Foto: Ilya Naymushin/Reuters

alpinista
Viver com um chamado não respondido na vida é pior do que não ter nenhum chamado
 

“Olha. Você não pode planejar a vida. O que você precisa fazer é primeiro descobrir sua paixão — aquilo que realmente é importante para você.”

Barack Obama

Se você, como muitos, está procurando por seu chamado na vida – talvez você ainda esteja incerto sobre qual profissão se alinha com o que é mais importante – aqui estão cinco descobertas de pesquisas recentes que merecem ser levadas em consideração.

Primeiro, há uma diferença entre ter uma paixão harmoniosa e uma paixão obsessiva. Se você conseguir encontrar uma trajetória de carreira ou meta ocupacional que o excita, terá mais chances de ser bem-sucedido e encontrar a felicidade por meio de seu trabalho – é o que nos ensinou a bibliografia das pesquisas mais aprofundadas da área. Mas cuidado – desde um artigo pioneiro publicado em 2003 pelo psicólogo canadense Robert Vallerand com alguns colegas, os pesquisadores fizeram uma distinção importante entre ter uma paixão harmoniosa e uma paixão obsessiva.

Se você sente que sua paixão ou chamado está fora de controle, e que seu humor e auto-estima dependem dela, então ela é do tipo obsessiva, e tais paixões, enquanto que energizam, também estão associadas a resultados negativos como esgotamento e ansiedade. Em contraste, se você sente que sua paixão está sob controle, reflete qualidades pessoais que você gosta e complementa outras atividades importantes em sua vida, então esta é a versão harmoniosa, que está associada a resultados positivos, como vitalidade, melhor desempenho no trabalho, a experiência de fluxo e humor positivo.

Em segundo lugar, viver com um chamado não respondido na vida é pior do que não ter nenhum chamado. Se você já tem uma ambição ou propósito urgente, não deixe que ela definhe. Alguns anos atrás, pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida pesquisaram centenas de pessoas e as dividiram em grupos que achavam que não tiveram nenhum chamado na vida, que tiveram um chamado que haviam respondido ou que tiveram um chamado, mas nunca fizeram nada a respeito.  Em termos de engajamento no trabalho, compromisso com a carreira, satisfação com a vida, saúde e estresse, a principal descoberta foi que os participantes que não haviam respondido a seu chamado tiveram o pior desempenho em todas as medições. Os pesquisadores disseram que isso dá uma interpretação diferente nos supostos benefícios de ter um chamado na vida. Eles concluíram: “ter um chamado é apenas um benefício se for realizado, mas pode ser um prejuízo quando não for, mesmo em comparação a não ter nenhum chamado".

A terceira descoberta a ter em mente é que, sem paixão, a ousadia é “apenas uma dia-a-dia atarefado”. A ideia de que a ousadia é vital para o sucesso na carreira foi proposta pela psicóloga Angela Duckworth, da Universidade da Pensilvânia, que argumentou que pessoas determinadas muito bem-sucedidas têm uma persistência impressionante. “Ser ousado”, escreveu Duckworth em seu livro de 2016 sobre o tema, “é cair sete vezes e levantar oito”. Diversos estudos certamente mostram que ser mais consciencioso – mais autodisciplinado e trabalhador – está associado a maior sucesso na carreira. Mas isso é tudo o que significa ser ousado? Duckworth sempre enfatizou que existe aí outro componente vital que nos traz de volta à paixão – ao lado da persistência, ela diz que as pessoas corajosas também têm um “interesse maior” (outra maneira de descrever a existência de uma paixão ou de um chamado).

Se você continua sem chegar a lugar algum, talvez valha a pena dar atenção ao conselho de outros que dizem que nem sempre a energia e a determinação fluem da descoberta da sua paixão

No entanto, de acordo com um artigo publicado no ano passado, a medida padrão da ousadia não conseguiu avaliar a paixão (ou mais especificamente, a realização de paixão”) – e Jon Jachimowicz da Columbia Business School, em Nova York, e colegas acreditam que isso poderia explicar por que a pesquisa sobre a ousadia tem sido tão inconsistente (levando a alegações de que é um conceito exagerado e nada mais que a conscienciosidade reembalada). A equipe de Jachimowicz descobriu que quando mediam explicitamente a realização da paixão (o quanto as pessoas sentem que têm paixão pelo seu trabalho) e combinavam isso com uma medida de perseverança (uma consistência de interesses e a capacidade de superar contratempos), então os dois juntos conseguiam antecipar desempenho superior entre funcionários de empresas de tecnologia e estudantes universitários. “Nossas descobertas sugerem que a perseverança sem a obtenção da paixão é um mero trabalho sacrificante, mas a perseverança com a realização da paixão impulsiona os indivíduos para frente”", afirmaram.

Outra conclusão é que, quando você investe esforço o suficiente, pode vir a descobrir que seu trabalho se torna sua paixão. É bom ler sobre os benefícios de se ter uma paixão ou chamado na vida, mas, se você não tem uma, onde encontrar? Duckworth diz que é um erro pensar que, em um momento de revelação, ela irá pousar no seu colo, ou simplesmente ocorrer a você por meio da contemplação silenciosa – em vez disso, você precisa explorar diferentes atividades e interesses e se expor aos diferentes desafios e necessidades que confrontam a sociedade. Se você continua sem chegar a lugar algum, talvez valha a pena dar atenção ao conselho de outros que dizem que nem sempre a energia e a determinação fluem da descoberta da sua paixão – às vezes pode ser o contrário e, se você colocar energia suficiente em seu trabalho, então a paixão seguirá.

Considere, por exemplo, uma pesquisa repetida por oito semanas com empresários alemães, publicada em 2014, que encontrou um padrão claro – a paixão por seus empreendimentos aumentou depois que investiram mais esforços neles em comparação à semana anterior. Um estudo subsequente qualificou a descoberta, sugerindo que o efeito energizante do esforço de investimento surge apenas quando o projeto é livremente escolhido e há uma sensação de progresso. “Empresários aumentam sua paixão quando fazem progresso significativo em seu empreendimento e quando investem seu esforço de livre escolha”, disseram os pesquisadores.

Finalmente, se você acha que a paixão vem de fazer um trabalho de que gosta, provavelmente ficará desapontado. Considere de onde você acha que vem a paixão. Em um artigo disponibilizado no PsyArXiv, antes da publicação acadêmica, Jachimowicz e sua equipe fazem uma distinção entre pessoas que acreditam que a paixão vem de fazer o que você gosta (que eles dizem estar contido no discurso de formatura que Oprah Winfrey fez em 2008 em que disse que as paixões “florescem quando estamos fazendo o que amamos”), e aqueles que vêem isso como vindo de fazer algo em que você acredita ou valoriza na vida (como refletido nas palavras do ex-presidente mexicano Felipe Calderón que, em um discurso de formatura de 2011, disse “você tem que abraçar com paixão as coisas em que acredita e pelas quais está lutando”).

Os pesquisadores descobriram que as pessoas que acreditam que a paixão vem do trabalho prazeroso estavam menos propensas a sentir que haviam encontrado sua paixão (e mais propensas a querer deixar o emprego) quando comparadas a pessoas que acreditam que a paixão vem de fazer algo que você sente que importa. Talvez isso aconteça porque há uma superficialidade e efemeridade no trabalho feito por puro prazer – o que cai bem por um mês ou um ano pode não durar por tanto tempo – enquanto trabalhar em prol do que você se importa é um esforço atemporal que pode se alongar e sustentar você  indefinidamente. Pesquisadores concluem que seus resultados mostram “até que ponto indivíduos conseguem o nível desejado de paixão pelo trabalho pode ter menos a ver com seus empregos reais e mais com suas crenças sobre como a paixão pelo trabalho deve ser perseguida”.

Adaptação de um artigo originalmente publicado pela The British Psychological Society Research Digest.

Christian Jarrett é um neurocientista cognitivo que se tornou autor de ciência. Seu trabalho apareceu nas publicações New Scientist, The Guardian e Psychology Today, entre outras. Ele é editor do blog Research Digest, publicado pela Sociedade de Psicologia Britânica, e apresenta o podcast PsychCrunch. Seu último livro é “Personology: Using the Science of Personality Change to Your Advantage” (Personologia: usando a ciência da mudança de personalidade a seu favor, em tradução livre). Ele mora na Inglaterra.

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