Foto: Bryan Snyder/Reuters

hábito
Guias de autoajuda pregam que podemos intervir em hábitos com o propósito de encontrar um caminho melhor
 

Fazemos centenas de coisas – repetidamente, rotineiramente – todos os dias. Acordamos, checamos nossos telefones, comemos nossas refeições, escovamos nossos dentes, fazemos nossos trabalhos, satisfazemos nossos vícios. Nos últimos anos, essas ações habituais tornaram-se uma plataforma para o aperfeiçoamento individual: estantes de livros estão saturadas de best-sellers sobre “life hacks” (truques para a vida),"life design" (design de vida) e como “gamificar” nossos projetos de longo prazo, prometendo de produtividade realçada a uma dieta mais saudável e grandes fortunas. Esses guias variam em precisão científica, mas tendem a descrever os hábitos como rotinas que seguem uma sequência repetitiva de comportamentos e nos quais podemos intervir com o propósito de encontrar um caminho melhor.

 

O problema é que essa abordagem ignora grande parte da sua riqueza histórica. Os livros de autoajuda de hoje herdaram na verdade uma versão muito particular do hábito – especificamente, uma que surge no trabalho de psicólogos do início do século 20, como B.F. Skinner, Clark Hull, John B Watson e Ivan Pavlov. Esses pensadores são associados ao behaviorismo, uma abordagem da psicologia que prioriza reações observáveis ​​de estímulo-resposta em vez dos sentimentos ou pensamentos internos. Os behavioristas definiam os hábitos em um sentido estreito e individualista; eles acreditavam que as pessoas estavam condicionadas a responder automaticamente a certos sinais, que produziam repetidos ciclos de ação e recompensa.

 

A imagem behaviorista do hábito foi atualizada desde então à luz da neurociência contemporânea. Por exemplo, o fato de o cérebro ser plástico e mutável permite que os hábitos se inscrevam em nossa fiação neural ao longo do tempo, formando conexões privilegiadas entre as regiões cerebrais. A influência do behaviorismo permitiu que pesquisadores estudassem hábitos de forma quantitativa e rigorosa. Mas também legou uma noção rasa de hábito, que negligencia as implicações filosóficas mais amplas do conceito.

 

Os filósofos costumavam encarar os hábitos como formas de contemplar quem somos, o que significa ter fé e por que nossas rotinas diárias revelam algo sobre o mundo em geral. Em sua "Ética a Nicômaco", Aristóteles usou os termos héxis e éthos – ambos traduzidos hoje como "hábito" – para estudar qualidades estáveis em pessoas e coisas, especialmente em relação a sua moral e intelecto. Héxis denota as características duradouras de uma pessoa ou coisa, como a lisura de uma mesa ou a bondade de um amigo, que podem guiar nossas ações e emoções. Um héxis é uma característica, capacidade ou disposição que alguém "possui"; sua etimologia é a palavra grega “ekhein”, o termo para propriedade. Para Aristóteles, o caráter de uma pessoa é, em última análise, a soma de suas “hexeis” (plural).

 

Um éthos, por outro lado, é o que permite o desenvolvimento de hexeis. É tanto um modo de vida quanto o calibre básico da personalidade de uma pessoa. O éthos é onde se originam os princípios essenciais que ajudam a guiar o desenvolvimento moral e intelectual. O aprimoramento dos hexeis de um éthos, portanto, leva tempo e prática. Esta versão do hábito está em sintonia com o sentido da antiga filosofia grega, que muitas vezes enfatizava o cultivo da virtude como um caminho para a vida ética.

 

Milênios depois, na Europa cristã medieval, o héxis de Aristóteles foi latinizado para “habitus”. A tradução acompanha uma mudança que se afasta da ética da virtude dos antigos na direção da moralidade cristã, pela qual o hábito adquiriu conotações distintamente divinas. Na Idade Média, a ética cristã afastou-se da ideia de apenas moldar as disposições morais de uma pessoa e, em vez disso, partiu da crença de que o caráter ético era transmitido por Deus. Desta forma, o "habitus" desejado deveria estar relacionado ao exercício da virtude cristã.

 

O grande teólogo Tomás de Aquino viu o hábito como um componente vital da vida espiritual. De acordo com sua “Summa Theologica” (1265-1274), o "habitus" envolvia uma escolha racional e levava o verdadeiro crente a um senso de liberdade fiel. Em contraste, Tomás de Aquino utilizava “consuetudo” para se referir aos hábitos que adquirimos que inibem essa liberdade: as rotinas cotidianas e irreligiosas que não se relacionam ativamente com a fé. Consuetudo significa mera associação e regularidade, enquanto o "habitus" transmite sincera reflexão e consciência de Deus. Consuetudo é também de onde derivamos os termos "costume" (no sentido de prática frequente) e "costume" (no sentido de indumentária) – uma linhagem que sugere que, para os medievais, o hábito se estendia para muito além de cada indivíduo.

 

Para o filósofo do Iluminismo David Hume, essas interpretações antigas e medievais do hábito eram limitantes demais. Hume pensou no hábito pelo que ele nos permite e capacita a fazer como seres humanos. Ele chegou à conclusão de que o hábito é o "cimento do universo", do qual “todas as operações da mente… dependem". Por exemplo, podemos jogar uma bola no ar e vê-la subir e descer à Terra. Por hábito, passamos a associar essas ações e percepções – o movimento do nosso membro, a trajetória da bola - de uma maneira que eventualmente nos permite apreender a relação entre causa e efeito. A causalidade, para Hume, é pouco mais que uma associação habitual. Da mesma forma, linguagem, música, relacionamentos – qualquer habilidade que usamos para transformar experiências em algo útil é construída a partir de hábitos, ele acreditava. Os hábitos são, portanto, instrumentos cruciais que nos permitem navegar o mundo e compreender os princípios pelos quais ele opera. Para Hume, o hábito nada mais é do que o "grande guia da vida humana".

 

É claro que devemos enxergar os hábitos como mais do que meras rotinas, tendências e tiques. Eles abrangem nossas identidades e ética; nos ensinam a praticar nossas crenças; se levarmos Hume em conta, eles conseguem nada menos do que manter o mundo unido. Enxergar hábitos dessa nova-porém-velha maneira requer uma certa reviravolta conceitual e histórica, mas essa guinada proporciona muito mais que autoajuda superficial. Ela deveria nos mostrar que as coisas que fazemos todos os dias não são apenas rotinas que podem sofrer intervenções, mas janelas através das quais possamos talvez vislumbrar quem realmente somos.

Elias Antilla é estudante de graduação de história e filosofia da ciência na Universidade de Cambridge, atualmente trabalhando em ciência, democracia e expertise. Ele mora em Cambridge, Inglaterra.

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