Foto: Afolabi Sotunde/Reuters

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Entre pessoas casadas apenas 18% disseram que haviam levado mais de um ano para decidir que o outro era a 'pessoa certa'
 

Vivemos em uma era de informação. Em tese, podemos aprender tudo sobre qualquer um ou qualquer coisa apenas apertando um botão. Todas essas informações deveriam permitir que o tempo todo tomássemos decisões super informadas e guiadas por dados.

Mas a ampla disponibilidade de informações não significa que você realmente as use, mesmo que as tenha. Na verdade, décadas de pesquisa em psicologia e ciência comportamental descobrem que as pessoas facilmente fazem julgamentos precipitados em uma variedade de situações. As pessoas formam impressões duradouras de outros no espaço de milissegundos, avaliadores julgam professores em menos de um minuto e consumidores decidem sobre compras com base em pouca deliberação. Mesmo decisões sobre voto podem aparentemente ser previstas a partir de impressões preliminares formadas durante períodos de tempo incrivelmente breves.

Se essas descobertas parecem incríveis para você, uma pesquisa recente que eu e meu colega fizemos sugere que você não está sozinho. O imediatismo do julgamento humano geralmente surpreende as pessoas. Indivíduos não conseguem prever quão pouca informação eles e outros usam quando tomam decisões.

E essa desconexão pode ter implicações na vida cotidiana: afinal, reconhecer o quanto — ou quão pouco — de informação as pessoas realmente usam para fazer julgamentos e decisões pode influenciar o quanto você tenta compartilhar com os outros. Um candidato a emprego deveria ter uma noção de quanto do seu currículo empregadores em potencial irão realmente ler para que possa priorizar seus esforços de acordo com isso.

E ajudaria na hora de decidir a quantidade de informação que você deve obter ao tomar suas próprias decisões. Por quanto tempo você deve experimentar um serviço de assinatura antes de decidir se gosta o suficiente para pagar? Por quanto tempo você deve namorar um interesse amoroso antes de decidir se casar?

Comparando previsões e realidade

Em nossa pesquisa, meu colega Ed O’Brien e eu testamos se as pessoas podem antecipar corretamente a quantidade de informações que elas e outros usam ao fazer julgamentos variados. Constatamos constantemente que as pessoas ficaram surpresas com a rapidez com que fazem julgamentos e o quão pouca informação usam para fazer isso.

Em um estudo, pedimos aos participantes que imaginassem interações agradáveis ou desagradáveis com outra pessoa. Em comparação, pedimos a outro grupo de participantes que previssem quantas dessas interações precisariam ser experimentadas para determinar o caráter de alguém. Descobrimos que as pessoas acreditavam que precisariam de muitas interações para fazer esse julgamento, quando na verdade o primeiro grupo precisou de poucas.

Seria incapacitante examinar todas as informações disponíveis sobre um tópico toda vez que uma decisão fosse tomada. No entanto, compreender mal o quanto de informação realmente usamos para fazer nossos julgamentos tem implicações importantes para além da tomada de decisões boas ou ruins

Em outro estudo, pedimos a alunos de MBA que preenchessem inscrições para cargos de gerência hipotéticos e depois pedimos que profissionais de RH lessem seus materiais. Nossos candidatos escreveram e compartilharam muito mais material do que os profissionais da contratação acabaram lendo.

Também pedimos a pessoas que nunca foram casadas que previssem quanto tempo, depois de conhecerem seu futuro cônjuge, seria necessário para que decidissem que essa pessoa seria “a escolhida”. Um total de 39% dessas pessoas que nunca casaram ​​achavam que precisariam namorar essa pessoa por mais de um ano antes que se sentissem prontos para passar o resto de suas vidas com ele ou ela. Em comparação, pessoas casadas relataram ter feito esse julgamento muito mais rapidamente, com apenas 18% declarando que haviam levado mais de um ano para fazê-lo.

Previsões erradas semelhantes ocorrem quando serviços de assinatura são avaliados, com base em períodos de teste, quando se saboreia novas bebidas e se avaliam momentos de sorte, performances atléticas e notas acadêmicas. Em todos os casos, as pessoas acreditavam que usariam mais informações do que realmente precisaram.

Interpretando mal uma tendência humana

Há várias razões pelas quais as pessoas podem ter a impressão errada sobre a rapidez com que elas e os outros fazem julgamentos.

Uma possibilidade é a crença de que a mente humana processa as informações de forma crescente. Uma perspectiva ingênua pode imaginar que novas informações se acumulem em cima de informações antigas, até que algum limiar mental seja alcançado para a tomada de uma decisão. Na realidade, porém, pesquisas preliminares sugerem que o acúmulo de informações está muito mais próximo de uma função exponencial; as primeiras poucas informações passam por uma ponderação muito maior do que as informações posteriores.

Outra possibilidade é que as pessoas não percebem o quão rica e atraente é cada peça de informação separadamente. Na psicologia, isso é chamado de lacuna de empatia. Considere a questão de quantas interações são necessárias para você decidir se gosta e confia em alguém. Pode ser tentador acreditar que você avalia racionalmente cada interação como faria com uma estatística crua. Mas os encontros sociais são animados e envolventes, e a primeira experiência pode ser simplesmente tão absorvente a ponto de enviesar irrevogavelmente seu julgamento, tornando desnecessárias as futuras interações.

Reconhecendo a pressa no julgamento

Não está claro que decisões rápidas sejam sempre ruins. Às vezes, julgamentos precipitados são notavelmente precisos e podem economizar tempo. Seria incapacitante examinar todas as informações disponíveis sobre um tópico toda vez que uma decisão fosse tomada. No entanto, compreender mal o quanto de informação realmente usamos para fazer nossos julgamentos tem implicações importantes para além da tomada de decisões boas ou ruins.

Tome o problema das profecias auto-realizáveis. Imagine uma situação em que um gerente forma uma opinião provisória de um funcionário que, em seguida, se transforma em uma série de decisões que afetam toda a trajetória de carreira desse funcionário. Um gerente que vê um subalterno fazendo um pequeno passo em falso em um projeto insignificante pode evitar colocá-lo em projetos desafiadores no futuro, o que por sua vez prejudicaria as perspectivas de carreira desse funcionário. Se os gerentes não souberem o quanto estão inclinados a fazer julgamentos iniciais rápidos e com pouca informação, estarão menos propensos a eliminar esses ciclos auto-realizáveis ​​destrutivos pela raiz.

Outro exemplo pode ser a tendência humana de confiar em estereótipos ao julgar outras pessoas. Embora você possa acreditar que vai considerar todas as informações disponíveis sobre outra pessoa, as pessoas, na verdade, têm maior probabilidade de considerar muito pouca informação e deixar os estereótipos aparecerem. Pode ser uma falha entender a rapidez com que julgamentos são feitos que faz ser tão difícil eliminar a influência dos estereótipos.

A tecnologia moderna permite que virtualmente qualquer decisão tomada hoje seja mais informada do que a mesma decisão tomada há algumas décadas. Mas a confiança humana em julgamentos rápidos pode evitar essa promessa. Na busca por uma tomada de decisão mais informada, os pesquisadores precisarão explorar formas de encorajar as pessoas a desacelerar a velocidade do julgamento.

Nadav Klein é pesquisador de pós-doutorado na Harris Public Policy, Universidade de Chicago

The Conversation