Foto: Reprodução/Jim Thornton/The Herald-Sun Collection/Universidade da Carolina do Norte

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Ann Atwater e C.P. Ellis durante evento de discussão sobre integração racial da escola de seus filhos
 

Muitos dos meus melhores amigos acham que algumas das minhas crenças mais profundas sobre questões importantes são obviamente falsas ou até sem sentido. Às vezes, eles dizem isso na minha cara. Como ainda podemos ser amigos? Parte da resposta é que esses amigos e eu somos filósofos, e filósofos aprendem a lidar com posições na fronteira da sanidade. Além disso, eu explico e dou argumentos para minhas alegações, e eles pacientemente escutam e respondem com argumentos próprios contra as minhas e a favor de suas posições. Ao trocar razões na forma de argumentos, mostramos respeito uns aos outros e nos entendemos melhor.

Filósofos são estranhos, então esse tipo de discordância civilizada ainda pode parecer impossível entre pessoas comuns. No entanto, há histórias que dão esperança e mostram como superar grandes barreiras.

Um exemplo famoso envolveu Ann Atwater e C. P. Ellis em minha cidade natal de Durham, na Carolina do Norte. Ele é descrito no livro de Osha Gray Davidson, “The Best of Enemies” (O melhor dos inimigos, em tradução livre) (1996), e em um filme a ser lançado em breve. Atwater era uma mãe solteira, pobre e negra, que liderou a Operação Breakthrough, uma tentativa de melhorar bairros negros locais. Ellis era um pai igualmente pobre, mas branco, que se orgulhava de ser um Ciclope Exaltado [nomenclatura para chefe de unidade] da Ku Klux Klan local. Eles não poderiam ter começado mais distantes um do outro. Inicialmente, Ellis trouxe uma arma e capangas para reuniões em bairros negros da cidade. Certa vez, Atwater avançou para cima de Ellis com uma faca e teve de ser contida pelos amigos.

Ainda não conseguimos alcançar a todos. Mesmo os melhores argumentos às vezes são ignorados. Mesmo assim não devemos generalizar, concluindo apressadamente que argumentos sempre falham

Apesar do ódio mútuo, quando os tribunais ordenaram que Durham integrasse suas escolas públicas, Atwater e Ellis foram pressionados a co-presidir uma série de discussões públicas — que duraram oito horas por dia durante 10 dias em julho de 1971 — sobre como implementar a integração. Para se planejar para a provação, eles se encontraram e começaram a se fazer perguntas, respondendo com razões e ouvindo o que o outro tinha a dizer. Atwater perguntou a Ellis por que ele se opunha à integração. Ele respondeu que, principalmente, queria que seus filhos tivessem uma boa educação, mas a integração arruinaria as escolas. Atwater provavelmente ficou tentada a gritar com ele, chamá-lo de racista e sair bufando. Mas ela não fez isso. Em vez disso, ouviu e disse que também queria que os filhos dele — como os dela — recebessem uma boa educação. Então Ellis perguntou a Atwater por que ela trabalhou tão duro para melhorar a moradia para os negros. Ela respondeu que queria que seus amigos tivessem melhores lares e melhores vidas. Ele queria o mesmo para seus amigos.

Quando cada um escutou as razões do outro, perceberam que compartilhavam os mesmos valores básicos. Ambos amavam seus filhos e queriam uma vida decente para suas comunidades. Como Ellis diria mais tarde: “Eu costumava achar que Ann Atwater era a mulher negra mais malvada que já tinha visto... Mas, você sabe, ela e eu ficamos juntos um dia por uma ou duas horas e conversamos. E ela está tentando ajudar seu pessoal do mesmo modo que eu estou tentando ajudar o meu”. Depois de perceber o que tinham em comum, eles puderam trabalhar juntos para integrar as escolas de Durham de maneira pacífica. Em grande parte, conseguiram.

Nada disso aconteceu de modo rápido ou fácil. Suas discussões acaloradas duraram 10 longos dias. Eles não poderiam ter deixado seus empregos por tanto tempo se seus empregadores (incluindo a Duke University, onde Ellis trabalhava em manutenção) não tivessem lhes concedido licenças pagas. Eles também eram indivíduos excepcionais que tinham fortes incentivos para trabalharem juntos, bem como muitas virtudes pessoais, incluindo inteligência e paciência. Ainda assim, casos como esse provam que, às vezes, inimigos declarados podem se tornar grandes amigos e podem conquistar muita coisa para suas comunidades.

Por que liberais e conservadores não podem fazer o mesmo hoje? É certo que extremistas de ambos os lados do cenário político atual se escondem em suas câmaras de eco e vizinhanças homogêneas. Nunca ouvem o outro lado. Quando saem para fora, o nível da retórica na internet é horrendo. Trolls recorrem a slogans, xingamentos e piadas. Quando se dão ao trabalho de argumentar, seus argumentos muitas vezes simplesmente justificam o que se ajusta a seus sentimentos, além de sinalizar suas alianças tribais.

A disseminação de maus argumentos é inegável, mas não inevitável. Exemplos raros, mas valiosos, como Atwater e Ellis, nos mostram como podemos usar ferramentas filosóficas para reduzir a polarização política.

O primeiro passo é se aproximar. Filósofos vão a conferências para encontrar críticos que possam ajudá-los a melhorar suas teorias. Da mesma forma, Atwater e Ellis organizaram reuniões entre si para descobrir como trabalhar juntos em suas discussões. Todos nós precisamos reconhecer o valor de ouvir oponentes com atenção e cuidado. Precisamos então nos dar ao trabalho de conversar com esses oponentes, mesmo que isso signifique deixar nossas confortáveis vizinhanças ou sites favoritos.

Em segundo lugar, precisamos fazer perguntas. Desde Sócrates, filósofos são conhecidos tanto por suas perguntas quanto por suas respostas. E se Atwater e Ellis não tivessem feito perguntas um ao outro, nunca teriam aprendido que o que mais lhes importava eram seus filhos e aliviar as frustrações da pobreza. Fazendo as perguntas certas da maneira correta, podemos frequentemente descobrir valores compartilhados ou pelo menos evitar a interpretação errada de oponentes.

Terceiro, precisamos ser pacientes. Filósofos ensinam cursos por meses sobre um único assunto. Da mesma forma, Atwater e Ellis passaram 10 dias em rodadas de discussões públicas antes de finalmente se entenderem e valorizarem um ao outro. Eles também convidaram outros membros da comunidade a falar o quanto quisessem, assim como bons professores incluem perspectivas conflitantes e trazem todos os alunos para a conversa. Hoje, precisamos desacelerar e lutar contra a tendência de excluir visões concorrentes ou interromper e replicar com gracejos ligeiros e frases que diminuam os adversários.

Em quarto lugar, precisamos dar argumentos. Os filósofos normalmente reconhecem que devem possuir razões para suas alegações. Da mesma forma, Atwater e Ellis foram além de apenas anunciar suas posições. Eles se referiram às necessidades concretas de seus filhos e de suas comunidades para explicar por que mantinham suas posições. Em questões controversas, nenhum dos lados é óbvio o bastante para escapar de demandas por evidências e razões, que são apresentadas na forma de argumentos.

Nenhum desses passos é fácil ou rápido, mas livros e cursos online sobre raciocínio — especialmente em filosofia — estão disponíveis para nos ensinar como apreciar e desenvolver argumentos. Também podemos aprender por meio da prática, fazendo perguntas, sendo pacientes e dando argumentos em nossas vidas diárias.

Ainda não conseguimos alcançar a todos. Mesmo os melhores argumentos às vezes são ignorados. Mesmo assim não devemos generalizar, concluindo apressadamente que argumentos sempre falham. Moderados estão frequentemente abertos à razão em ambos os lados. Assim como o são aqueles exemplares muito raros que admitem que (como a maioria de nós) não sabem como se posicionar em relação a questões morais e políticas complexas.

Duas lições aparecem. Primeiro, não devemos desistir de tentar alcançar extremistas como Atwater e Ellis, apesar da extrema dificuldade. Em segundo, é mais fácil alcançar os moderados, portanto geralmente faz sentido tentar raciocinar primeiro com eles. Praticar em públicos mais receptivos pode nos ajudar a melhorar nossos argumentos, bem como nossas habilidades em apresentar esses argumentos. Essas lições podem nos ajudar a fazer a nossa parte na redução da polarização que prejudica nossas sociedades e vidas.

Walter Sinnott-Armstrong é um professor Chauncey Stillman de ética prática no Departamento de Filosofia e Instituto Kenan para Ética na Universidade Duke, na Carolina do Norte. Ele é professor no curso online da Coursera “Think again” e autor de “Think Again: How to Reason and Argue” (Pense outra vez: como raciocinar e argumentar, em tradução livre) (2018).

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