Foto: Paula May/Unsplash

Observador no Roy’s Peak, na Nova Zelândia, em 2017
Observador no Roy’s Peak, na Nova Zelândia, em 2017
 

A bem da verdade, muito do que acontece conosco na vida é aleatório - somos peões à mercê da Senhora Sorte. Para tomar posse das nossas experiências e ter uma sensação de controle sobre o nosso futuro, contamos histórias sobre nós mesmos que tecem sentido e continuidade a respeito de  nossa identidade pessoal. Escrevendo na década de 1950, o psicólogo Erik Erikson colocou da seguinte forma:

"Ser adulto significa, entre outras coisas, ver a própria vida em perspectiva contínua. Tanto em retrospectiva quanto em probabilidade… Construir seletivamente o passado de forma que, passo a passo, o passado pareça tê-lo planejado, ou melhor, que esse adulto pareça ter planejado o passado."

Junto aos seus valores e objetivos de vida escolhidos, e seus traços de personalidade - quão sociável você é, o quanto se preocupa e assim por diante -, sua história de vida, da forma com que você a conta, constrói a parte final do que, em 2015, o psicólogo de personalidade Dan P. McAdams, da universidade Northwestern, em Illinois, chamou de ‘a trindade personológica’.

É claro que alguns de nós contamos essas histórias mais explicitamente do que outros - a identidade narrativa de alguém  pode ser uma história (mal) formada no limiar da sua consciência, enquanto outra pessoa pode literalmente escrever seu passado e futuro em um diário ou um livro de memórias.

De modo intrigante, existem evidências de que incitar pessoas a refletir sobre suas histórias de vida e a contá-las - um processo chamado de ‘terapia de revisão da vida’ - pode ser psicologicamente benéfico. No entanto, a maior parte das análises foi feita em adultos mais velhos e pessoas com problemas pré-existentes, como depressão ou doenças crônicas. Ainda precisa ser verificado, através de experimentação cuidadosa, se incitar pessoas saudáveis a refletir sobre suas vidas traria algum benefício imediato.

Um fator relevante a esse respeito é o tom, a complexidade e o astral dessas histórias que as pessoas contam para elas mesmas. Por exemplo, foi demonstrado que pessoas que contam histórias mais positivas, encaminhando-as para situações de redenção pessoal, tendem a desfrutar de autoestima mais alta e maior “clareza de autoconceito” (a confiança e lucidez com a qual você se vê). Talvez dedicar-se a escrever ou a falar sobre o passado seja benéfico apenas entre pessoas cujas histórias são mais positivas.

Em artigo recente no Journal of Personality, Kristina L. Steiner, da Denison University, em Ohio, e seus colegas analisaram essas questões e relataram que escrever sobre os capítulos de sua vida de fato leva a um aumento modesto e temporário da autoestima e que, na verdade, esse benefício se manifesta independentemente de quão positivas sejam suas histórias. No entanto, não houve efeito na clareza de autoconceito, e muitas questões sobre esse tópico permanecem em aberto para estudo futuro.

A equipe de Steiner testou três grupos de participantes americanos saudáveis, ao longo de três estudos. Os dois primeiros grupos - envolvendo mais de 300 pessoas entre eles - eram de jovens estudantes de graduação, em sua maioria mulheres. O grupo final, uma mistura equilibrada de 101 homens e mulheres, foi recrutado entre a própria comunidade e era mais velho, com idade média de 62 anos.

O formato foi essencialmente o mesmo para cada estudo. Foi pedido aos participantes para completarem diversos questionários avaliando seu astral, autoestima e clareza de autoconceito, entre outras coisas. Em seguida, metade deles foi alocada para escrever sobre 4 capítulos de suas vidas, dedicando 10 minutos a cada um. Eles foram instruídos a ser tão específicos e detalhistas quanto possível, e a refletir sobre os temas principais, como cada capítulo estava relacionado às suas vidas de forma geral, e a pensar sobre quaisquer causas e efeitos do capítulo neles e em suas vidas. A outra metade dos participantes, que agiu como um grupo de controle, passou o mesmo tempo escrevendo sobre 4 americanos famosos de sua escolha (para tornar essa tarefa mais intelectualmente comparável, eles também foram instruídos a refletir sobre as ligações entre os indivíduos escolhidos, como eles se tornaram famosos, e outras questões semelhantes). Após as tarefas escritas, todos os participantes refizeram os mesmos testes psicológicos que haviam completado no início.

Os participantes que escreveram sobre capítulos das suas vidas mostraram pequenos (mas estatisticamente significativos) aumentos em sua autoestima, enquanto os participantes do grupo de controle, não. Esse aumento de autoestima não foi explicado por qualquer mudança de astral, e - para a surpresa dos pesquisadores - não fez diferença se os participantes classificaram seus episódios como positivos ou negativos, tampouco se incluíram temas de agenciamento (isto é, de estar no controle) e comunhão (pertencente a  relações significativas). Decepcionantemente, a tarefa de criar capítulos sobre a vida não causou efeito no autoconceito dessas pessoas, nem em seu significado ou na identidade pessoal.

Por quanto tempo duram os benefícios à autoestima da tarefa sobre capítulos da vida, e eles podem ser cumulativos,  com a repetição do exercício? Algumas pistas surgem do segundo estudo, que envolvia duas tarefas de escrita sobre os capítulos (e duas tarefas de escrita sobre americanos famosos para o grupo de controle), com a segunda tarefa sendo realizada 48 horas após a primeira. Os pesquisadores queriam checar se o aumento da autoestima decorrente da primeira tarefa sobre capítulos da vida ainda estaria visível no início da segunda tarefa, dois dias depois - mas não estava. Eles também queriam checar se os benefícios à autoestima poderiam se acumular ao longo das duas tarefas - eles não o fizeram (a segunda tarefa teve seus próprios benefícios sobre a autoestima, mas não foram cumulativos aos benefícios da primeira).

Ainda não está claro exatamente porque o exercício sobre capítulos da vida teve os efeitos que teve. É possível que a tarefa tenha levado os participantes a ponderar sobre como mudaram de forma positiva. Eles também podem ter se beneficiado da expressão e do confronto das suas reações emocionais a esses períodos das suas vidas - o que certamente seria consistente com os benefícios bem documentados da escrita expressiva e da rotulagem de efeitos (o efeito calmante de colocar as emoções em palavras). Pesquisas futuras precisarão diferenciar esses potenciais mecanismos benéficos. Também seria proveitoso testar grupos mais diversos e diferentes “doses” de tarefas escritas para checar se é possível que os benefícios se acumulem ao longo do tempo.

Os pesquisadores afirmaram: “Nossas descobertas sugerem que a experiência de alguém revisar sistematicamente a sua vida e identificar, descrever e relacionar conceitualmente capítulos da vida pode servir para aprimorar o ser, mesmo na ausência de aumento da claridade de autoconceito e significado”. Se atualmente você anda sem muita confiança e sente que poderia se beneficiar de uma injeção na autoestima, pode valer a pena experimentar a tarefa dos capítulos da vida. É verdade que os benefícios decorrentes do exercício foram pequenos, mas como a equipe de Steiner observou, os custos também são baixos.

Christian Jarrett é neurocientista cognitivo e escritor de ciência, com textos publicados no jornal The Guardian e na revista Psychology Today. É editor do blog Research Digest, publicado pela Sociedade Britânica de Psicologia, e apresenta o podcast PsychCrunch. Seu último livro é "Personology: Using the Science of Personality Change to Your Advantage" (a ser lançado). Ele vive na Inglaterra.