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O jornalista Mário Filho foi determinante na popularização do futebol
 

Durante o primeiro governo Vargas (1930-1945), a sociedade brasileira passava por profundas transformações econômicas, sociais, políticas e culturais. Autores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior procuraram compreender tais transformações e interpretar o Brasil através da reafirmação das raízes da nação brasileira. A colonização, a sociedade patriarcal, a evolução das relações sociais e econômicas foram algumas das temáticas abordadas. Cada um à sua maneira buscava através da história compreender as especificidades da sociedade brasileira e, desta forma, introduzir o país na modernidade.

Mário Filho não estava alheio aos debates do meio intelectual. Em 1938, já escrevia sobre esportes há 11 anos. Nesse período, ajudou a criar uma cultura esportiva entre os seus leitores patrocinando campanhas, concursos, gincanas e prêmios; e principalmente escrevendo textos, sempre afetivos e pessoais, que aproximavam os heróis dos eventos ao cotidiano de seus leitores. Naquele momento, dirigia a parte esportiva do jornal O Globo, de Roberto Marinho, e era proprietário e editor chefe do Jornal dos Sports. Com a aproximação da Copa do Mundo na França, a ser realizada em meados daquele ano, Roberto Marinho resolveu criar mais um periódico, semanal e dedicado exclusivamente aos esportes, que também ficaria sob responsabilidade de Mário Filho. Surgiu assim O Globo Sportivo.

Na Copa da França, o futebol adquiriu uma popularidade jamais vista até então: todos os jornais divulgaram o acontecimento; transmissões ao vivo foram feitas pelas rádios; bancos e comércios promoveram campanhas de donativos aos jogadores; agências de viagens organizaram excursões à França; nas vitórias contra os poloneses (6 a 5) e os tchecoslovacos (2 a 1), gritos de alegria e multidões cantando o hino nacional; na derrota contra os italianos (1 a 2), frustrações e choros de tristeza. Muitos jogadores tornaram-se heróis da noite para o dia, como Leônidas da Silva, também conhecido como “Diamante Negro”.

Para Mário Filho era o momento de reavaliar tudo que havia sido feito até então, e a oportunidade surgiu naquele momento, quando a Copa do Mundo impulsionou ainda mais o interesse dos leitores pelos assuntos esportivos. Apesar do terceiro lugar na competição, a sociedade havia sido mobilizada a cada jogo, não somente no eixo Rio-São Paulo, mas em diferentes regiões do país. Políticos, intelectuais, artistas passaram a prestar mais atenção àquela atividade considerada até então como de menor importância. As matérias ficaram mais densas. O Globo Sportivo se esmerou em proporcionar matérias desse feitio, mais aprofundadas, com uma profusão de biografias de jogadores, como Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Romeu Peliciari e Tim, eram narradas em diversas páginas e sempre como muitas fotos. Também ganhavam espaço matérias destinadas a desvendar o passado do futebol, os seus momentos mais marcantes.

 A fundação dos clubes, as grandes partidas, os títulos inesquecíveis, os craques do passado como Marcos Carneiro de Mendonça, Friedenreich, Welfare, Feitiço, Nilo, Fausto, tudo era motivo para a criação de crônicas que enaltecessem a grandiosidade do futebol pátrio. Aos poucos, um projeto de explicar toda a história do futebol brasileiro amadurecia.

Essas crônicas podem ser sintetizadas numa série escrita para a coluna “Da Primeira Fila”, publicada na seção esportiva de O Globo entre 1942 e 1949. Ali, o jornalista escreveu a história do futebol brasileiro, a partir do álbum de recortes do ex-goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, de sua coleção de periódicos antigos, de entrevistas com velhos jogadores e do que ele próprio assistira desde os seus tempos de torcedor. De sua coluna saíram os livros “Copa Rio Branco, 32” (1943), “Histórias do Flamengo” (1946), “O Romance do Foot-ball” (1949) e, antes deste, a sua obra máxima: “O Negro no Foot-ball Brasileiro” (1947).

 

Capa da primeira edição de “O negro no foot-ball brasileiro”, de Mario Filho, publicada em 1947.

No primeiro livro, o autor mostrou a importância para a sociedade brasileira da vitória da equipe nacional por 2 gols a 1 na Copa Rio Branco de 1932, realizada em Montevidéu, no Uruguai, contra a seleção anfitriã. Dois anos antes, os uruguaios tinham sido campeões da primeira Copa do Mundo (1930) e nos últimos dez anos ganharam duas olimpíadas (1924 e 1928) e três campeonatos sul-americanos (1923, 1924 e 1926). Eram sem dúvida, aos olhos da época, a melhor equipe de futebol do mundo. O time brasileiro estava desfalcado de seus principais jogadores, a maioria brancos, e foram substituídos por negros e mulatos. Mesmo assim a seleção venceu com dois gols de um jogador estreante: o negro Leônidas da Silva.

Já neste livro, Mário Filho mostrava a intenção de legitimar a sua obra através do contato com intelectuais e escritores de projeção. Para o prefácio, foi convidado José Lins do Rêgo, que escreveu: “Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martim. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação”. Para o escritor, ao ler o livro de Mário Filho, ele passava a acreditar no Brasil, “nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia espanto do mundo”.

Nessa mistura, bem à moda brasileira, ficava nítida a influência de Gilberto Freyre e de sua principal obra, “Casa-Grande & Senzala” (1933). Os trabalhos de Freyre possibilitaram uma visão original dos fundamentos do povo brasileiro ao estudar a participação do negro, do índio e do colonizador português na formação de uma sociedade ajustada às condições do meio tropical e da economia latifundiária. A sua mensagem, de um Brasil antirracista, representou um divisor de águas no processo cultural brasileiro, influenciando a ideologia oficial do primeiro governo Vargas ao compor a figura da “democracia racial”.

Mário Filho concordava com o sociólogo. A sua influência era evidente, convidando-o inclusive para escrever o prefácio de “O Negro no Foot-ball Brasileiro” (1947). Nele, Freyre apontava que a transformação do futebol em esporte nacional possibilitou a sublimação dos elementos irracionais da formação social e cultural brasileira. Foi o substituto de práticas mais primitivas existentes na cultura. Tornou-se o meio de expressão, moral e socialmente aprovado pelos brasileiros de energias psíquicas e de impulsos irracionais que sem o desenvolvimento do futebol “na verdadeira instituição nacional que é hoje, […] teriam provavelmente assumido formas de expressão violentamente contrárias à moralidade dominante”. Assim, o futebol funcionava como parte integrante do processo civilizatório da sociedade brasileira.

No livro propriamente dito, a influência freyriana era explícita. Nele, Mário Filho traçava um painel da história do futebol brasileiro: de uma prática social das classes médias e altas até se transformar num esporte popular. No meio desta narrativa se encontrava o negro que, primeiramente, apenas apreciava o “esporte dos brancos”; depois, passou a praticar nos clubes de subúrbio e, por último, se tornou em uma realidade irremediável que os “clubes dos brancos” tiveram que se curvar. Não foi um caminho fácil e sim tortuoso. Nele, jogadores como Friedenreich, Manteiga, Jaguaré, Fausto, Domingos e Leônidas apareciam como verdadeiros heróis, verdadeiros libertadores de todo um povo. Assim, fechava-se um período: o de transformar os negros em cidadãos de fato.

No final do livro, ao comentar a importância de Leônidas e Domingos, ele afirmava que não havia no futebol brasileiro “nem o mais leve vislumbre de racismo. Todos os clubes com os seus mulatos e os seus pretos”. Um preto marcava um gol, lá vinham os brancos abraçá-lo, beijá-lo. O gol era de um branco, os mulatos, os pretos, abraçavam, beijavam o branco. Mas, a influência da “democracia racial” não se restringia aos jogadores. Também se estendia aos torcedores e à sociedade em geral, pois “a paixão do povo tinha de ser como o povo, de todas as cores, de todas as condições sociais. O preto igual ao branco, o pobre igual ao rico”. O rico pagava mais, comprava uma cadeira numerada, não precisava amanhecer no estádio, não apanhava sol na cabeça, mas não podia “torcer mais do que o pobre, nem ser mais feliz na vitória, nem mais desgraçado na derrota”.

O futebol sintetizava, assim, a história da sociedade brasileira, possibilitando a sua definitiva vitória contra a escravidão e o racismo. Se a Princesa Isabel o fez juridicamente, foi o futebol que o fez socialmente, funcionando como um verdadeiro libertador da raça negra e possibilitando à sociedade brasileira viver uma “democracia racial” autêntica.

A primeira edição do livro saiu em 1947. Entretanto, como já mencionamos, o seu texto fora publicado no ano anterior no jornal O Globo, entre os dias 9 de maio e 21 de setembro de 1946, dividido em 66 capítulos, e inseridos na coluna “Da Primeira Fila”. A sua redação era bastante semelhante à que saiu em livro, contendo algumas diferenças estruturais e ortográficas.

Um dado interessante sobre a edição de 1947 é o que trata de sua divulgação. Segundo informações contidas no próprio livro: a tiragem foi de apenas 100 exemplares e mais 20 de cortesia. Será que a repercussão que a obra obteve nos anos seguintes se deveu somente à edição de 1947, conforme consagrado na bibliografia especializada? Afinal, poucos privilegiados tiveram acesso à obra. Por outro lado, as tiragens diárias de O Globo na época estavam acima de 20 mil exemplares. Isso possibilitava o maior acesso das classes trabalhadoras às histórias sobre o foot-ball brasileiro, contadas pelo aedo Mário Filho em suas crônicas.

Parece que o livro estava direcionado a outro público, seleto e restrito, e revelava a intenção do autor de ser reconhecido pelo meio intelectual.

Independentemente da origem do texto, do livro de 1947 ou das crônicas de O Globo publicadas um ano antes, e apesar do destaque dado ao futebol carioca, para os seus leitores, grande parte dos mitos sobre o futebol brasileiro teve aí a sua origem: o Fluminense como clube do “pó-de-arroz”, a formação do Flamengo a partir do Fluminense, o primeiro Fla-Flu, o futebol mulato de Friedenreich, a conquista do sul-americano de 1919 na segunda prorrogação, a vitória dos negros e mulatos do Vasco em 1923, o rebelde Fausto e a ascensão de Domingos da Guia e de Leônidas da Silva. Os dois últimos surgiam como os grandes heróis da narrativa; que conseguiram, depois de inúmeras tentativas de outros negros, conquistar a verdadeira democracia racial. Mais do que isso, ambos representavam a síntese do futebol brasileiro, possibilitando uma tensão fundamental para a caracterização e desenvolvimento do esporte. Se Domingos era mais apolíneo, e representava o jogador clássico, o controle e a ordem que permitiu o esporte se desenvolver. Era Leônidas, mais dionisíaco, com os seus floreios, dribles, emoção e instinto, que dotou o futebol de um estilo próprio, bem brasileiro.

A obra se tornou influente devido a inúmeros fatores. A legitimidade teórica oferecida por Freyre. A proximidade que ele estava de diversos mundos: dos trabalhadores, dos governantes e dos intelectuais. O fato de ser uma pessoa influente e poderosa dentro do meio jornalístico e político. As possibilidades materiais de divulgação de seus escritos. E, finalmente, a qualidade literária e a originalidade de suas análises.

Hoje “O Negro no Foot-ball Brasileiro”, seja a edição de 1947 ou a segunda edição, revisada e ampliada, publicada em 1964, é certamente a obra mais debatida, defendida e criticada já produzida no país sobre a temática do futebol brasileiro. No meio acadêmico, o livro é referência obrigatória de centenas de estudos que se defrontam sobre a temática. Muitos o consideram “uma obra de significativa importância para a história do futebol brasileiro (talvez a mais completa fonte historiográfica já levantada sobre o nosso futebol) e, mais que isso, uma contribuição valiosa para a compreensão de nossa identidade e cultura”. Para esses, o livro tem todo o estatuto reservado a uma obra considerada “séria”.

No outro extremo estão os que veem o livro como uma “história mítica que vai sendo atualizada adequando-se às demandas de construção de identidade e/ou às denúncias antirracistas, independentemente do piso sociológico, histórico ou antropológico do qual os textos afirmam partir”. Para muitos deles, não tem o mínimo valor “científico” e as fontes utilizadas não possuem qualquer veracidade. A obra não passa de uma crônica romanceada sobre o futebol carioca, transfigurado em futebol brasileiro.

Já outros, situados numa posição intermediária do debate, defendem que o livro seja tratado como um texto clássico, sujeito a debates e revisões; aliado a mesma tradição das obras realizadas por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior, que procuraram na mesma época interpretar o Brasil e o sentido de “ser brasileiro”. Ainda outros, fugindo ao debate específico sobre a história do futebol brasileiro, procuram enfatizar o tipo específico de linguagem utilizada no livro. Estes consideram que Mário Filho e sua obra foram uma espécie de Sherazade moderna, possibilitando a renovação da linguagem e dos recursos de representação dos fatos esportivos.

Obviamente, estamos diante de um dos assuntos mais polêmicos sobre a bibliografia do futebol no Brasil. Os debates em torno da obra são inúmeros. Entretanto, é necessário afirmar que o livro, principalmente a edição de 1947, consolidou uma representação que se tornou hegemônica do futebol brasileiro ao associar um ideal de integração nacional e racial com o profissionalismo, a astúcia, a habilidade e a mestiçagem do jogador patrício; em oposição a uma representação idealizada do futebol europeu que valorizava o jogo coletivo e a força.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio