Foto: Randy Fath/Unsplash

Grupo religioso amabatista constroí juntos em mutirão uma casa dos EUA
 

Há um certo ritmo no balanço das relações entre irmãos. A gente se ressente deles na infância. A gente dá apoio na vida adulta. A gente processa os irmãos depois de ler o testamento dos pais. E o coreógrafo dessa dança, como o de tantas outras, é a conocorrência. Quando fazemos pressão em nossos pais pedindo afeto e renda, estamos reivindicando recursos finitos. E, já que nossos irmãos também esperam por sua parte, inevitavelmente entramos em conflito com eles.

O que está implícito na infância e é frequentemente explicitado no fim da vida adulta, quando o patrimônio da família é dividido e alguém não fica feliz com seu quinhão, é que nessas horas estamos concorrendo com nossos irmãos, acima de qualquer coisa; pessoas que moram em outras casas não têm direitos sobre os recursos de nossos pais, nem temos direito aos bens dos pais deles. Nesse longo e feliz período entre infância e herança, entretanto, precisamos, em vez disso, nos preparar para trabalhar e amar postulantes de fora da família. Assim, a concorrência entre irmãos acalma e nossos irmãos e irmãs tornam-se nossos amigos também.

Temos mais chance de dividir cópias de nossos genes com parentes de sangue do que com qualquer outra pessoa. Isso cria um interesse comum no seu sucesso, porque a produção de sobrinhas e sobrinhos é simultaneamente a reprodução dos nossos genes. E então, no decorrer da evolução, genes que motivaram seus portadores a se importar especialmente com seus parentes foram parar em todos os lugares, de micróbios a plantas e animais, incluindo seres humanos. De fato, o zoólogo americano Richard Alexander, que morreu recentemente, uma vez escreveu que nós “deveríamos ter evoluído para nos tornarmos nepotistas excessivamente eficientes, e deveríamos ter evoluído para ser apenas isso”. Consequentemente, irmãos raramente se matam. Mas, quando o fazem, o motivo é geralmente concorrencial.

O psicólogo canadense Martin Daly, que quando bebê foi enterrado vivo (por pouco tempo) pela própria irmã, estudou fratricídios – seres humanos que matam seus irmãos – com sua falecida esposa e colega psicóloga Margo Wilson. Os únicos casos que eles encontraram em registros etnográficos eram de sociedades agrícolas com herança patrilinear: sociedades em que a riqueza poderia ser acumulada e o acesso a ela seria limitado por parentesco, intensificando assim a concorrência dentro das famílias. A maior parte desses assassinatos eram disputa sobre propriedade e autoridade, um tema que eles descobriram de novo, mais tarde, em fratricídios em sociedades industrializadas.

Pessoas que se conhecem, mas não têm parentesco, matam-se com muito mais frequência, é claro, e por muito menos. Homens, que são os principais causadores de violência letal em qualquer lugar, já despacharam outros homens por causa das menores provocações: um empurrão, um insulto, uma olhada de desaprovação. Tais disputas são tão comuns e imprevisíveis que criminologistas as colocaram em uma categoria própria de motivação, a nebulosa “altercação de origem relativamente trivial”. Para os homens envolvidos, entretanto, há pouco de trivial nelas. Elas são um reflexo da concorrência por status entre vizinhos e os benefícios muito reais que vêm com ela, tais como dinheiro e poder.

A concorrência ganha escala de acordo com a paisagem, fazendo surgir contornos com limites restritos ou amplos, dependendo do recurso. Candidatos a uma promoção interna na fábrica local trabalham no mesmo prédio e provavelmente moram na mesma cidade, criando competição local: as pessoas com quem interagimos diretamente são também nossos concorrentes mais próximos. Entretanto, candidatos para uma contratação externa em uma empresa de tecnologia multinacional podem viver em qualquer lugar do mundo, criando uma competição global: o punhado de pessoas com quem interagimos não são mais concorrentes do que os muitos outros que nunca teremos chance de conhecer.

A concorrência local trava a cooperação, enquanto a global a estimula. Vemos isso na evolução da agressão nas vespas-do-figo competindo pelos mesmos parceiros. Mas também vemos isso em humanos, em experimentos em que as pessoas participam de jogos econômicos, seja tomando decisões mutuamente benéficas que ajudam, seja tomando decisões egoístas que prejudicam as chances de seus parceiros de conseguir dinheiro ganhando pontos. Em diversos estudos, participantes fazem escolhas egoístas no âmbito da concorrência local, quando ficam sabendo que precisam superar seus parceiros para ganhar dinheiro. Por outro lado, eles fazem escolhas mais cooperativas se competem globalmente, quando precisam ganhar pontos em relação à metade superior de todos os participantes – não importando o desempenho de seus parceiros.

Os efeitos da concorrência local são especialmente severos diante da desigualdade. Alguns recursos têm mais valor que outros, criando desigualdade entre aqueles que os ganham e aqueles que não ganham, portanto eles valem um esforço maior. Mas a competição local amplifica esse efeito, fazendo com que pequenas diferenças nas apostas tenham grande influência. Em meu próprio trabalho, participantes em um jogo econômico fizeram escolhas egoístas com mais frequência à medida que a desigualdade aumentou, levando-os a “brigar” com seus parceiros e perdendo pontos. Entretanto, eles brigaram com mais frequência no âmbito da concorrência local, mesmo quando a desigualdade entre eles era pequena, perdendo muitos pontos como consequência.

Isso pode bem explicar alguns padrões intrigantes na violência do mundo real. Em seu livro “Killing the competition” (Matando a concorrência, em tradução livre) (2016), Daly demonstra que taxas de homicídio são altas em lugares com níveis maiores de desigualdade e mais baixas em locais com menos desigualdade. Se, entretanto, a concorrência local amplifica o efeito da desigualdade nos homicídios e a concorrência global o silencia, então mudanças no comércio e nas migrações – espalhando a competição por extensões maiores da população – podem romper a correlação simples que esperamos que exista entre desigualdade e homicídios depois de um tempo. A desigualdade pode crescer, por exemplo, ao mesmo tempo em que a concorrência se torna global, com esta última reduzindo fortemente o impacto da primeira.

A mesma lógica também pode explicar a guerra civil. A desigualdade por todo um país não ajuda a prever o risco que um grupo de habitantes tem de pegar em armas contra o governo. Mas a desigualdade entre aquele grupo e o que governa, sim. É uma extensão simples da lógica competitiva: a concorrência é de certa forma global, e os concorrentes usam redes locais de participação em grupos, tais como a etnicidade, às custas de outros grupos. Assim, com a ajuda da desigualdade, a concorrência global transforma a cooperação nos níveis inferiores da organização social em conflito nos patamares mais altos.

O modo como a concorrência é distribuída por uma sociedade tem uma influência enorme, embora ignorada, em nossas vidas. À medida que ela se concentra em lares e bairros, ela ocasiona discórdia familiar e ruas hostis. Conforme se espalha para longe do seu centro, entretanto, seus efeitos se enfraquecem, e gestos de boa vontade e confiança surgem em seu lugar. A própria existência de cidades, corporações e governos é prova do poder desse espalhamento da concorrência, por serem construídas em cima das rivalidades com outras pessoas, em outros lugares.

D B Krupp é professor-assistente de criminologia e diretor no Salt Lab na universidade Lakehead, em Ontário, além de conselheiro de evolução e governança na One Earth Future.

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