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Historiadores lidam com a diferença: com o que é diferente do presente e com o que raramente atende aos padrões morais de hoje
 

Como qualquer pessoa no Twitter sabe, o público pode ser rápido para atacar, castigar e condenar. Em busca da superioridade moral, raramente concedemos ao outro o benefício da dúvida. Em seu discurso na cerimônia de formatura de Harvard de 2018, a romancista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie abordou o problema do julgamento apressado. Diante do que ela chamou de “‘uma cultura de ‘berro’, uma cultura de indignação”, ela pediu aos alunos que “lembrem-se sempre do contexto e nunca desconsiderem a intenção”. Ela poderia estar falando como historiadora.

A história, como disciplina, afasta-se de duas das principais maneiras de ler que dominaram as humanidades nos últimos cinquenta anos. Esses métodos têm sido produtivos, mas talvez eles também possam ser responsabilizados pela corrosiva falta de generosidade de hoje. As duas abordagens têm diferentes genealogias, mas compartilham uma característica significativa: no fundo, elas são contenciosas.

Um modo de leitura, descrito pela primeira vez em 1965 pelo filósofo francês Paul Ricœur e conhecido como “a hermenêutica da suspeita”, visa descobrir o significado ou agenda oculta de um texto. Seja inspirado por Karl Marx, Friedrich Nietzsche ou Sigmund Freud, o leitor interpreta o que acontece na superfície como um sintoma de algo mais profundo e duvidoso, da desigualdade econômica à ansiedade sexual. A tarefa do leitor é rejeitar o valor aparente de uma obra e mergulhar atrás de uma verdade submersa.

Uma segunda forma de interpretação, conhecida como “desconstrução”, foi desenvolvida em 1967 pelo filósofo francês Jacques Derrida. Ela se destina a identificar e revelar as contradições ocultas de um texto – ambiguidades e até mesmo aporias (contradições impensáveis) que não foram percebidas pelo autor. Por exemplo, Derrida detectou um viés que favorecia a fala em detrimento da escrita em muitos textos filosóficos influentes da tradição ocidental, de Platão a Jean-Jacques Rousseau. O fato de que textos escritos pudessem privilegiar o imediatismo e a verdade da fala era um paradoxo que revelava compromissos metafísicos ocultos no coração da filosofia ocidental.

O apelo à empatia pode parecer teoricamente ingênuo. No entanto, julgamos as intenções das pessoas o tempo todo em nossas vidas diárias; nós não podemos funcionar socialmente sem fazer inferências sobre as motivações dos outros

Essas duas formas de leitura colocam o leitor contra o texto. O objetivo do leitor passa a ser a descoberta de significados ou problemas que o trabalho não expressa explicitamente. Em ambos os casos, inteligência e probidade moral são exibidas às custas do que foi escrito. No século 20, essas abordagens permitiram que os críticos detectassem e denunciassem o funcionamento do poder em todos os tipos de materiais – não apenas nos sonhos que Freud interpretou, ou nos ensaios de Platão e Rousseau com os quais Derrida estava mais preocupado.

Eles, no entanto, fomentam uma atitude de promotoria entre acadêmicos e intelectuais no debate público. Como me disse um colega certa vez: “Eu estou sempre procurando o ato falho”. Ele examina os escritos de seus colegas para identificar quando eles tropeçam e traem seus problemáticos compromissos intelectuais. Uma frase mal escolhida pode manchar todo um trabalho.

Não surpreende que esses métodos tenham fomentado uma atmosfera bastante paranoica na academia moderna. O monitoramento mútuo das escolhas lexicais leva à ansiedade, à medida que um número crescente de palavras é colocado em uma “zona de exclusão”. Um erro é tomado como o sintoma do pensamento problemático; pode estragar não apenas um livro inteiro, mas talvez até a obra inteira do autor. Esse conjunto de atitudes não está tão longe dos ataques em grupo que testemunhamos nas mídias sociais.

A falta de compaixão no discurso público – a rapidez em julgar, a aversão ao contexto e à intenção – provém em parte daquilo que poderíamos chamar de humanidades “contenciosas”? Essas práticas de interpretação certamente podem ser encontradas em muitas salas de aula, onde os alunos aprendem a exercitar suas proezas morais e intelectuais desmantelando o que leram. Para os professores, mostrar aos alunos como desmontar um texto outorga autoridade; para os alunos, aprender a ler assim pode ser eletrizante.

No entanto, o estudo da história é diferente. A história lida com o passado – e o passado é, como escreveu o romancista britânico L. P. Hartley em 1953, “um país estrangeiro”. Por definição, os historiadores lidam com a diferença: com o que é diferente do presente e com o que raramente atende aos padrões morais de hoje.

A virtude de ler como um historiador, então, é que a crítica ou a negação não são o objetivo principal. Pelo contrário, a leitura histórica fornece algo mais desestabilizador: exige que o historiador coloque seus próprios valores entre parênteses.

O medievalista francês Marc Bloch escreveu que a tarefa do historiador é entender, não julgar. Bloch, que lutou na Resistência francesa, foi apanhado e entregue à Gestapo. O manuscrito de “Introdução à história”, onde ele expressou essa afirmação humana, ficou comoventemente inacabado: Bloch foi executado por um pelotão de fuzilamento em junho de 1944.

Como Bloch sabia bem, a empatia histórica envolve superar o abismo do tempo para compreender pessoas cujos valores e motivações são muitas vezes totalmente diferentes dos nossos. Significa conceder a essas pessoas o dom da benevolência intelectual – ou seja, a melhor interpretação possível do que disseram ou acreditaram. Por exemplo, uma crença na magia pode ser racional com base no conhecimento que se tinha da natureza em um certo período. No entanto, reconhecer isso exige mais do que apenas habilidade contextual, lingüística ou filológica. Requer empatia.

Não há inúmeras suposições psicológicas incorporadas neste modelo? O apelo à empatia pode parecer teoricamente ingênuo. No entanto, julgamos as intenções das pessoas o tempo todo em nossas vidas diárias; nós não podemos funcionar socialmente sem fazer inferências sobre as motivações dos outros. Os historiadores simplesmente aplicam essa abordagem às pessoas que já morreram. Eles invocam intenções não de um desejo de atacar, nem porque procuram razões para restringir o alcance de significados de um texto. Suas perguntas sobre intenções resultam, em vez disso, do respeito pelas pessoas cujas ações e pensamentos estão tentando entender.

Ler como um historiador, então, envolve não apenas uma teoria da interpretação, mas também um posicionamento moral. É uma tentativa de tratar os outros generosamente e estender essa generosidade mesmo àqueles que não podem estar hic et nunc – aqui e agora.

Para muitos historiadores (assim como outros dentro do que poderíamos chamar de humanidades “empáticas”, como história da arte e história literária), a empatia é uma prática da vida. Viver com as pessoas do passado muda a relação da pessoa com o presente. Na melhor das hipóteses, começamos a oferecer empatia não apenas àqueles que estão distantes, mas àqueles que nos cercam, mirando em nossa vida diária para “compreender, não julgar”.

É claro que é desafiador transmitir essas lições a alunos na adolescência ou início dos 20 anos, para quem os problemas do presente parecem especialmente urgentes e estimulantes. A ordem para ler com mais generosidade está bem fora de moda. Pode até ser entendida como conservadora: não é o passado que nos restringe? Não deveríamos rejeitá-lo? Não é mais útil aprender como desconstruir um texto e estar atento a significados latentes e perniciosos?

A leitura certamente não é um jogo de soma zero. Pode-se e deve-se cultivar múltiplos modos de interpretação. No entanto, a panaceia de que as humanidades ensinam “pensamento crítico e habilidades de leitura” obscurece as profundas diferenças em como disciplinas contenciosas e empáticas se envolvem com trabalhos escritos – e como eles nos ensinam a responder a outros seres humanos. Se as humanidades empáticas podem nos tornar mais solidários e caridosos – se podem nos encorajar a “sempre lembrar contexto, e nunca desconsiderar a intenção” – eles fornecem algo excepcionalmente útil para os dias de hoje.

Alexander Bevilacqua é professor-assistente de história no Williams College, Massachusetts. Ele é especialista na história cultural e intelectual da Europa moderna (c. 1450 a 1800). Seu livro mais recente é “The Republic of Arabic Letters: Islam and the European Enlightenment” (A república das cartas Árabes: Islã e o iluminismo europeu, em tradução livre) (2018).

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