Foto: Reprodução

narciso
Narciso se encanta pela própria imagem na pintura de John William Waterhouse
 

O narcisismo é definido como um amor próprio ou autocentrismo excessivo. Na mitologia grega, Narciso se apaixonou por seu reflexo na água: olhou por muito tempo e acabou morrendo. Hoje, a imagem por excelência não é alguém encarando seu reflexo, mas seu celular. Enquanto nos esforçamos em obter aquele filtro perfeito no Snapchat ou conferimos nossas curtidas no Instagram, o telefone celular se tornou um vórtex de mídia social que nos traga e alimenta nossas tendências narcisistas. Ou pelo menos é o que parece.

Acontece que há muito tempo as pessoas usam mídias para ver reflexos de si mesmas. Muito antes dos telefones celulares ou mesmo da fotografia, diários eram mantidos como uma maneira de entender a si mesmo e o mundo em que se vivia. Nos séculos 18 e 19, à medida que diários seculares se tornavam mais populares, habitantes de classe média da Nova Inglaterra, em especial mulheres brancas, escreviam sobre seus cotidianos e o mundo à sua volta. Esses diários não eram um local em que despejavam seus pensamentos e desejos mais profundos, mas um lugar para deixar crônicas do mundo social à sua volta – o que está acontecendo na casa, o que foi feito hoje, quem veio visitar, quem nasceu ou quem morreu. Os diários capturavam as rotinas da vida do século 19, com autoras particularmente focadas não em si mesmas, mas em suas famílias e comunidades de modo mais amplo.

O uso de diários, álbuns de recortes, álbuns de fotos, livros de bebês e mesmo projeções de slides sugere que há muito tempo usamos mídias como maneira de criar rastros de nossas vidas

Diários hoje são, na maior parte das vezes, privados. Esses diários da Nova Inglaterra, por outro lado, eram frequentemente compartilhados. Jovens mulheres casadas costumavam mandar seus diários para os pais como maneira de manter as relações familiares. Quando a família ou amigos vinham visitar, não era incomum que todos sentassem e percorressem juntos o diário de alguém. No fim do século 19, pais vitorianos frequentemente liam em voz alta os diários de seus filhos no fim do dia. Esses registros não eram registros com cadeado, feitos exclusivamente para os olhos do autor, mas um meio de compartilhar experiências com outros.

Diários não eram a única mídia que pessoas usavam para documentar suas vidas e compartilhá-las com outros. Álbuns de recortes, álbuns de fotos, livros de bebês e mesmo projeções de slides foram modos de fazer isso no passado, para diversas plateias. Juntos, eles sugerem que há muito tempo usamos mídias como maneira de criar rastros de nossas vidas. Fazemos isso para entendermos a nós mesmos, para ver tendências em nosso comportamento que não enxergamos durante a vivência de experiências. Criamos rastros como parte de nosso trabalho de identidade e como parte de nosso trabalho de memória. Compartilhar eventos mundanos e diários pode reforçar conexão social e intimidade. Por exemplo, você tira uma foto do primeiro aniversário de sua filha. Não é apenas um marco de desenvolvimento: a foto também reforça a identidade da própria unidade familiar. O ato de tirar uma foto e compartilhá-la orgulhosamente reafirma ainda uma pessoa como bom pai e atenciosa. Em outras palavras, os rastros de mídia dos outros aparecem em nossas próprias identidades.

Ao comparar velhas e novas tecnologias que permitem que registremos nós mesmos e o mundo em volta, podemos começar a identificar o que é realmente diferente no ambiente conectado contemporâneo. Partindo de um modelo de difusão de mídia do século 20, as plataformas de redes sociais atuais são, em grande parte, de uso gratuito, ao contrário dos diários históricos, álbuns de recortes e álbuns de fotos, que as pessoas tinham de comprar. Hoje, a propaganda subsidia nosso uso das plataformas conectadas. Assim, essas plataformas são incentivadas a encorajar o uso de suas redes com o propósito de conseguir públicos maiores e atingi-los com maior precisão. Nossas fotos, posts e likes são produtos – isto é, são usados para criar valor por meio de uma publicidade cada vez mais direcionada.

Não quero sugerir que, historicamente, usar mídia para criar registros nossos ocorreu fora do sistema comercial. Há muito tempo usamos produtos comerciais para documentar nossas vidas e compartilhá-las com os outros. Às vezes, o conteúdo chegou a ser comercializado. Livros de recortes do começo do século 19 eram cheios de material comercial que as pessoas usavam para documentar suas vidas e o mundo ao redor. É fácil pensar que, uma vez que você compra um diário ou livro de recortes, ele pertence a você. Mas, obviamente, os exemplos de diários que iam e voltavam, ou de pais vitorianos lendo os diários de seus filhos em voz alta, complicam as noções de uma posse singular no âmbito histórico.

O acesso comercial a nossos registros de mídia é também historicamente complexo. Por exemplo, as pessoas costumavam comprar suas câmeras e filmes da Kodak, depois enviavam o filme para a Kodak para que fosse revelado. Nesses casos, a Kodak tinha acesso a todos os rastros, ou memórias, de seus clientes. Mas a empresa nunca comercializou esses registros da maneira como as plataformas de mídias sociais fazem hoje. A Kodak vendeu aos clientes sua tecnologia e seus serviços. A empresa não deu isso em troca da exploração dos registros de seus clientes com o propósito de vender anúncios direcionados a eles da maneira que as plataformas de redes sociais utilizam nossos registros para nos atingir hoje.

Em vez de as redes sociais apenas nos conectarem, elas se tornaram um culto de notificações, sempre tentando nos atrair com a promessa de conectividade social – é o aniversário de alguém, você tem uma memória de Facebook, alguém curtiu sua foto. Não estou defendendo que tal conexão social não tenha significado ou seja real, mas acredito ser injusto presumir que as pessoas sejam cada vez mais narcisistas por usarem essas plataformas. Existe uma indústria multibilionária nos puxando para nossos smartphones, apoiando-se na antiga necessidade humana por comunicação. Compartilhamos experiências diariamente porque isso nos ajuda a nos sentir mais conectados aos outros, como sempre foi. A vontade de estar presente nas redes sociais é muito mais complexa do que mero narcisismo. As redes sociais de todos os tipos não apenas permitem que as pessoas vejam seus reflexos, mas que também sintam suas conexões.

Lee Humphreys é professora-adjunta de Comunicação na universidade Cornell, no estado de Nova York. Ela é a autora de “The Qualified Self: Social Media and the Accounting of Everyday Life” (O ‘eu’ qualificado: redes sociais e o registro da vida diária, em tradução livre) (2018).

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