Foto: Ramzi Boudina/Reuters - 10.05.19

Manifestação contra a elite política em Algiers, na Argélia
Manifestação contra a elite política em Algiers, na Argélia
 

Eleições e referendos são apenas duas formas de as pessoas opinarem sobre como elas são governadas. O protesto é outra maneira, e por isso direitos de associação e livre expressão são protegidos na maior parte das democracias.

E em muitas democracias, hoje em dia, esses direitos têm sido usados ao máximo. Ativistas de clima e manifestações relacionadas ao Brexit paralisaram Londres parcialmente durante o último mês, e manifestantes já estão fazendo planos para a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Reino Unido em junho. Na França, os coletes amarelos atuam todo sábado.

Redes sociais facilitaram a organização de protestos. Graças ao Twitter, Facebook e Instagram, pessoas com causas em comum podem alimentar, instantaneamente, a indignação de outros, enquanto compartilham detalhes de logística. Porém, essas demonstrações dos tempos modernos frequentemente sofrem com a falta de liderança e habilidades de construção de coalizões que poderiam traduzir a indignação coletiva em mudanças reais.

É verdade que grandes protestos podem ajudar a incluir uma questão na agenda política e fortalecer o debate público. Mas mesmo em democracias, grande multidões costumam não ser suficientes para influenciar o governo. Manifestações anti-guerra enormes do Reino Unido e nos Estados Unidos, em fevereiro de 2003, não impediram os dois países de invadir o Iraque no mês seguinte. O movimento Occupy Wall Street, de 2011, que se espalhou para cerca de 900 cidades no mundo todo, não conquistou nenhum objetivo específico. Tampouco as três Marchas das Mulheres anuais, que ocorreram entre 2017 e 2019 em cidades ao redor do mundo.

A falta de uma liderança clara é parcialmente culpada. Antes do advento das redes sociais, organizar manifestações de massa efetivas exigiam mais tempo e esforço. Ativistas precisavam se planejar, levantar dinheiro para colocar anúncios em jornais, criar listas de telefones, e encontrar oradores cativantes para atrair as massas.

Toda essa liderança garantiria às pessoas que investir seu tempo, dinheiro e conexões em um protesto valia a pena. Em contraste, a nova “adocracia” guiada pelas redes sociais, por conta de toda a sua flexibilidade e eficiência, muitas vezes carece de líderes capazes de mobilizar pessoas por um objetivo bem definido e tangível.

No entanto, houve sucessos. Na Polônia, em 2016, protestos bem organizados convenceram o parlamento do país a rejeitar uma proposta de proibição quase total do aborto. Manifestações de rua em diversas cidades polonesas importantes foram acompanhadas por uma campanha virtual e uma greve de mulheres, com algumas se recusando a comparecer à escola, ir ao trabalho, ou a realizar tarefas domésticas. As organizadoras também mobilizaram apoiadores em outros lugares da Europa, e aplicaram lições aprendidas de outros países. Mais importante, as protestantes articularam um objetivo direto - evitar que a nova lei fosse promulgada - e sua campanha para atingi-lo contou com uma liderança eficiente a planejamento cuidadoso.

Protestos recentes bem sucedidos na Argélia e no Sudão, entretanto, destacam a importância da construção de coalizões com membros do governo. Manifestantes nesses dois países também tinham objetivos bem definidos, apesar dos grandes perigos de participar de manifestações de rua contra governos autoritários. Quando os argelinos protestaram pela primeira vez contra a candidatura do então doente presidente, Abdelaziz Bouteflika, para um quinto mandato, eles não foram protegidos por seus direitos democráticos de associação ou livre expressão. E os protestos iniciais de dezembro de 2018 foram rapidamente reprimidos. 

Até março de 2019, no entanto, cerca de 3 milhões de argelinos estariam nas ruas. O objetivo dos protestantes era claro: forçar Bouteflika a renunciar. Eles tiverem sucesso não apenas pelo número, mas também porque sua persistência eventualmente levou as forças militares argelinas a se alinharem a eles e forçar a saída de Bouteflika do poder. No Sudão, três meses de protestos de alcance nacional finalmente convenceram o exército a destituir o presidente Omar al-Bashir.

Essas improváveis alianças entre protestantes e militares foram cruciais tanto no Sudão como na Argélia. Muitos movimentos têm dificuldade em forjar alianças com aqueles que estão no poder, preferindo a empolgação inebriante de um ataque direto ao regime. No entanto, os protestos mais eficientes almejam cooptar alguns dos poderosos para enfraquecer o regime. A campanha de Mahatma Gandhi contra a dominação inglesa na Índia, por exemplo, não confrontou diretamente o poder colonial. Ao invés disso, para a incredulidade dos seus companheiros insurgentes, Gandhi começou com um protesto contra o imposto ao sal britânico, em 1930.

Redes sociais geralmente dificultam a construção de coalizões tão improváveis. Plataformas digitais são boas para ampliar a insatisfação on-line e encontrar soluções para ela, mas elas também são mais propensas a polarizar um movimento, ao invés de ajudá-lo a construir pontes.

A adocracia pode unir rapidamente aqueles que compartilham uma indignação, seja sobre o capitalismo global ou sobre os planos do Reino Unido de deixar a União Europeia. No entanto, é preciso muito mais para unir pessoas por um objetivo positivo, e para mobilizá-las de forma a alcançá-lo.

Protestos bem sucedidos requerem lideranças efetivas, sejam individuais ou coletivas. E precisam ir além de dizer “a verdade aos poderosos” das ruas. A mudança ocorre quando cidadãos bem organizados encontram formas de comunicar a verdade através dos poderosos em coalizões improváveis de serem formadas on-line. Ferramentas digitais podem facilitar a organização política efetiva, mas nunca devem ser vistas como substitutas para ela. 

Ngaire Woods é reitora e fundadora da Escola Blavatnik de Estudos Governamentais da Universidade de Oxford.