto, vamos dobrar esse número e dizer que a Notre Dame produz 9.000 anos de ganho aos visitantes a cada ano.

Quantas vidas isso vale: vamos supor que a experiência de visitar ou lembrar-se de Notre Dame faz as pessoas duas vezes mais felizes do que elas normalmente seriam naquele período de tempo, o que significa que, ativamente, uma hora extra passada em Notre Dame, ou lembrando a visita, é tão bom quanto estender a vida de alguém em uma hora. Suponha que estamos salvando vidas de pessoas que viveriam 60 anos a mais, os 9.000 anos de benefício anual é o equivalente a salvar 150 vidas por ano.

Esse é um número significativo de vidas, mas agora devemos perguntar quantas vidas € 1 bilhão poderia salvar. Independentemente dos argumentos dos coletes amarelos, é óbvio que poderíamos salvar mais vidas, e reduzir mais dificuldades econômicas, ajudando pessoas em situação de extrema pobreza em países de baixa renda, do que poderíamos salvar gastando esse dinheiro na França.

GiveWell, conhecido como o avaliador de organizações de caridade mais rigoroso do mundo, indicou recentemente que Against Malaria Foundation, uma das organizações mais bem avaliadas, que distribui redes mosquiteiras em países de baixa renda onde a malária é grande responsável pela mortalidade infantil, salva uma vida por cerca de € 3.500. Usando o panorama do GiveWell, um bilhão poderia prevenir cerca de 285 mil mortes prematuras. Isso é muito mais do que 150.

Defensores da Notre Dame podem pensar que isso subestima o valor da restauração, que beneficiará visitantes por séculos, enquanto o dinheiro gasto para salvar vidas afetará apenas uma geração. Para considerar isso, vamos presumir que se a Notre Dame for restaurada, durará mais 850 anos – isto é, o mesmo tempo que ela já existiu – antes de precisar de mais uma grande restauração. Presumindo, pela manutenção do argumento, que nos importamos tanto com vidas futuras como nos importamos com vidas presentes, então a soma seria o equivalente a salvar um pouco menos de 130 mil vidas. Colocando dessa forma, doar para uma organização que ajuda pessoas em países de baixa renda para combater a malária faz mais que o dobro do bem que a restauração de Notre Dame.

Até mesmo isso provavelmente subestima o valor de uma Notre Dame restaurada, pois precisamos considerar o que aconteceria se decidíssemos não restaurá-la. Nesse caso, o que os turistas fariam?

Muito provavelmente, visitantes de Paris procurariam algumas das muitas outras atrações da cidade, como a Basílica de Sacré-Coeur, que teve 10 milhões de visitantes em 2017, ou o museu do Louvre, que teve 8 milhões. Ou, eles iriam para algum outro lugar e veriam outros monumentos, como a Torre de Londres ou o Taj Mahal.

Presumivelmente, eles apreciariam suas visitas a esses lugares também – não tanto quanto, mas quase tanto. O valor de visitar a Notre Dame deve ser entendido como a alegria adicional que a Notre Dame traz em relação à segunda melhor coisa que os visitantes poderiam fazer com o seu tempo. Dado que já vivemos em um mundo de maravilhas, isso parece insignificante. Quando levamos isso em consideração, o benefício real da Notre Dame é de talvez não mais do que 10% do que o estimado aqui – vale 13 mil vidas se usarmos o recorte de 850 anos, ou menos de um vigésimo do bem alcançável por uma organização de caridade salvando vidas.

As torres icônicas de Notre Dame ainda estão de pé, assim como muito mais do edifício de pedra. Suponha que a catedral fosse deixada em ruínas porque aqueles que ofereceram milhões mudaram de ideia e decidiram dar o dinheiro para aqueles em situação de pobreza. Nesse caso, a Notre Dame se juntaria aos muitos monumentos em ruínas que atraem turistas, que vão desde o Parthenon até o Fórum Romano e o Angkor Wat. Mas também seria mais do que uma ruína antiga: serviria como lembrete visível que o povo francês decidiu gastar seu dinheiro, não para restaurar um edifício, mas para melhorar as vidas de pessoas.

Peter Singer é professor de bioética na Universidade de Princeton, professor laureado na Escola de Estudos Históricos e Filosóficos da Universidade de Melbourne, e fundador da organização sem fins lucrativos, The Life You Can Save. Seus livros incluem “Animal Liberation, Practical Ethics, The Ethics of What We Eat” (com Jim Mason), “Rethinking Life and Death”, “The Point of View of the Universe”, escrito em conjunto com Katarzyna de Lazari-Radek, “The Most Good You Can Do”, “Famine, Affluence, and Morality”, “One World Now”, “Ethics in the Real World”, e “Utilitarianism: A Very Short Introduction”, também com Katarzyna de Lazari-Radek. Em 2013, ele foi nomeado o terceiro pensador contemporâneo mais influente, pelo Instituto Gottlieb Duttweiler.

Michael Plant é doutorando em filosofia moral na Universidade de Oxford. Sua pesquisa está centrada em encontrar as melhores formas de aumentar a felicidade mundialmente.