Foto: Divulgação/Museu Britânico

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Detalhe de uma placa de bronze do Benim do século 16, parte da coleção do Museu Britânico, em Londres
 

Museus com coleções da era colonial sempre souberam das partes brutais de suas biografias. Mas, por meio da purificação proporcionada pela distância histórica, escolheram ignorá-las. Os diretores de museus agora precisam repensar sua posição enquanto defensores de suas coleções, à luz de uma agenda política diferente que situa povos e seus patrimônios em uma paisagem pré-colonial, mas radicalmente alterada.

Ao aprender sobre patrimônio cultural, você será direcionado para a etimologia das palavras “herança” e “patrimônio”. Enquanto “herança” invoca algo que recebemos de antepassados, o “património” nos conduz ao patriarcado. Em francês, “patrie” se refere à terra natal, à pátria e, durante a era colonial, vastas faixas da África Ocidental foram colocadas sob este modelo conceitual francês nos século 19 e início do século 20. Objetos retirados da África Ocidental (a periferia) e trazidos para o centro/metrópole foram, portanto, conceituados como parte da identidade nacional do colonizador. Eles foram usados em uma série de Grandes Exposições e expostos com o objetivo de conquistar apoio para o projeto colonial. Depois, foram parar em coleções nacionais e privadas por toda a Europa.

O paradoxo imediato aqui é que, enquanto objetos da periferia eram bem-vindos no centro, as pessoas não eram muito. Desde a independência dos países da África Ocidental, ao longo do final dos anos 1950 e início dos 1960, a retenção de objetos e a simultânea rejeição de pessoas tornou-se cada vez mais tensa. Jovens migrantes não-documentados de antigas colônias francesas ficam a poucos metros do Museu do Quai Branly – Jacques Chirac, um museu em Paris lotado com seu patrimônio inacessível. Os migrantes são tratados com desprezo enquanto os objetos de suas terras natais recebem atenção em museus e são tratados com grande reverência. Os migrantes serão deportados, mas os objetos não serão repatriados. A terra natal é, portanto, apenas a terra dos objetos, não de pessoas.

a maneira pela qual os objetos africanos são mantidos e expostos nos museus ocidentais pode nos dizer muito sobre o legado do colonialismo e a relação ambivalente do Ocidente com suas antigas colônias. O que não se pode dizer é que proporcione a gerações de jovens na África subsaariana um rico repositório cultural à sua disposição

A África subsaariana tem um perfil demográfico único. Projeta-se que a região abrigará os 10 países com as populações mais jovens do mundo. A maioria dos líderes ocidentais gostaria de ver estados fortes e estáveis ​​na África Ocidental, estados que possam proporcionar aos seus cidadãos empregos, orgulho cultural e uma razão para permanecer em seus países e construir novos futuros. A devolução de objetos que estão nos museus pode se tornar central para essa construção de nação, desfazendo parte dos danos do projeto colonial e apoiando economias criativas emergentes.

Os objetos retirados da África Ocidental durante o período colonial trazem muitos marcadores, a maior parte deles problemáticos e racistas. Alguns objetos atuaram como catalisadores para o trabalho criativo de artistas ocidentais e, consequentemente, entraram no cânone artístico como lembretes e cenografia (vistos ao fundo em estúdios de artistas como Pablo Picasso). Os objetos que Picasso encontrou no Palais du Trocadéro em Paris foram a motivação para seu “período africano” no início do século 20, que produziu uma de suas obras mais famosas, “Les Demoiselles d'Avignon” (1907).

Para além da influência que a arte não-europeia teve em muitos artistas ocidentais, alguns objetos, como os Bronzes do Benim (saqueados do Reino do Benim, na atual Nigéria, pelos britânicos em 1897) entraram na história da arte global por mérito próprio, na condição de realizações tecnológicas e artísticas incomparáveis. Esse reconhecimento só se concretizou após um complicado período de ceticismo, quando historiadores da arte duvidaram que artistas africanos pudessem produzir um trabalho de tamanha sofisticação.

Assim, a maneira pela qual os objetos africanos são mantidos e expostos nos museus ocidentais pode nos dizer muito sobre o legado do colonialismo e a relação ambivalente do Ocidente com suas antigas colônias. O que não se pode dizer é que proporcione a gerações de jovens na África subsaariana um rico repositório cultural à sua disposição.

Independentemente do lado político das devoluções, pessoas nascidas na África subsaariana crescerão em um vibrante ambiente cultural de arte, fotografia, música e cinema pelas próximas décadas. No entanto, pelo colonialismo ter sido uma experiência humilhante para muitas pessoas que foram colonizadas, é simples entender por que recuperar o controle sobre seu patrimônio seria um passo na direção de um começo da cicatrização. A devolução de objetos culturais permitiria que se tivesse acesso com profundidade à arte e à sabedoria cultural de modo a alimentar as economias criativas dessas jovens nações.

Os atos de devolução em si são um símbolo de forte contrição, reabrindo o diálogo a respeito de erros do passado para melhor estabelecer relacionamentos para o futuro. Parece que, por trás das declarações sobre a natureza complicada do processo de devolução, encontra-se essa verdade mais complexa. Restos humanos já foram devolvidos de museus para que fossem sepultados com dignidade. Arte saqueada pelos nazistas foi confiscada de colecionadores desavisados e devolvida a famílias judias. Agora é a época de levar a sério o patrimônio colonial, porque o patrimônio registra as biografias de quem fez e adquiriu os objetos, lançando seus descendentes em relacionamentos morais no presente. Agora não é uma questão de “se”, mas “quando” os objetos serão devolvidos, e se isso acontece de bom grado ou por meio de um litigioso processo de resistência.

A defesa “cosmopolita” dos museus, feita por exemplo por Tiffany Jenkins em “Keeping Their Marbles” (mantendo seus mármores, em tradução livre) (2016), é de que apenas por meio da justaposição nos centros globais podemos realmente compreender a arte global e a experiência de ser humano. Isso pode ser verdade até certo ponto, mas as justaposições em si são problemáticas: o Museu Britânico, por exemplo, abriga suas coleções africanas no porão.

Os museus também estão abarrotados, e o que não é exibido fica abrigado em vastos armazéns. Até hoje, a lógica do museu não é de acesso e exibição, mas de aquisição e retenção. Os defensores do patrimônio do museu, os curadores, são nomeados com base no entendimento de que seu principal papel é proteger as coleções para as gerações futuras, definidas de forma restrita dentro do modelo dos Estados-nação. Talvez, se os curadores dos museus pudessem repensar seu papel a fim de incluir descendentes dos colonizados, assim como os colonizadores, eles poderiam ajudar a reformular uma ética de herança que está atenta aos desafios das mudanças demográficas globais.

Charlotte Joy é professora de antropologia na Goldsmiths, Universidade de Londres. Ela é a autora de “The Politics of Heritage Management in Mali: From UNESCO to Djenné” (A política de gerenciamento de patrimônio no Mali: da Unesco a Djenné, em tradução livre) (2012).

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