Quase 25 anos depois da primeira conquista de uma torcida-escola de samba (Gaviões da Fiel em 1995), a vitória da Mancha Verde na Liga Especial do carnaval paulistano de 2019 representa a consolidação de um processo de convergência entre dois universos associativos populares. Ao mesmo tempo, a conquista inédita sinaliza para a capacidade de institucionalização das torcidas organizadas no calendário festivo de São Paulo, que em 2019 atingiu seu clímax com milhares de foliões e turistas pelas ruas da cidade “desvairada”.

A gênese de tal processo remonta aos anos 1970, com a criação dos primeiros blocos – Gaviões da Fiel e Torcida Jovem do Santos –, e se aprofunda na década de 1980, com a elevação de seu status para a condição de grêmios recreativos e culturais ou, por outra, para as chamadas escolas de samba. No decênio seguinte, idos de 1990, a transfusão e a interpenetração de identidade das torcidas para as escolas se generalizaram, com um total de sete escolas-torcidas a participar da elite do carnaval e do conjunto de divisões escalonadas pela Liga e pela Uesp (União das Escolas de Samba Paulistanas).

Apesar da entrada coletiva dos grupos torcedores nos desfiles oficiais do Anhembi, a visibilidade de tais agrupamentos permaneceu nos anos 1990 e início dos 2000 mais restrita aos Gaviões da Fiel, em função de quatro títulos conquistados nesse período (1995-1999-2002-2003). Para além do tetracampeonato da escola, associada à maior torcida organizada do Corinthians, é apenas nos anos 2010, com a chegada da Dragões da Real à primeira divisão, que a imagem das torcidas-escolas consegue se ampliar, com sua disseminação para outros grêmios e seu enraizamento de maneira mais perene.

A Dragões, vinculada à segunda maior torcida organizada do São Paulo, manteve desde 2012 um alto padrão técnico e se firmou entre as grandes do Grupo Especial. Com efeito, a escola tem ficado entre as cinco primeiras colocações ano a ano e, com isso, vem obtendo o direito de participar do desfile das campeãs, uma posição de prestígio no ambiente carnavalesco. Coloca-se, pois, lado a lado, ou mesmo desbanca, agremiações tradicionais, como a Águia de Ouro, a Rosas de Ouro e até a Vai-Vai, com 15 títulos conquistados em sua história.

Já a Mancha Verde, principal torcida organizada do Palmeiras, assistiu a uma espécie de gangorra, ao subir e descer de maneira consecutiva do Grupo Especial ao Grupo de Acesso. Já nos últimos anos estabilizou-se e, em 2018, depois de voltar aos altos estratos do samba, surpreendeu e angariou um vice-campeonato, ao perder para a bicampeã Acadêmicos do Tatuapé. Embora tenha mantido seu rumo do ano passado para cá, com alterações pontuais dos homens-chave responsáveis pela condução do Carnaval, o troféu conquistado não deixa de ser surpreendente.

Foto: Escola de Samba Mancha Verde/Divulgação

Uma das porta-bandeiras da Mancha Verde, campeã do carnaval paulistano de 2019.
 

Entendo que a vitória coloca novamente essa torcida, polêmica entre os palmeirenses e no meio futebolístico, no centro das atenções. Conhecida por seu elevado grau de agressividade – assim como suas congêneres Gaviões, Independente e Torcida Jovem –, a Mancha passa a ocupar o topo do Carnaval e, por consequência, a vitrine do reconhecimento pela opinião pública. Não se pode esquecer que há dois anos, poucos dias depois de encerrado o Carnaval, uma crise fratricida sobressaltou a torcida, ocasião em que Moacir Bianchi, fundador do grupo, foi assassinado com uma saraivada de tiros à queima roupa, após uma reunião na sede, em que ele próprio tentava apaziguar rixas internas e disputas de poder entre subgrupos torcedores.

Não obstante, em face do título em 2019, mesmo que a contragosto, os meios de comunicação são assim forçados a fazer a cobertura e a repercutir em âmbito nacional a existência dessa torcida-escola, com filmagens de seu pavilhão e de seus torcedores organizados. Estes últimos, como é sabido, são via de regra repelidos como bárbaros e vistos, no limite, como um mal a ser extirpado no futebol e na sociedade. Numa palavra, a contrapelo do estigma vivenciado, pode-se dizer que a conquista expõe ainda mais as cores e os símbolos dessa entidade, por assim dizer anfíbia, presente tanto no futebol como no Carnaval.

Um efeito interessante dessa migração dos estádios para as avenidas do samba é a relação que passa a ser estabelecida entre as torcidas organizadas e os clubes. Enquanto, no futebol, as torcidas são satélites das agremiações clubísticas, isto é, a existência das primeiras gira em torno e depende do calendário de jogos das segundas, no Carnaval sucede o inverso: as torcidas-escolas estão no centro gravitacional e tornam-se as legítimas representantes das comunidades clubísticas, mesmo que determinados dirigentes e parcelas de torcedores comuns não o queiram, nem com ela se identifiquem. Ser palmeirense, no Carnaval, implica aderir à escola de samba que o ocupa tal espaço no imaginário, qual seja, a Mancha Verde. Por extensão, o mesmo princípio vale para os corintianos com a Gaviões, para os são paulinos com a Independente e para os santistas com a Jovem.

Se entre as torcidas tradicionais a comunidade de origem é constituída pelo bairro – Vila Maria, Brás, Casa Verde, Vila Matilde, Peruche, Mooca, etc. –, entre as torcidas-escolas a adesão advém da base dos torcedores organizados e dos torcedores do clube, dispersos territorialmente, mas dispostos a segui-las nas quadras, nos barracões, nos ensaios e nos desfiles. Tanto é assim que, conquanto as escolas de samba mais antigas de São Paulo vejam com reserva essa autonomização das torcidas em escolas, seus mais novos concorrentes, agora emergentes, todos são unânimes em reconhecer que a entrada das novas associações carnavalescas alavancou o Carnaval de São Paulo, sempre inferiorizado ao do Rio de Janeiro.

De volta ao caso da Mancha, destaco dois aspectos do seu triunfo no Carnaval de 2019: o primeiro é a persistência, dir-se-ia quase individual e obsessiva, do presidente da agremiação, Paulo Serdan, fundador da torcida em 1983 e desde os anos 2000 empenhado no soerguimento da escola de samba e na continuidade da existência jurídica da torcida sob a forma de escola. À parte os juízos de valor que se possa fazer sobre sua personalidade, igualmente polêmica, interna e externamente à torcida, sua direção à frente da escola de samba em mais de uma década imprimiu a marca de muitos de seus enredos e cunhou um estilo de desfilar na avenida.

O segundo aspecto que gostaria de salientar é o apoio dispensado pela atual diretoria do Palmeiras, em particular da conselheira Leila Pereira, à torcida-escola. Por meio de sua empresa de crédito, a poderosa Crefisa, Leila tem patrocinado o desfile da Mancha Verde nos últimos três anos, com base no mecanismo de renúncia fiscal em cultura, a famosa e agora amaldiçoada Lei Rouanet. Convém ressaltar que a postura da direção atual é bastante distinta daquela adotada pelo presidente da gestão anterior do Palmeiras, Paulo Nobre, cuja relação com a torcida, mesmo no ano de 2014, em que a Mancha homenageou o centenário de fundação do Palestra Itália, foi cortada e reduzida a praticamente zero.

Ainda sobre os resultados do desfile em 2019, é evidente que a vitória da arquirrival Mancha Verde terá impacto reativo sobre a escola de samba corintiana Gaviões da Fiel. Já há 15 anos sem vencer, a tetracampeã vem tentando reencontrar-se com suas origens, como ocorreu este ano, ao reeditar o samba-enredo de 1994, cantado e cultuado nos estádios pelos seus torcedores: “A saliva do santo e o veneno da serpente”.

Para quem assistiu ao desfile da madrugada de sábado, dia 4 de março, impressionou o espetáculo feito pelos torcedores na arquibancada do Anhembi, lotada ao raiar do dia. Bandeirões desfraldados com a insígnia da torcida, milhares de microbandeiras pretas e brancas tremeluzentes, balões alçando os ares e sinalizadores enxameando de fumaça o céu foram registrados pela cobertura da Globo e presenciados pelos resistentes espectadores, após a noite em claro. Mesmo a forçada crítica da bancada evangélica nas redes sociais à dramatização religiosa da comissão de frente não foi suficiente para empanar o brilho de quem assistiu ao desfile entusiasmante.

Toda a festa protagonizada pela Gaviões na avenida – em especial, quando a bateria continuou, de forma imprevista e nada protocolar, a batucada percussiva pelas ruas da cidade após o encerramento do desfile – deverá ser ofuscada pela obtenção de uma medíocre nona colocação. Nos últimos anos, a escola tem patinado em posições medianas como esta, entre o sétimo e o décimo primeiro lugar, e parece plausível especular que alguma guinada ou mudança mais contundente venha a ser adotada, de modo a reconduzir a agremiação ao alto da hierarquia carnavalesca.

Eis um balanço sumário do Carnaval de São Paulo em 2019, à luz do significado da participação das torcidas-escolas nesse meio. A consolidação dessa presença, como sabemos, não deixa de estar suscetível à dinâmica e às contradições do associativismo popular, sempre em fazimento e refazimento, conforme entendia com sabedoria o historiador britânico Edward Palmer Thompson.

Aludo à tal dinâmica, instável e cambiante, pois vitórias são sempre provisórias. Para as torcidas-escolas, persistem delicados desafios da circulação de seus membros nos perímetros do Carnaval, quando se veem misturados aos rivais, uma vez que seus problemas de convivência são resilientes no tempo e no espaço e contêm o risco de transbordar da esfera do futebol para a do samba.

Cabem, por fim, questões desafiadoras a se interrogar daqui para  frente, que colocam à prova a institucionalidade desses agrupamentos: uma vez vitoriosos, serão os adeptos das torcidas-escola capazes de superar suas rivalidades mortais e seu fundamentalismo clubístico, estabelecendo padrões mínimos de convívio com as diferenças face a suas colorações identitárias? Estará disposta a maioria de seus seguidores a aprender com o lema maior do Carnaval, a saber, que as escolas devem se respeitar como coirmãs e jamais se tratar como inimigas?

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio