Foto: Reprodução

A escritora Marie Kondo
A escritora Marie Kondo
 

Inspirada por um episódio de “Ordem na casa com Marie Kondo”, na Netflix, limpei as gavetas da minha cômoda no final de semana. No geral, foi uma maneira satisfatória de fugir das obrigações de trabalho (a mesma razão pela qual estava assistindo Netflix). No entanto, apesar do meu escritório mais limpo, acho insuportável a popularidade da “arrumação” de Kondo. Vivemos tão inundados de coisas, aparentemente sem graça, que a promessa de obter alegria por meio da limpeza doméstica nos atrai. O fascínio cultural motivado por Kondo me soa profundamente perturbado.

Como estudiosa de filosofias do Leste Asiático, um padrão na moda Kondo é familiar demais: a suscetibilidade dos americanos ao bom senso básico, se ele puder vir permeado por uma aura “oriental” quase mística. Kondo é, de várias maneiras, um sr. Miyagi para a era consumista ansiosa do capitalismo recente. Ao contrário do "Karatê Kid", somos atormentados por nossos próprios pertences em vez de praticantes de bullying — mas, assim como o sr. Miyagi podia fazer do enceramento de carros uma maneira de encontrar força e coragem, Marie Kondo pode magicamente transformar o ato de dobrar camisetas ​​em um caminho na direção da satisfação pessoal ou até da alegria. O processo pelo qual as atividades mundanas são transmutadas em um bem-estar aprimorado é misterioso, mas o fascínio vem muito desse mistério, que ajuda a tornar palatável a sabedoria mundana. Dobrar roupas enquanto estratégia organizacional é tedioso. Mas dobrar roupas como um plano de vida permeado de misticismo é atraente. Não é sobre as roupas. É sobre tudo ao mesmo tempo.

A nível prático, como professora que regularmente ensina filosofias do Leste Asiático, morro um pouco por dentro toda vez que experimentamos um fenômeno cultural que contém um verniz de “sabedoria do Oriente”

Usos populares das filosofias do Leste Asiático tendem a expandir o que é circunscrito, a fazer pequenas sabedorias levarem nas costas toda a sabedoria. É assim que o antigo teórico militar Sun Tzu pode acabar orientando seu plano de previdência, treinando o time de futebol de seu filho, melhorando seu casamento ou até criando seus filhos. “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, foi usado para conselhos de autoajuda em todos esses assuntos e muito mais. Na superfície, e também para experientes estudiosos da antiga história militar chinesa, pode parecer que Sun Tzu realmente só se interessa pela administração de conflitos violentos. Mas, em um nível mais profundo — ou seja, no nível que pode ser vendido para consumidores ocidentais crédulos — ele está, na verdade, abordando todos os mistérios da vida. O que parece uma simples instrução sobre espionagem em tempo de guerra talvez tenha algo a ensinar sobre nossos filhos. Para acessar esse significado mais profundo, precisamos presumir que a sabedoria “oriental” nunca é sobre isso ou aquilo, mas sempre sobre tudo. E, mais importante, na raiz, é tranquilizadora.

Pior do que os usos bizarros de Sun Tzu são as aparentemente infinitas coisas animadoras e estimulantes que Confúcio teria dito. Os memes de Confúcio, inspiradores de modo insosso, são agora tão numerosos e tão desligados da realidade que criaram um meta-meme, que diz: “Confúcio: nunca disse essa merda toda”. A maioria dos memes detalhando o que Confúcio “disse” traz pouco que seja estimulante ou levemente interessante. Mas é exatamente por isso que é tão importante acrescentar "Confúcio disse" a eles. Sem esse adendo, que nos prepara para receber um pouco da "sabedoria oriental", poderíamos acreditar que são apenas tediosas mini-homilias. Que, para ser claro, elas são. O pobre Confúcio aparece nesses memes com um místico gatinho oriental, pedindo que aguentemos firme!

A nível prático, como professora que regularmente ensina filosofias do Leste Asiático, morro um pouco por dentro toda vez que experimentamos um fenômeno cultural que contém um verniz de “sabedoria do Oriente”. Tendo absorvido o Oriente místico da cultura pop, os alunos chegarão às minhas aulas pedindo por uma iniciação mais profunda nos mistérios orientais. Ensinar esses buscadores de sapiência torna-se então um ato de desinflar expectativas.

Uma vez eu estava em uma feira de arte onde havia um estande vendendo tatuagens temporárias. Uma das tatuagens era um ideograma chinês que foi traduzido no rótulo de plástico da tatuagem como “vadia”, um item de arte corporal atraente para as garotas duronas entre nós, imagino. Exceto que uma tradução muito mais direta e precisa do personagem seria “prostituta”, ou talvez “puta”.

Ensinar alunos que se apaixonaram pela “filosofia oriental” por meio da miríade de Senhores Miyagi da nossa cultura é estar no lugar daquele que tem de avisar alguém que sua tatuagem diz “puta”. Será melhor que a tatuada fique sabendo, mas ela não vai te agradecer por isso. O orientalismo induzido pela cultura pop normalmente vai embora, mas a desmontagem do mito é muito menos atraente do que a construção dele. Me consolo que pelo menos o mercado-alvo de Kondo são pessoas de meia-idade, então talvez meus jovens alunos universitários não irão aparecer com essa “tatuagem” em particular.

De certa forma, admiro o impulso de ir além de tradições culturais familiares para buscar sabedoria, ou mesmo conselhos de estética doméstica. Tanto a vontade de melhorar a nós mesmos quanto a curiosidade de olhar para além de nossas próprias fronteiras parecem saudáveis. O problema, porém, é quando isso parece mais com uma nova versão daquilo que deu a origem a nossos problemas. O impulso distraído de adquirir o novo e o reluzente, assim como a desesperada esperança de que novidades podem aliviar o mal-estar consumista depressivo – é por isso que os clientes da Kondo têm suas casas lotadas de coisas. Temos lares tristemente atulhados de artefatos surgidos de uma infrutífera busca por felicidade, ou pelo menos um alívio do entorpecimento anticlimático. E a sabedoria do “Oriente” é há tempos comercializada para ocidentais que esperam escapar de suas doenças existenciais buscando o exótico, aquilo que promete ter mais significado do que o que eles têm ou podem encontrar localmente.

Para ser clara, minhas cínicas preocupações não são sobre a Kondo em si. Presumo que ela seja sincera no que oferece, e de fato espero que alguns possam achar seu aconselhamento realmente útil. É a natureza de sua atratividade para ocidentais que me faz pensar. Isso se manifesta de forma mais poderosa para mim quando reimagino o que ela oferece com uma aparência tipicamente americana. Antes de me tornar professora, às vezes ganhava meu sustento como empregada doméstica. E essa minha parte consciente de classe é ainda mais opositora quando se trata de fascinações com “arrumação”.

Em momentos mais fantasiosos, penso em desmembrar o próprio método KonMari, despojando-o da respeitabilidade da classe média que seu exotismo confere. No lugar da própria Kondo, imagino uma empregada cansada (as empregadas estão sempre cansadas) usando seus anos de “organização” para aconselhar uma família sobre como administrar seu material abundante demais. Ela apela à sua experiência tanto na limpeza quanto na vida — invocando, digamos, aquele tempo em que ela teve que reduzir o tamanho de um trailer duplo para um simples. (Muito antes do ‘movimento tiny house’ [de casas minúsculas]  — outro fascínio da cultura pop por aqueles sufocados por suas próprias coisas — muitas pessoas já moravam em pequenas casas, e essas são chamadas de trailers.) Minha empregada sábia usa sua competência organizacional anos de recuperação depois dos outros e sua longa prática na arte de se virar sem o novo ou o brilhante. Acima de tudo, ela está cheia de bom senso. Mas o que ela não promete, não pode prometer, é que limpar a casa lhe trará contentamento. Tampouco sugerirá que você descarte os pertences que não “despertem alegria”. E isso é realmente o problema.

Minha sábia empregada renunciará à conversa fiada de alegria e, em vez disso, usará uma linguagem mais dura e clara para avaliar todas essas coisas: ainda têm utilidade? A maior parte provavelmente tem, e o que não tem provavelmente era inútil desde o começo. Afinal, utilidade não é o principal critério para os hábitos de compra de muita gente. Entretanto, descobrir que você tem uma casa repleta de coisas úteis, mas nunca usadas, prometeria um tipo único de sabedoria. Ver isso não vai despertar alegria, mas a busca por alegria em todas essas coisas nunca foi uma boa estratégia de princípio. Isso também é sobre tudo ao mesmo tempo.

Amy Olberding é professora de filosofia na Universidade de Oklahoma. Seu último livro é “The Wrong of Rudeness” (O erro da grosseria, em tradução livre), com lançamento pela Oxford University Press em julho de 2019.

Aeon counter – do not remove

ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto traduzia a expressão “tiny house movement” como pequeno movimento da casa. Na realidade, a tradução correta é moda das mini-casas”. A correção foi feita às 19h12 de 25 de fevereiro de 2019.