Foto: Reprodução/Facebook

Didier Drogba com crianças na Costa do Marfim
 

Grande ídolo do Chelsea, maior jogador e artilheiro da Costa do Marfim, eleito duas vezes o melhor jogador africano e três Copas do Mundo disputadas. Palavras não faltam para mostrar a importância do ex-atacante Didier Drogba para o futebol mundial. Para o povo e a história da Costa do Marfim, porém, seu legado vai além das quatro linhas. Matador implacável dentro de campo, soube fazer das palavras uma grande arma para mudar as coisas e trazer a paz em seu país.

 

A Costa do Marfim viveu mais de três décadas sob o regime de Félix Houphöet-Boigny, um ex-chefe tribal com papel de destaque na independência do país junto à França. Em seu governo, o cacau e o café trouxeram uma relativa prosperidade econômica e houve certa tolerância entre os diferentes grupos políticos e étnicos. Com sua morte em 1993, entretanto, a estabilidade deu lugar à recessão econômica, golpes de Estado e uma enorme divisão social. No norte comandado por rebeldes, ficaram os Baoulé, de maioria muçulmana; no sul os Beté, cristãos fiéis ao governo. Em um país completamente fragmentado, amigos se separaram, irmãos de diferentes regiões começaram a se odiar e os problemas passaram a ser resolvidos na base da força e da violência. Parecia não haver um caminho.

 

No meio de tudo isso, havia o futebol e os “Elefantes”, como é chamada a seleção marfinense, por conta da história do país ligada à exploração do marfim. Era uma geração talentosa, com jogadores atuando em grandes times do mundo, como Emmanuel Eboué (Arsenal), Yaya Touré (Olympiakos), Kalou (PSG) e Kéita (Lille). Bem-sucedidos em suas carreiras e ídolos no futebol, aos olhos dos torcedores, pareciam não se importar com a realidade do país e de seu povo.

 

Coube ao principal craque do time dar o grande passo para mudar essa percepção. Em 2005, Didier Drogba estava em sua segunda temporada pelo Chelsea – clube pelo qual viria a marcar 157 gols e ganhar 14 títulos, incluindo uma Liga dos Campeões e quatro campeonatos ingleses. Nascido na capital Abidjan, foi morar na França com apenas cinco anos de idade, onde cresceu e jogou pelo Le Mans, Guingamp e Olympique de Marselha até chegar ao Reino Unido. Criado longe da Costa do Marfim e de origem Beté – a mesma etnia do presidente Laurent Gbagbo –, muitos o viam como um possível apoiador do regime que não interviria na situação política. Mas, como no futebol, Drogba mostrou o imponderável da vida.

 

Em outubro do mesmo ano, os Elefantes conseguiram um feito histórico. A equipe havia se classificado pela primeira vez para disputar uma Copa do Mundo. Naquele dia, no Sudão, quando todos os olhares marfinenses se voltaram para o futebol, Drogba fez algo muito maior do que celebrar um feito em campo. Junto de todos os jogadores, ele se ajoelhou no vestiário e, ao vivo, clamou pelo fim dos conflitos: “Marfinenses, do norte e do sul, do centro ao oeste; hoje nós provamos que todos podemos conviver e jogar juntos na Costa do Marfim. Temos o mesmo objetivo: a classificação para o Mundial. Vocês prometeram que essa festa reuniria todo o povo. Hoje, pedimos, por favor: perdoem, perdoem. O único país da África com todas essas riquezas não pode se consumir em guerras. Por favor, entreguem as armas. Organizem as eleições e tudo vai melhorar”, pediu o atacante na frente das câmeras.

 

Um poderoso discurso de apenas 76 segundos que se tornou um divisor de águas. Sem perceber, Drogba parou uma guerra na Costa do Marfim.

 

Uma semana depois, governo e rebeldes firmaram um cessar-fogo, uma trégua de um conflito que, na época, já havia vitimado mais de 4 mil pessoas, segundo dados de organizações não governamentais. “Estávamos à beira de uma Guerra Civil em 2005. A guerra eclodiu, mas só cinco anos depois. Na época, nossa situação era parecida e precisávamos de pessoas como Didier Drogba”, conta Venance Konan, editor do jornal marfinense Fraternité Matin, no documentário “Os Rebeldes do Futebol”.

Se o discurso de Drogba evitou o pior em um país completamente dividido, a Copa na Alemanha no ano seguinte serviria para trazer um pouco de alegria aos marfinenses. Era um momento histórico, a primeira vez que veriam seus ídolos jogando contra os melhores do mundo.

 

A Copa do Mundo veio e quis o destino que os Elefantes caíssem no chamado grupo da morte, com a bicampeã Argentina, a poderosa Holanda e Sérvia e Montenegro. A seleção acabou eliminada ainda na primeira fase, com duas derrotas e uma vitória por 3 a 2 diante dos sérvios. Drogba faria seu primeiro gol em Mundiais na derrota por 2 a 1 contra os argentinos. Mesmo eliminado, o sentimento do atacante era de que deveria fazer ainda mais pelo futebol e seu povo.

 

Em campo, a temporada de 2006 foi especial para Drogba. Sob o comando do técnico José Mourinho, ele foi decisivo para a conquista do bicampeonato inglês do Chelsea. O título e os gols marcados na Premier League fariam o atacante ser escolhido o Jogador Africano do Ano. Uma realização pessoal e uma oportunidade e tanto para quem buscava usar o futebol para trazer a paz.

 

Com o prêmio de melhor jogador do continente em mãos, fez um apelo ao presidente. Queria levar o troféu até Bouaké, cidade comandada pelos rebeldes e em guerra com a capital Abidjan. Naquele momento, Drogba deixava, mais uma vez, de ser um simples jogador. Tornava-se um símbolo de reconciliação nacional. Seguido por uma multidão desde a chegada ao aeroporto, exibiu o prêmio às autoridades e ao povo. O ponto máximo, de novo, viria nas palavras do atacante. Todos foram ao delírio quando Drogba prometeu levar a seleção até o reduto rebelde.

 

Assim, no meio das eliminatórias para a Copa Africana de Nações, Bouaké e todo o país pararam. Não pela força das armas e da guerra, mas pelo futebol. Em 3 de maio de 2007, Costa do Marfim e Madagascar se enfrentaram em um estádio lotado, com tropas de ambos os lados do conflito assistindo o jogo juntos e de forma pacífica. A partida terminou em 5 a 0 para a Costa do Marfim, com gols Yaya Touré, Salomon Kalou e Drogba. No final, os fãs invadiram o campo para celebrar com seus ídolos o momento mágico.

 

As ações de Drogba, infelizmente, não impediriam o país de afundar novamente na violência entre grupos rebeldes e tropas do governo. Em 2011, uma Guerra Civil terminou com a prisão de Laurent Gbagbo e um triste saldo de mais de 3 mil mortos. Mas Drogba continuou mostrando que poderia fazer sempre mais. Dentro e fora dos gramados.

 

O atacante ganhou quase tudo pelo Chelsea e seria decisivo no mais importante título do clube, a Liga dos Campeões de 2012. Foi dele o gol do empate de 1 a 1 na final diante do Bayern de Munique e também a última cobrança na decisão por pênaltis. Com 157 gols em 341 jogos, Drogba se tornou o grande ídolo dos Blues. Pela seleção, disputaria ainda as Copas de 2010 e 2014.

 

Atuando fora das quatro linhas, Drogba seguiu tendo ainda mais destaque. Ao longo dos anos, participou de reuniões com os diferentes grupos étnicos e integrou a Comissão da Verdade e Reconciliação instaurada após a guerra. O jogador ainda criou sua própria fundação beneficente, doou recursos para projetos sociais e virou embaixador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento .

 

“Antes de ser jogador de futebol, sou um ser humano, sou um homem. Eu tenho uma vida para liderar, eu quero viver em um país pacífico. Meu país estava em guerra e as tensões estavam lá. Eu cuido do meu país e fiz o que tinha que fazer”, disse o craque à rede britânica BBC.

 

Drogba anunciou sua aposentadoria em novembro de 2018. Aos 40 anos, seu último clube foi o Phoenix Rising, dos Estados Unidos. Pelos times onde jogou, será lembrado por muitos e muitos anos. Para a história da Costa do Marfim, seu legado extracampo ficará para sempre. O de um grande ídolo que fez muito pelo seu povo. O de um atacante matador que contribuiu para a paz no país.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio