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tributo na nova zelândia
Público participa de evento em memória das vítimas de massacre em mesquita de Christchurch, Nova Zelândia
 

O cruel assassinato de 50 pessoas na Nova Zelândia foi mais uma trágica lembrança de como humanos são capazes de matar impiedosamente sua própria espécie por causa do que acreditam, de como exercem sua fé e a que raça ou nacionalidade pertencem. Há uma longa história de medo “dos outros” transformando humanos em armas ilógicas e implacáveis, a serviço de uma ideologia.

O medo é provavelmente tão antigo quanto a vida. Ele está profundamente enraizado nos organismos vivos que sobreviveram à extinção e evoluíram ao longo de bilhões de anos. Suas raízes são profundas no âmago de nosso ser psicológico e biológico. É um dos nossos sentimentos mais íntimos. Perigo e guerra são tão antigos quanto a história humana, assim como a política e a religião.

Os demagogos sempre usaram o medo para intimidar subordinados ou inimigos, assim como para guiar a tribo. O medo é uma ferramenta muito forte que pode confundir a lógica dos humanos e mudar seu comportamento.

Sou um psiquiatra e neurocientista especializado em medo e trauma, e tenho alguns pensamentos baseados em evidências sobre como se abusa do medo na política.

Aprendemos o medo com nossos companheiros de tribo

Como outros animais, nós humanos aprendemos a ter medo por meio de experiências, como ser atacado por um predador. Também aprendemos por meio da observação, como ao testemunhar um predador atacando outro humano. E aprendemos com instruções, como quando nos dizem que há um predador por perto.

Aprender com nossos conspecíficos – membros da mesma espécie – é uma vantagem evolutiva que nos impediu de repetir experiências perigosas de outros seres humanos. Temos uma tendência a confiar em nossos companheiros de tribo e autoridades, especialmente quando se trata de perigo. É adaptação: pais e velhos sábios nos avisaram para não comer uma planta especial, ou não ir a uma área na floresta, ou iríamos nos ferir. Ao confiar neles, não morreríamos como um bisavô que morreu comendo aquela planta. Dessa forma, acumulamos conhecimento.

A tendência e capacidade humana de destruir o que é desconhecido e estranho é alimento para os políticos que querem explorar o medo

O tribalismo é uma parte inerente da história humana. Sempre houve diferentes tipos de competição entre grupos de humanos com diferentes rostos, do brutal nacionalismo dos tempos de guerra até a forte lealdade a um time de futebol. Evidências da neurociência cultural mostram que nossos cérebros chegam a responder de maneira diferente, em um nível inconsciente, à simples visão de rostos de outras raças ou culturas.

No nível tribal, as pessoas são mais emotivas e, consequentemente, menos lógicas: torcedores de dois times rezam para que sua equipe vença, esperando que Deus tome partido em um jogo. Por outro lado, regredimos ao tribalismo quando estamos com medo. É uma vantagem evolutiva que levaria à coesão do grupo e nos ajudaria a lutar contra outras tribos para sobreviver.

Tribalismo é a brecha biológica em que muitos políticos apostam há tempos: acessando nossos medos e instintos tribais. Alguns exemplos são o nazismo, a Ku Klux Klan, as guerras religiosas e a Idade das Trevas. O padrão típico é dar aos outros humanos um rótulo diferente do nosso, dizer que eles irão prejudicar a nós e aos nossos recursos, e transformar o outro grupo em um conceito. Não precisa necessariamente ser raça ou nacionalidade, que são usadas com muita frequência. Pode ser qualquer diferença real ou imaginária: liberais, conservadores, pessoas do Oriente Médio, homens brancos, a direita, a esquerda, muçulmanos, judeus, cristãos, sikhs. A lista é interminável.

Ao construir limites tribais entre "nós" e "eles", alguns políticos foram muito bem-sucedidos na criação de grupos virtuais de pessoas que não se comunicam e odeiam sem sequer se conhecerem. Este é o animal humano em ação!

O medo é desinformado

Um soldado me disse uma vez: “É muito mais fácil matar alguém que você nunca conheceu, de longe. Quando você olha através da mira, você vê apenas um ponto vermelho, não um ser humano ”. Quanto menos você sabe sobre eles, mais fácil é temê-los e odiá-los.

A tendência e capacidade humana de destruir o que é desconhecido e estranho é alimento para os políticos que querem explorar o medo: se você cresceu em torno apenas de pessoas que se parecem com você, só ouviu um meio de comunicação e escutou de um velho tio que aqueles que parecem ou pensam de modo diferente te odeiam e são perigosos, o medo inerente e o ódio contra essas pessoas invisíveis é um resultado compreensível (mas errado).

Para nos ganhar, os políticos, às vezes com a ajuda da mídia, fazem seu melhor para nos manter separados, para manter os “outros” reais ou imaginários apenas como um “conceito”. Porque se passarmos tempo com os outros, falarmos com eles e comermos com eles, aprenderemos que são como nós: humanos com todas as forças e fraquezas que possuímos. Alguns são fortes, alguns são fracos, alguns são engraçados, alguns são burros, alguns são bons e outros nem tanto.

O medo é ilógico e muitas vezes burro

Muitas vezes, meus pacientes com fobias começam com: "Eu sei que é estúpido, mas tenho medo de aranhas." Podem ser cães ou gatos, ou qualquer outra coisa. E eu sempre respondo: "Não é idiota, é ilógico". Nós, humanos, temos funções diferentes no cérebro, e o medo muitas vezes passa ao largo da lógica. Existem várias razões para isso. Uma é que a lógica é lenta e o medo é rápido. Em situações de perigo, devemos ser rápidos. Primeiro corra ou mate, depois pense.

Os políticos e a mídia frequentemente usam o medo para driblar nossa lógica. Sempre digo que a mídia dos EUA é uma pornógrafa do desastre – se empenha demais em despertar as emoções de seu público. São como reality shows políticos, surpreendendo a muitos de fora dos EUA.

Quando uma pessoa mata algumas outras em uma cidade de milhões, o que é obviamente uma tragédia, a cobertura das grandes redes pode levar alguém a achar que a cidade toda está sitiada e insegura. Se um imigrante ilegal sem documentos assassinar um cidadão americano, alguns políticos usam o medo esperando que poucos perguntem: “Isso é terrível, mas quantas pessoas foram assassinadas neste país por cidadãos americanos só no dia de hoje?” Ou: “Sei que vários assassinatos acontecem toda semana nesta cidade, mas por que estou tão assustado com este que está sendo mostrado pela mídia? ”

Não fazemos essas perguntas, porque o medo ignora a lógica.

O medo pode se tornar violento

Há uma razão pela qual a reação ao medo é chamada de “lutar ou fugir”. Essa reação nos ajudou a sobreviver aos predadores e a outras tribos que queriam nos matar. Mas, novamente, é outra brecha em nossa biologia a ser abusada com o objetivo de ativar nossa agressão contra “os outros”, seja na forma da vandalização de seus templos ou de assédio contra eles nas mídias sociais.

Quando as ideologias conseguem se apossar de nossos circuitos de medo, muitas vezes regredimos a animais humanos ilógicos, tribais e agressivos, transformando-nos em armas – armas que políticos usam para sua própria agenda.

Arash Javanbakht é professor-assistente de psiquiatria na universidade de Wayne State

The Conversation