Foto: Lucas Jackson/Reuters

iceberg
Iceberg flutua perto da costa da Groenlândia

Uma preguiçosa frase da moda – “É esse o novo normal?” – tem circulado à medida que eventos climáticos extremos se acumularam durante o ano passado. A resposta para ela deveria ser: é pior do que isso – estamos a caminho de eventos ainda mais frequentes e mais extremos do que vimos este ano.

Sabemos desde os anos 1980 o que nos aguarda. Se providências fossem tomadas na época para reduzir as emissões em 20% até 2005, um aumento da temperatura global de menos que 1,5 graus Celsius poderia ter sido conseguido. Mas nada foi feito, e o turbilhão de dados sobre o  clima que foi criado desde então apenas confirma e aprimora as previsões originais. Então, onde estamos agora?

Em novembro passado, a COP 23 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), em Bonn, reportou que o aquecimento em 3ºC até 2100 é agora a expectativa realista. Sem controle das emissões, estamos a caminho de presenciar o dobro dos níveis pré-industriais de CO2 (de 280 a 560 ppm, ou partes por milhão) em 2050 – dobrando de novo até 2100. Resumindo, estaremos gerando condições climáticas que foram sentidas pela última vez durante o período Cretáceo (145-65,95 milhões de anos atrás) quando os níveis de CO2 alcançaram mais de 1 mil ppm. O que isso poderá significar, uma vez que já sentimos tais níveis de CO2 em quartos de dormir à noite e em lugares lotados com pouca ventilação, e quando sabemos que, sob condições continuadas de uma concentração tão alta de dióxido de carbono, as pessoas sofrem problemas cognitivos severos?

Na realidade, o Cretáceo é um dos meus períodos geológicos favoritos. Nos deu os grandes montes e penhascos de giz que se estendem pela Europa. Nos deu figos, plátanos e magnólias. Gerou pequenos mamíferos, que de repente floresceram quando os então deuses da criação – triceratops, tiranossauros e seus primos – foram extintos no fim do período. Era também bastante quente, com temperaturas globais de 3 a 10ºC acima dos níveis pré-industriais.

O aumento de temperatura mais provável previsto pelas Nações Unidas, de 3ºC, resultaria em florestas crescendo no Ártico, e levaria à perda da maior parte das cidades costeiras graças à subida irreversível do nível do mar até o fim do século

Se vier a acontecer, qualquer nova era com um clima do tipo Cretáceo não iria ser exatamente igual ao original. Para começar, os continentes estavam então em posições muito diferentes: a Índia era uma ilha ainda milhares de quilômetros ao sul de sua ligação com a Ásia; um amplo oceano separava a África (com a América do Sul ainda colada) da Eurásia. Mas, em uma repetição do Cretáceo, muito provavelmente não haveria mais uma vez gelo nos polos, e os níveis do mar ficariam cerca de 66 metros acima dos atuais. Também veríamos a criação de vastos mares rasos e quentes com depósitos minerais, similares àqueles que produziram estratos com espessuras de 400 metros no Cretáceo antigo, à medida que, em lugar de mamíferos maiores que seriam extintos, répteis se espalhariam pelo globo e cresceriam em forma – uma adequada vingança dos dinossauros?

A única maneira que consigo conceber de humanos viverem em uma nova Era Cretácea é como um residual de cientistas e tecnólogos trabalhando em abrigos artificiais protegidos, um tanto como os habitantes da cidade invisível de Baucis, criada pelo escritor Italo Calvino, onde as pessoas vivem em pernas de pau acima das nuvens “contemplando fascinadas a sua própria ausência”.

Recentemente, soubemos da linha vermelha que os humanos irão atingir antes de nos aproximarmos de condições cretáceas. Em 2010, pesquisadores mostraram que nossa espécie não consegue sobreviver por mais que seis horas no que é chamada de temperatura de bulbo úmido de 35ºC. Bulbo úmido significa 100% de umidade, então não são os 35ºC como nós conhecemos. Mas, nos grandes cinturões agrícolas indianos dos rios Indo e Ganges, temperaturas perto de 50ºC, combinadas com 50% de umidade (o que equivale àquela temperatura de bulbo úmido de 35ºC), irão prevalecer dentro de décadas.

Enquanto isso deve acontecer em regiões agrícolas quentes, o mundo urbano irá enfrentar uma catástrofe talvez ainda maior. O aumento de temperatura mais provável previsto pelas Nações Unidas, de 3ºC, resultaria em florestas crescendo no Ártico, e levaria à perda da maior parte das cidades costeiras graças à subida irreversível do nível do mar até o fim do século.

É amplamente aceito agora, pelo menos entre os cientistas, que os seres humanos se tornaram agentes geológicos, vindo daí a designação de um novo período geológico: o Antropoceno. Contribuições humanas ao meio ambiente, incluindo fertilizantes artificiais de nitrogênio e CO2, atualmente ultrapassam os ciclos naturais. A noção popular de que assuntos humanos e geológicos são incomparáveis é desmentida pelo fato de que, muitas vezes, a Terra movimentou-se muito rapidamente. Dois grandes eventos de aquecimento – com um longo período de esfriamento no meio – encerraram a última Era do Gelo há 12.600 anos, por volta de 9.600 a.C. Ambos produziram picos de 10ºC em núcleos de gelo na Groenlândia. O primeiro aconteceu durante apenas três anos; o segundo, que anunciou as condições relativamente estáveis do Holoceno, aconteceu por um período de cerca de 60 anos.

Uma lição para hoje é que tal mudança repentina e duradoura para o clima tem consequências que duram milhares de anos. O primeiro aquecimento levou à formação de um enorme lago que se espalhou pela América do Norte, à medida que a camada de gelo Laurêntida derreteu e acabou estourando, levando a uma subida do nível do mar em larga escala, o que formaria os Grandes Lagos e as Cataratas do Niágara cerca de 2.500 anos mais tarde. A Grã-Bretanha foi finalmente separada da Europa 3.500 anos depois do início do Holoceno; e à medida que as camadas de gelo ao norte derreteram, a terra sob elas subiu. Isto continua acontecendo na Suécia hoje, ao ritmo de 1 centímetro por ano.

Esse período, o nosso período, é tecnicamente interglacial, e iria terminar de qualquer forma. Em geral, a Terra sempre foi violentamente instável, ou estavelmente hostil, por longos períodos, quente ou fria demais para a civilização humana. Não tivéssemos forçado as temperaturas globais para cima por meio das emissões de CO2, estaríamos muito provavelmente diante de uma nova Era do Gelo; do jeito que está, o Holoceno está terminando tão rapidamente quanto começou com um novo pico de temperatura ocorrendo durante durações humanas de vida normais.

Então, enquanto tagarelamos sobre o “novo normal”, precisamos reconhecer que não havia nada de “normal” sobre o Holoceno. Análises especializadas de como a civilização humana se desenvolveu durante o período benigno de 10 mil anos do Holoceno estão só agora virando  conhecimento comum. O geneticista David Reich está à frente, com seu relato “Who We Are and How We Got Here” (Quem somos e como chegamos aqui, em tradução livre) de 2018, que derruba vários mitos. Ele usa pesquisas baseadas em DNA antigo para ligar o movimento humano ao desenvolvimento da linguagem. Um conhecimento tão profundo do período defende que nosso problema não se resume às emissões de CO2 da era pós-industrial (aquecimento global, de qualquer maneira, provavelmente começou com a queimada de florestas na agricultura primitiva), mas insiste que o Holoceno foi um presente fora do comum à humanidade que exploramos e demos como certo. Estamos agora assistindo ao seu funeral.

Se formos evitar o sofrimento neste caminho para um novo Cretáceo, esta conscientização precisa se estender para muito além dos geólogos e biólogos que nos ensinaram de onde viemos e para onde, a não ser que mudemos, estamos indo.

Peter Forbes já escreveu sobre ciência para as publicações New Scientist, The Guardian, The Times, Scientific American e New Statesman, entre outros. Seu último livro, escrito em co-autoria com Tom Grimsey, é “Nanoscience: Giants of the Infinitesimal” (Nanociência: gigantes do infinitésimo, em tradução livre) (2014). Ele mora em Londres.

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