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idosa medieval
'Mulher idosa fiando', pintura de Michiel Sweerts do século 17
 

Talvez você tenha visto o desenho: dois trogloditas sentados do lado de fora da sua caverna talhando ferramentas de pedra. Um diz para o outro: “Alguma coisa não está bem certa — nosso ar é limpo, nossa água é pura, fazemos bastante exercício, tudo que comemos é orgânico e criado solto, e mesmo assim ninguém vive mais do que 30”.

O desenho reflete uma ideia comum sobre as expectativas de vida antigas, mas se baseia em um mito. No passado, as pessoas não estavam todas mortas aos 30. Documentos antigos confirmam isso. No século 24 a.C., o egípcio Vizier Ptahhotep escreveu versos sobre a desintegração trazida pela idade avançada. Os gregos antigos classificavam a idade avançada como uma das maldições divinas e lápides comprovam que se sobrevivia até bem depois dos 80. Trabalhos artísticos e estatuetas antigas também retratam pessoas idosas: curvadas, flácidas, enrugadas.

No entanto, não se trata do único tipo de prova. Estudos sobre povos tradicionais de hoje que vivem longe da medicina e dos mercados modernos, tais como os Hadza, da Tanzânia, e os Xilixana, do Brasil, demonstraram que a idade de morte é provavelmente bem mais alta do que a maioria das pessoas presume: por volta de 70 anos. Um estudo descobriu que embora existam diferenças em taxas de mortalidade em populações de períodos diferentes, especialmente por causa da violência, existe uma semelhança notável entre os perfis de mortalidade de diversos povos tradicionais.

Então o que parece é que os humanos evoluíram com uma expectativa de vida típica. As taxas de mortalidade em populações tradicionais são altas durante a infância, depois diminuem bruscamente e permanecem constantes até por volta dos 40 anos de idade. Depois, voltam a subir, chegando a seu pico por volta dos 70 de idade. A maior parte dos indivíduos permanece saudável e vigorosa por todos os seus 60 e além, até que o envelhecimento se instala, o declínio físico em que, se um fator não mata, outro logo virá para desferir o golpe mortal.

Então qual é a fonte do mito de que aqueles no passado devem ter morrido jovens? Uma delas tem a ver com o que escavamos. Quando restos humanos antigos são encontrados, arqueólogos e bioantropólogos examinam os esqueletos e tentam estimar seu sexo, idade e saúde geral. Marcadores de crescimento e desenvolvimento, tais como erupção dental, fornecem estimativas relativamente precisas de crianças. Com adultos, entretanto, estimativas se baseiam em degeneração.

Estima-se que se as três principais causas de morte na idade avançada hoje — doenças cardiovasculares, derrame e câncer — fossem eliminadas, o mundo desenvolvido veria um crescimento da expectativa de vida de apenas 15 anos

Conseguimos classificar instintivamente pessoas como “jovens”, “de meia idade” ou “velhas” com base na aparência e nas situações nas quais as encontramos. Do mesmo modo, bioantropólogos usam o esqueleto em vez de, digamos, cabelo e rugas. Chamamos a isso de “idade biológica”, já que nosso julgamento se baseia em condições físicas (e mentais) que vemos diantes de nós, que se relacionam a realidades biológicas daquela pessoa. Estas nem sempre irão se correlacionar com uma idade de calendário precisa, uma vez que as pessoas são todas, bem, diferentes. Aparência e habilidades estarão ligadas à sua genética, estilo de vida, saúde, atitudes, atividade, dieta, riqueza e uma multidão de outros fatores. Essas diferenças irão se acumular à medida que os anos passam, significando que uma vez que uma pessoa atinge a idade de aproximadamente 40 ou 50, as diferenças são grandes demais para permitir qualquer precisão que se aplique a todos os casos na determinação da idade do calendário, não importa se feita olhando uma pessoa em vida ou pelo método academicamente validado de análise do esqueleto. O resultado disso é que aqueles acima da meia-idade frequentemente recebem uma estimativa de idade em aberto, como 40+ ou 50+ anos, significando que poderiam ser qualquer coisa entre 40 e 104, ou por volta disso.

O próprio termo “idade média de morte” também contribui para o mito. Uma mortalidade infantil alta reduz a média em uma ponta do espectro da idade, e categorias abertas tais como “40+” ou “50+ anos” a mantêm baixa na outra. Sabemos que em 2015 a expectativa de vida média no nascimento variava de 50 anos em Sierra Leone a 84 anos no Japão, e essas diferenças se relacionam mais a mortes prematuras do que a diferenças em duração de vida total. Um método melhor de estimar um ciclo de vida é olhar para a expectativa de vida apenas na idade adulta, que remove a mortalidade infantil da equação; entretanto, a inabilidade de estimar a idade além de cerca de 50 anos ainda mantém a média menor do que deveria ser.

Estimativas de idade de arqueólogos, portanto, foram espremidas nas duas pontas do espectro etário, resultando que indivíduos que viveram seu ciclo de vida completo acabassem “invisíveis”. Isso significa que não temos sido capazes de entender inteiramente sociedades de um passado distante. No passado alfabetizado, indivíduos idosos funcionais, na maior parte das vezes, não foram tratados de modo muito diferente do que a população adulta em geral, mas, sem a identificação arqueológica dos idosos invisíveis, não podemos dizer se esse foi o caso em sociedades não alfabetizadas.

Meu colega Marc Oxenham e eu queríamos entender sociedades antigas de modo mais completo, então desenvolvemos um método para trazer à luz os idosos invisíveis. Esse método é aplicável apenas a populações de cemitério que mudaram pouco em relação à existência do cemitério e sem grande desigualdade entre os habitantes. Desse modo, pode-se presumir que as pessoas comiam alimentos similares e se comportavam de maneiras semelhantes com os dentes. Um cemitério assim é Worthy Park, perto de Kingsworthy, em Hampshire, onde anglo-saxões enterravam seus entes queridos cerca de 1.500 anos atrás. Ele foi escavado no início da década de 1960.

Medimos o desgaste nos dentes dessas pessoas. Então organizamos a população dos que mais tinham dentes gastos — os mais velhos — aos com os dentes menos gastos. Fizemos isso para toda a população, não apenas os mais velhos, para funcionar como controle. Então os comparamos a um modelo populacional conhecido, com uma estrutura etária similar, e alocamos os indivíduos com o maior número de dentes gastos às idades mais velhas. Ao corresponder os dentes de Worthy Park à população modelo, os idosos invisíveis logo se tornaram visíveis. Não apenas conseguimos ver quantas pessoas viveram até uma idade avançada, mas também quais tinham 75 anos ou mais, e quais tinham um pouco mais de 50.

Enxergar os idosos invisíveis levou a outras descobertas. É comum se sugerir que mais homens do que mulheres viveram até uma idade avançada no passado por causa dos perigos da gravidez e do parto, mas nossos estudos sugerem algo diferente. Aplicamos o método a dois outros cemitérios anglo-saxões — Great Chesterford, em Essex, e Mill Hill, em Deal, Kent — e descobrimos que, dos três indivíduos mais velhos de cada cemitério, sete eram mulheres e apenas dois eram homens. Ainda que não seja prova conclusiva, isso sugere que durações de vida mais longas para mulheres talvez sejam parte da condição humana.

Também examinamos o tratamento dos idosos em seus túmulos. Homens anglo-saxões eram frequentemente enterrados com armas enquanto mulheres eram enterradas com broches e joias, incluindo contas e agulhas. Isso sugere que homens eram identificados por suas qualidades marciais, enquanto mulheres eram admiradas por sua beleza. Os homens também mantinham ou melhoravam sua posição no túmulo muito além dos 60 anos, enquanto que o “valor” das mulheres chegava ao auge na década de 30 e declinava à medida que envelheciam. De forma intrigante, o tipo de item com maior chance de ser encontrado nos túmulos dos mais velhos e não dos jovens eram acessórios de cuidados pessoais. O mais comum deles eram pinças, e a maioria delas era enterrada com homens idosos. Isso significa que homens velhos se preocupavam com o visual? Ou que mulheres velhas estavam longe demais da beleza para serem ajudadas por pinças ou outros acessórios de cuidados pessoais? Descobertas como essas fornecem um vislumbre das vidas de pessoas do passado, um vislumbre que seria impossível sem a identificação dos idosos invisíveis.

O intervalo máximo de vida humana (aproximadamente 125 anos) praticamente não mudou desde que chegou. Estima-se que, se as três principais causas de morte na idade avançada hoje — doenças cardiovasculares, derrame e câncer — fossem eliminadas, o mundo desenvolvido veria um crescimento da expectativa de vida de apenas 15 anos. Um indivíduo que vivesse até os 125 teria sido algo extremamente raro no passado distante, mas não impossível. E algumas coisas a respeito do passado, tais como homens sendo valorizados por seu poder e mulheres por sua beleza, pouco mudaram.

Christine Cave é doutoranda em arqueologia na Universidade Nacional Australiana, em Canberra

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