Foto: Pilar Olivares/Reuters

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Pessoas tendem a se declarar mais felizes e autênticas sempre que se comportam de maneira mais extrovertida
 

Por décadas, psicólogos de personalidade repararam em um padrão consistente e marcante: extrovertidos são, em geral, mais felizes do que os introvertidos. Qualquer interessado em promover o bem-estar começou a se perguntar se poderia ser benéfico encorajar pessoas a agirem de maneira mais extrovertida. As evidências até agora sugeriram que, talvez, sim.

Por exemplo, independentemente da disposição costumeira, as pessoas tendem a se declarar mais felizes e autênticas sempre que se comportam de maneira mais extrovertida (isto é, mais sociáveis, ativas e assertivas). Esta é uma mera correlação que poderia ser interpretada de diferentes maneiras. Mas estudos em laboratório também descobriram que impelir pessoas, incluindo os introvertidos, a agir mais como extrovertidos faz com que se sintam mais felizes e verdadeiros consigo mesmos.

Antes que comecemos todos a fazer nossas melhores interpretações de extrovertidos na busca por uma felicidade maior, no entanto, um time de pesquisadores liderado pelo psicólogo Rowan Jacques-Hamilton, na Universidade de Melbourne, escrevendo em um artigo em PsyArXiv, pediu cautela: “Até que tenhamos um entendimento bem fundamentado tanto das consequências positivas como negativas do comportamento extrovertido, defender qualquer uso na vida real do agir de modo extrovertido pode ser prematuro e potencialmente perigoso”.

Para ir fundo no tema, a equipe conduziu o primeiro experimento controlado aleatório de uma intervenção do tipo “ação mais extrovertida” mas, diferentemente de pesquisas prévias, ela olhou para além do laboratório na direção dos efeitos positivos e negativos nos sentimentos das pessoas no dia a dia.

De maneira aleatória, dezenas de participantes foram alocados ou para a condição de “agir como um extrovertido” ou para uma condição controlada de “agir de modo despretensioso, sensível, calmo e modesto”; a ideia era de que essa condição de controle iria encorajar a adoção de comportamentos que representassem vários outros traços importantes de personalidade, tais como amabilidade e estabilidade emocional.

“Até que tenhamos um entendimento bem fundamentado tanto das consequências positivas como negativas do comportamento extrovertido, defender qualquer uso na vida real do agir de modo extrovertido pode ser prematuro e potencialmente perigoso”

Rowan Jacques-Hamilton

Psicólogo, Universidade de Melbourne

Havia também um segundo grupo de controle que completou algumas das mesmas medidas, mas que não seguiu quaisquer instruções para mudar seu comportamento em relação ao que era normalmente.

Os verdadeiros objetivos do estudo não foram revelados aos participantes e eles não sabiam sobre as condições dos grupos em que não estavam incluídos. Para o extrovertido e os primeiros grupos de controle, o desafio era seguir as instruções de comportamento recebidas por sete dias ininterruptos, sempre que estivessem interagindo com outros em seu cotidiano (a não ser que o comportamento fosse inapropriado para a situação em que se encontravam).

Os participantes completaram as pesquisas iniciais e as subsequentes  a respeito dos seus sentimentos e comportamento. Por todo o período de sete dias do estudo, eles também responderam pesquisas psicológicas sobre o momento seis vezes ao dia, sempre que motivados por seus smartphones. Seus telefones enviavam lembretes periódicos para que alterassem seu comportamento de acordo com o grupo experimental em que estavam.

Para o participante médio, encontrar-se na condição de “agir como um extrovertido” era associado a emoções mais positivas (animação, alegria e entusiasmo) do que aquelas reportadas no grupo de controle mais calmo – tanto no momento quanto em retrospecto, na hora de rever a semana. Comparadas às segundas condições de controle, em que participantes se comportavam naturalmente, os benefícios do comportamento extrovertido foram percebidos apenas retrospectivamente. Na média, participantes na condição “agir extrovertido” também sentiram grande autenticidade momentânea e retrospectiva. Esses benefícios vieram sem quaisquer efeitos adversos como cansaço ou de emoções negativas.

“Assim”, escreveram os pesquisadores, “os principais efeitos da intervenção foram totalmente positivos, e não foram detectados custos do comportamento extrovertido no participante médio”. Em grande medida, as vantagens foram mediadas pelos participantes que agiam de modo mais extrovertido com mais frequência – entretanto, interessantemente, não por estarem em situações mais sociáveis: por exemplo, ao mudar a qualidade das suas interações sociais, não a quantidade.

Mas a história não termina aí. Os pesquisadores também olharam especificamente para os introvertidos em sua amostra para ver se os benefícios positivos aparentemente sem custo da intervenção “agir extrovertido” também se manifestaram para eles. Embora pesquisas anteriores tenham sugerido que tanto introvertidos como extrovertidos obtiveram benefícios ao agir de modo mais extrovertido, neste caso específico não foi assim.

Primeira e previsivelmente, introvertidos não foram bem-sucedidos em aumentar seu comportamento extrovertido tanto quanto outros participantes. E ao passo que introvertidos na condição “agir como um extrovertido” tiveram ganhos momentâneos em emoção positiva, eles não reportaram esse benefício em retrospecto, no fim do estudo. Ao contrário dos extrovertidos, eles também não mostraram ganhos momentâneos em autenticidade, e em retrospecto reportaram menos autenticidade. A intervenção “agir de forma extrovertida” também pareceu aumentar, retrospectivamente, os níveis de fadiga e experiência de emoções negativas dos introvertidos.

Jacques-Hamilton e sua equipe disseram que esses eram talvez os achados mais importantes – “introvertidos pré-dispostos podem colher menos benefícios de bem-estar, e talvez até incorram em alguns custos de bem-estar depois de agir de modo mais extrovertido”. Eles também ressaltaram que os mais introvertidos talvez não desejassem sentir emoções positivas com a mesma frequência que extrovertidos.

Entretanto, a ideia de que introvertidos pudessem ganhar ao aprenderem a ser mais extrovertidos, com mais regularidade, não está morta. Não apenas porque esse é apenas um estudo e mais pesquisas são necessárias, mas também porque aqueles agindo de modo mais extrovertido, afinal, ainda reportavam mais emoções positivas momentâneas do que o grupo de controle que tinha de se manter calmo. A incapacidade do grupo de reportar mais prazer em retrospecto poderia, afinal, refletir um viés de memória – talvez refletindo pesquisas anteriores, que mostravam que introvertidos não esperam que agir de modo extrovertido os faria se sentir bem.

Considere isso também: a intervenção de extroversão de tamanho único forneceu pouca orientação sobre como exatamente alcançar o objetivo de agir de modo mais extrovertido. É possível que uma versão menos intensa, junto com apoio e orientação para tornar quaisquer mudanças de comportamento mais corriqueiras (e, portanto, menos difíceis), poderia ajudar mesmo os mais retraídos a aproveitar os benefícios de se agir de modo mais extrovertido. “Ao permitir mais liberdade para se retornar a um ‘nicho restaurativo’ introvertido, uma intervenção menos intensiva pode também resultar em menos custos para o afeto negativo, autenticidade e cansaço”, acrescentaram os pesquisadores.

Christian Jarrett é um neurocientista cognitivo que escreve sobre ciência. Seu trabalho apareceu nos veículos New Scientist, The Guardian e Psychology Today, entre outros. Ele é editor do blog Research Digest, publicado pela Sociedade de Psicologia Britânica, e apresenta o seu podcast PsychCrunch. Seu último livro é “Personology: Using the Science of Personality Change to Your Advantage” (Personologia: usando a ciência da mudança de personalidade a seu favor, em tradução livre). Ele mora na Inglaterra.

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