Foto: rawpixel/Unsplash

pernas
Entre os pesquisados, a raiva foi sentida na parte superior do tronco e a embriaguez, principalmente nas pernas
 

Tudo o que sentimos em nossos mundos externos e internos tem uma qualidade subjetiva distinta. Uma barulhenta explosão de raiva parece diferente do beijo carinhoso de um amante na bochecha. Mesmo atos de rotina, como ler um livro ou tentar lembrar o nome de um amigo de infância, são notavelmente diferentes. Esses e inúmeros outros sentimentos preenchem as ondas de nossa consciência e impulsionam buscas diárias, ajudando-nos a navegar pelo mundo. Buscamos coisas que nos façam sentir deleite e prazer e evitamos as coisas que causam estresse ou sofrimento, a menos que esperemos que venha prazer depois da dor. É intrigante, no entanto, como essas informações externas e internas são organizadas em estados subjetivos internos.

Há uma forte intuição de que nossa consciência reside dentro do corpo, especificamente em nossa cabeça. Isso pode ocorrer porque vários dos nossos órgãos sensoriais — olhos, ouvidos, nariz, papilas gustativas — estão localizados na cabeça. Os psicólogos Christina Starmans, agora na Universidade de Toronto, e Paul Bloom, na Universidade de Yale, em Connecticut, descobriram que, quando solicitados, adultos e crianças localizam um ser humano dentro da cabeça, mas quando são mostradas imagens de alienígenas cujos olhos estão em outro lugar, como na barriga, as pessoas apontam principalmente para os olhos, em vez de para a cabeça sem olhos, como a localização do “eu”. Corpo e mente não são separáveis. Em vez disso, operam em conjunto, fornecendo os blocos de construção de nossas vidas mentais. Por exemplo, até mesmo infecções corporais leves nos deixam confusos e fatigados, enquanto uma boa e exaustiva sessão de exercícios pode elevar nosso humor e nos fazer sentir, às vezes, eufórico.

O desenvolvimento da consciência a respeito de danos relacionados ao corpo pode ter, em última instância, aberto o caminho para o surgimento de formas mais avançadas de pensamento e processos conscientes, como a linguagem, o pensamento e o raciocínio

Recentemente, meus colegas e eu levamos essa ideia de consciência corporificada e procuramos mapear a “cartografia” de sentimentos conscientes no corpo (desenvolvendo nosso trabalho anterior sobre a base corporal das emoções). Primeiro geramos uma lista de 100 sentimentos comuns, tais como ver, respirar, fome, prazer e assim por diante, e pedimos aos participantes para localizar esses estados em seus corpos, colorindo as regiões de uma forma humana onde cada sensação era sentida. Nós também reunimos informações básicas sobre cada sentimento, como quão agradáveis eram esses estados, com que frequência eram vividos e o quão similares se parecem estados diferentes quando são experimentados.

Ficamos impressionados com a consistente cartografia dos sentimentos no corpo. Diferentes estados subjetivos tinham “impressões digitais” discerníveis de sentimentos corporais que eram claramente distintos um do outro. A raiva foi sentida na parte superior do tronco. Embriaguez foi sentida principalmente nas pernas. Prazer e emoções positivas foram sentida vivamente por todo o corpo. Como essas impressões digitais eram tão consistentes entre os entrevistados, há algumas evidências apontando para uma origem basicamente biológica —  e não aprendida — dos mapas corporais dos sentimentos.

Os mapas corporais eram indicativos da estrutura das paisagens mentais dos participantes. Quanto mais semelhantes as impressões digitais corporais de dois estados, mais semelhantes esses estados foram experimentados no geral – sugerindo uma ligação direta entre corpo e experiência consciente. Além disso, descobrimos que a maioria dos sentimentos estava imbuída de um tom emocional claro. Além de casos óbvios como amar ou ganhar, mesmo atos aparentemente inofensivos, como lembrar e falar, eram claramente agradáveis.

Crucialmente, os participantes relataram sentir estados emocionalmente agradáveis como gratidão e relaxamento com muito mais frequência do que os negativos. Isso sugere que, em geral, nossa disposição emocional é principalmente positiva e agradável, embora muitas vezes sejamos tentados a pensar o contrário. Isso pode resultar da controlabilidade de diferentes sentimentos. Nossos dados revelaram que sentimentos emocionalmente negativos eram mais difíceis de controlar do que sentimentos positivos. Emoções desagradáveis desencadeadas durante grandes eventos da vida podem simplesmente parecer mais aparentes para nós, porque temos pouco controle sobre isso. Nós tendemos a esquecer que, na maior parte, a vida é realmente bastante agradável, embora essas emoções possam ser simplesmente menos aparentes do que as emoções desagradáveis.

Esses resultados fornecem evidências convincentes da centralidade das respostas corporais na organização de nossos sentimentos conscientes. Embora a consciência emerja da função cerebral, e muitas vezes sintamos que a consciência está localizada no cérebro, a resposta corporal claramente contribui para uma ampla variedade de sentimentos subjetivos. Mas, claro, isso não significa que esteja tudo em nossos corpos. Pacientes cujos estados corporais não são transportados para o cérebro devido a, por exemplo, lesão na medula espinhal ou disfunção do sistema nervoso autônomo, obviamente não são desprovidos dos sentimentos da vida mental. Isso não seria possível se o corpo fosse a única fonte de nossos sentimentos. Pelo contrário, é toda a constelação do cérebro e do corpo, com suas vísceras, músculos e órgãos, que dá cor às nossas vidas internas, e simplesmente derrubar uma parte do sistema não é suficiente para causar seu mau funcionamento total. Sensações, percepções e memórias são partes importantes do quebra-cabeça da consciência também.

Por que os sentimentos se infiltraram em nossa consciência? O neurologista Antonio Damasio, da Universidade do Sul da Califórnia, propôs que os estímulos relacionados à emoção, do corpo ao cérebro, poderiam ter gerado os primeiros traços de consciência em nossos antigos ancestrais. A dor desencadeada por danos nos tecidos está entre os sinais de alerta mais importantes para um indivíduo. Os organismos que começaram a sentir tais disfunções em seus corpos teriam uma enorme vantagem, já que poderiam ter se retirado dos perigos e descansado para se recuperar quando feridos ou doentes. Essa centralidade da dor e dos sentimentos negativos em nossos espaços de trabalho mentais ainda é evidente – até hoje, a razão mais comum para visitar um médico é simplesmente não se sentir bem.

O desenvolvimento da consciência a respeito de danos relacionados ao corpo pode ter, em última instância, aberto o caminho para o surgimento de formas mais avançadas de pensamento e processos conscientes, como a linguagem, o pensamento e o raciocínio. E muitos dos nossos sentimentos não são nem um pouco privados. Saber o que está acontecendo em nossos próprios corpos é útil, mas rastrear os estados internos e as metas dos outros pode ser ainda mais. Da mesma forma, como nossos corpos sinalizam nossos estados internos para nós, eles também costumam comunicar nossos estados internos aos outros. Os seres humanos e muitos animais são capazes de ler as intenções, sentimentos e objetivos uns dos outros a partir de seu comportamento, como expressões faciais e corporais. Tal capacidade de promover a coesão social através da troca de emoções e outros estados mentais provavelmente já deu vantagens evolutivas significativas aos nossos antepassados, e pode até ser argumentado que uma consciência puramente privada seria de uso limitado. Não é, portanto, tão surpreendente que uma de nossas questões sociais mais comuns seja “Como você está?” — perguntando informações para a construção de modelos das mentes e corpos dos outros.

A consciência é um dos maiores enigmas para neurocientistas, psicólogos e filósofos, e até mesmo descobertas recentes não podem dizer como o cérebro e o corpo geram conjuntamente nosso mundo mental interno, a partir das várias contribuições. No entanto, eles mostram que precisamos começar a desvendar as interações entre o cérebro, se quisermos entender como a mente humana funciona.

Lauri Nummenmaa é professor associado de psicologia na Universidade de Turku, na Finlândia, onde lidera o laboratório de Sistemas de Emoções Humanas no Turku PET Center e no Departamento de Psicologia