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domesticando o burro
"Domesticando o burro", pintura de Eduardo Zamacois y Zabala, de 1868

No filme de animação da Pixar, “DivertidaMente”, a maior parte do enredo se desenrola dentro da cabeça da protagonista Riley, onde cinco emoções — alegria, tristeza, medo, nojo e raiva — direcionam seu comportamento.

O filme ganhou críticas muito entusiasmadas. Entretanto, o diretor Pete Docter admitiu depois que sempre lamentou que uma emoção não tenha entrado na versão final: a “schadenfreude”.

Schadenfreude, que literalmente significa “alegria que vem do dano”, em alemão, é o curioso prazer que as pessoas obtêm do infortúnio dos outros.

Você pode sentir isso quando a carreira de uma celebridade muito famosa vai para o buraco, quando um criminoso particularmente nocivo é preso ou quando uma equipe esportiva adversária é derrotada.

Há muito tempo, tentam entender, explicar e estudar essa emoção. Ela aparece em uma gama tão ampla de situações que parece quase impossível chegar a algum tipo de abordagem unificadora. No entanto, isso é exatamente o que eu e meus colegas tentamos fazer.

Os muitos rostos da ‘schadenfreude’

Um desafio continua a atormentar aqueles que pesquisam schadenfreude: não existe um consenso a respeito de sua definição.

Alguns acham que é melhor estudar a emoção no contexto da comparação social, então tendem a se concentrar no modo como inveja ou ressentimento interagem com a schadenfreude.

Outros veem a emoção através das lentes da justiça e da imparciabilidade, e se o sofredor mereceu seu infortúnio.

Finalmente, o último grupo acredita que a schadenfreude nasce de dinâmicas intergrupais – membros de um grupo que sentem alegria diante do sofrimento daqueles que estão fora do grupo.

Em nossa opinião, as diferentes definições apontam para múltiplos lados de schadenfreude, cada um dos quais pode ter origens distintas com relação a seu desenvolvimento.

O florescimento da ‘schadenfreude’

Talvez os roteiristas de “DivertidaMente”, quando decidiram descartar a schadenfreude, achassem que seria muito difícil para as crianças entendê-la.

Há evidências, no entanto, de que as crianças começam a vivenciar a schadenfreude no início da vida.

Por exemplo, aos quatro anos de idade, as crianças consideraram a infelicidade de outra pessoa – como tropeçar e cair em uma poça de lama –  mais engraçada se essa pessoa tivesse antes feito algo para machucar outras crianças, como quebrar seus brinquedos.

Pesquisadores também descobriram que crianças de dois anos de idade, aptas a ter inveja de um coleguinha, sentiam alegria quando essa colega sofria um contratempo. Aos sete anos, as crianças se sentem mais satisfeitas ao vencer um jogo se um rival tiver perdido do que quando ambos já venceram.

Finalmente, em um estudo de 2013, os pesquisadores fizeram bebês de nove meses observarem fantoches interagindo uns com os outros. Alguns fantoches “gostavam” dos mesmos tipos de comida que os bebês gostavam, enquanto outros tinham um conjunto diferente de gostos. Quando alguns fantoches “prejudicaram” os outros, os pesquisadores descobriram que os bebês preferiam ver os bonecos que não compartilhavam seus gostos se machucarem em vez daqueles que tinham gostos em comum.

Juntando tudo

Juntos, esses estudos mostram que a schadenfreude é uma emoção complexa que parece estar profundamente enraizada na condição humana.

Os psicólogos Scott Lilienfeld, Philippe Rochat e eu pensamos se haveria uma maneira de unificar as múltiplas facetas da schadenfreude sob um mesmo guarda-chuva.

Depois de um tempo, decidimos ver a schadenfreude como uma forma de desumanização – o ato de representar e ver a outra pessoa como menos que humana.

Quando a maioria das pessoas ouve o termo “desumanização”, eles provavelmente vão para o pior cenário: uma negação completa da humanidade do outro, um fenômeno relegado a câmaras de tortura, campos de batalha e propaganda racista.

Mas isso é um equívoco. Os psicólogos têm mostrado que as pessoas frequentemente vêem seu próprio grupo em termos mais humanos, e – de maneiras sutis – podem negar a plena humanidade àqueles que estão fora de seu grupo.

Em nossa revisão, levantamos a hipótese de que, quanto mais empatia alguém sente em relação a outra pessoa, menos probabilidade ela terá de sentir schadenfreude quando essa pessoa sofrer.

Então, para que alguém sinta schadenfreude em relação a outra pessoa – seja um rival, alguém em um grupo externo ou alguém que tenha cometido um crime –, ela precisará desumanizá-la de maneira sutil. Só então o infortúnio do sofredor se torna gratificante.

Esta teoria ainda não foi testada, então, no final de nossa revisão, sugerimos maneiras pelas quais as origens iniciais da schadenfreude e as diferenças individuais possam ser colocadas sob análise científica a fim de se estudar essa nova hipótese.

Relacionar schadenfreude com desumanização pode parecer sombrio, especialmente porque a schadenfreude é uma emoção tão universal. Mas a desumanização ocorre com mais frequência do que a maioria gostaria de pensar – e acreditamos que ela está por trás da pontada de prazer que você sente quando vê alguém fracassar.

Shensheng Wang é doutorando em Psicologia na Universidade de Emory

The Conversation