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Jacinda Ardern vestiu um véu ao consolar enlutados muçulmanos
 

Após um terrorista atirar e matar 50 pessoas em 2 mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia, em março, a primeira ministra Jacinda Ardern reagiu de forma diferente da maioria dos líderes após ataques semelhantes. 

Normalmente, como a História mostra, presidentes e primeiros-ministros tentam parecer racionais após um ataque terrorista. Eles asseguram as pessoas de que a situação está sob controle, agradecem à polícia e outras entidades locais e oferecem atualizações sobre as investigações. A reação de outros líderes mundiais, em sua maioria homens, foi o lançamento de programas de vigilância em massa reprimindo liberdades civis, fortalecendo a execução da lei, ou declarando “guerra ao terror”.

Ardern demonstrou uma reação mais solidária e empática ao ataque de Christchurch.

Ela vestiu um véu ao consolar vítimas e enlutados muçulmanos. Ela chorou. Seu governo se ofereceu para pagar todos os custos funerários às vítimas, independentemente de sua situação imigratória. E Ardern respondeu fortemente na frente legislativa, pressionando o parlamento por novas medidas de controle de armas, banindo armas de fogo de estilo militar na Nova Zelândia.

Ardern foi quase universalmente elogiada por sua liderança nesse momento de crise, que alguns identificaram como um estilo de administração “feminino”. Seus índices de aprovação atingiram os níveis mais altos desde que ela assumiu o cargo. 

Queríamos entender como exatamente Ardern agiu diferente de um homem ao encarar o terrorismo - se é que ela realmente o fez.

Nosso estudo: categorizando estilos de liderança

Para analisar a abordagem “feminina” de Arden em relação ao terrorismo, comparamos sua retórica a de outros líderes mundiais, imediatamente após massacres semelhantes - isto é, ataques de “lobos solitários” que resultaram em 2 ou mais mortes e foram motivados por ideologias de direita.

Seis incidentes nos últimos 50 anos atendem a esses critérios. Eles são: o ataque de Utoya, na Noruega, em 2011; o atentado a um templo sique em Wisconsin em 2012; o atentado à igreja metodista de Charleston, na Carolina do Sul, em 2015; a ataque à mesquita em Quebec, em 2017; o atentado a uma sinagoga em Pittsburgh no ano passado; e o ataque à mesquita de Christchurch.

Assim, nossa análise cobriu as reações de 5 líderes diferentes a ataques terroristas domésticos: o primeiro ministro norueguês, Jens Stoltenberg; o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau; e a primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Arden.

Para cada líder, analisamos cada sentença de seus discursos imediatamente após os ataques - orais e escritos - e observamos se estavam focados no autor, nas vítimas, em ambos ou em nenhum. No total, codificamos 314 sentenças dessa maneira.

Homens também lamentam pelas vítimas

Ardern virou manchete por falar sobre as vítimas e se recusar ao dizer o nome do autor do ataque, negando notoriedade a ele.

Observamos que todos os líderes homens da nossa amostra também expressaram empatia para com as vítimas e, em grande medida, focaram nos mortos e feridos, ao invés de no autor do ataque. Dois deles, na verdade, focaram seus comentários nas vítimas mais do que Ardern, que dedicou aproximadamente 40% de seu discurso às vítimas de Christchurch.

Como líderes falam sobre terrorismo

Pesquisadores de Cornell estudaram os comentários escritos e orais de líderes da Noruega, Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia após ataques em massa. Codificando cada frase de acordo com seu foco, encontraram que Ardern passou o maior tempo falando sobre o lado humano da tragédia, enquanto líderes homens devotaram mais atenção a questões pragmáticas, como logística e segurança pública.

Aproximadamente 44% das frases do primeiro-ministro Stoltenberg focaram nas vítimas, e ele não mencionou o terrorista nenhuma vez. Stoltenberg disse que era “incapaz de expressar com palavras” a profundeza dos seus sentimentos sobre as 77 pessoas mortas na ilha de Utoya, das quais muitas eram crianças em um acampamento de verão.  

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau - que se referiu aos fiéis muçulmanos mortos como “irmãos, tios, pais e amigos” -  vem em seguida, focando 41% do seu discurso nas vítimas.

Os dois presidentes dos Estados Unidos na nossa análise enfatizaram menos as vítimas.

Obama, que compartilhou seu “profundo pesar sobre os assassinatos sem sentido” de fiéis negros na Carolina do Sul, falou sobre as vítimas do ataque em apenas 18% dos seus pronunciamentos após o ataque. Trump dedicou menos do que 5% do seu discurso após o ataque à sinagoga de Pittsburgh aos mortos.

Tanto Obama quanto Trump falaram muito mais sobre as investigações criminais em curso, a resposta de aplicação da lei e como o seu governo estava lidando com a situação.

Essa ênfase no poder - e, por consequência, na força do líder da nação - parece estar relacionada a uma resposta masculina a um ataque em massa. Todos os homens na nossa amostra dedicaram pelo menos metade das suas reações pós-ataque a esses temas.

Ardern, uma mulher, foi a única líder da nossa amostra que direcionou mais da metade dos seus comentários aos humanos envolvidos no ataque terrorista.

Quando estereótipos funcionam para mulheres

A resposta de Ardern também diferiu em quão abertamente ela expressou sua tristeza.

Chorar em público pode ser um risco político para homens e mulheres, de acordo com a professora de Dartmouth, Deborah Jordan Brooks. Quando, em 2016, o presidente Obama teve dificuldade para conter as lágrimas após o atentado à escola Sandy Hook, por exemplo, a emissora Fox News zombou dele. Pesquisas mostram que líderes mulheres são especialmente penalizadas por demonstrar emoções.

Ardern, no entanto, não foi julgada por chorar em Christchurch. Papéis de gênero tradicionais retratam mulheres como “emotivas”. Talvez, nesse momento de tragédia, as expectativas sociais tenham trabalhado a seu favor.

Outra característica feminina estereotipada - zelo empático pelas necessidades dos outros - também esteve à mostra após o ataque de Christchurch.

O uso do véu muçulmano ao visitar a cena do crime, por exemplo, foi mais do que sensibilidade cultural. Ele transmite visualmente que muçulmanos são bem vindos na Nova Zelândia. Líderes muçulmanos no mundo todo elogiaram Ardern pelo gesto de compaixão e muitas mulheres não-muçulmanas na Nova Zelândia seguiram a sua deixa

Até as respostas políticas do governo de Ardern provavelmente foram guiadas pela empatia. Seu governo se ofereceu para pagar os custos funerários e disponibilizou doações para sobreviventes livres de impostos para os parceiros, crianças e dependentes das vítimas.

Pesquisas mostram que mulheres sofrem males indiretos, mas desproporcionais, quando líderes domésticos homens morrem por violência. As doações para sobreviventes indicam que Ardern levou em consideração as necessidades específicas de mulheres ao planejar a assistência governamental.

Ao redor do mundo, pesquisas mostram, líderes mulheres são mais propensas a abraçar esses tipos de políticas de bem-estar social quando em exercício.

Após conflitos armados, mulheres também tendem a transferir recursos militares para o bem-estar social, prolongando a paz.

Mulheres sendo mulheres

Existem, é claro, exceções notáveis à ideia de que líderes mulheres são mais solidárias, acolhedoras, ou não violentas.

Como secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton defendeu o envolvimento das forças militares norte-americanas em conflitos na Síria e na Líbia. A primeira ministra Margaret Thatcher também começou guerra quando estava em exercício, e notoriamente cortou o financiamento governamental a serviços britânicos de bem estar social.

A disposição de Ardern para assumir abertamente um estilo de liderança feminina é um fenômeno relativamente novo. No passado, muitas mulheres sentiram a necessidade de adotar traços tradicionalmente masculinos para ter sucesso no mundo da política dominado pelos homens.

Ao fazê-lo, Ardern mostrou ao mundo que lideranças femininas não apenas são aceitáveis - são também, em tempos de caos, uma força poderosa.

Mona Krewel e Sabrina Karim são professoras assistentes do Departamento de Estudos Governamentais da Universidade de Cornell.